25 de set de 2007

O TEATRO PRÍNCIPE E O GINÁSIO



Voltemos, porém à nossa vida de rapazes, em fins de Natal: à noite íamos até ao Gimnásio, instalado no Teatro Príncipe D. Carlos, construção bonita e risonha, formando o quarteirão, em frente, entre as Ruas do Prín­cipe e Fernandes Tomás.
Creio recordá-lo bem: o rés-do-chão, de pé direito, alto, cheio de portas, o primeiro ainda com três sacadas em fachada principal, frente à doca desassoreada, com um terraço aberto com varanda de balaústre, a cada esquina, tendo à entrada um largo vestíbulo, por baixo do salão da frente, onde havia dois bilhares e uma sala de jôgo, de cada lado.
O vestíbulo dava para um corredor, donde se entrava para a plateia e se subia, de ambos os lados, para as duas ordens de camarotes, para o salão e para as varandinhas junto ao teto.
No rés-do-chão, à frente, de cada lado do vestíbulo, por debaixo dos terraços, guardavam-se as guigas dos treinos e das disputadas competições com a Associação Naval 1.° de Maio.
No Gimnásio juntava-se muita gente moça da Figueira e nêle pontificava um desportista completo, recém­-formado em Filosofia, enérgico, desembaraçado e apru­mado, com a sua barba ruiva em bico, o Dr. António César de Almeida Rainha.
Por lá passaram os irmãos Franco, e como figura destacante, de rara distinção, o Álvaro, meu querido amigo, condiscípulo e companheiro de casa, em Coimbra, advoga­do consideradíssimo no fôro de Lisboa, onde é, também, autoridade em assuntos internacionais de diplomacia e de Finanças.
O Gimnásio tinha sido inaugurado no primeiro de Janeiro de um ano qualquer, e em todos os anos seguin­tes, nesse mesmo dia ia festejando a sua idade crescente, em sessões solenes, com música, discursos e bodo aos pobres.
Lembro, também, com nitidez, uma dessas solenida­des; no palco, ao centro, a mesa de honra, a que presidia invariavelmente uma respeitável figura local, o comenda­dor Aníbal de Melo, com a sua comenda na sobrecasaca, ladeado de dois secretários que alternadamente liam a correspondência recebida, alusiva à festividade.
Atrás, à esquerda, a filarmónica «Dez de Agôsto» e à direita a «filarmónica Figueirense», duas bandas afina­das, que alternadamente tocavam o hino do Gimnásio, e entre elas, representantes fardados dos bombeiros Municipais e dos bombeiros Voluntários, que depois faziam a distribuição do bodo.
A correspondência, uma grande e enternecida lição de bairrismo, vinte ou trinta cartas escritas com larga ante­cipação, em que os figueirenses dispersos por todo o mundo, especialmente pelo Brasil, África, América do Norte, vinham, lá de longe, felicitar o Gimnásio, pelo ani­versário certo, que passava, e endereçavam votos de pros­peridade à agremiação bem querida. Lida esta, destacava-se o orador oficial, de fraque, e lembro bem grande parte do discurso, dum dêsses oradores, o Fernando Marques Pinto.
O Augusto Pinto, estudante e literato de espírito cin­tilante, hoje um grande jornalista, deitava, às vezes, fala dum camarote, inspirado; com gestos largos dos seus bra­ços compridos, e olho apaixonado nalguma costureirinha galante da plateia. ­
Um dia, ou antes numa madrugada, noite trágica, mais tarde, viria a desaparecer num incêndio total, impossível já de combater, cheio como estava de confetti, duma das suas inolvidáveis noites de Carnaval.


Salinas Calado, A Figueira no dealbar do século XX, conferên­cia proferida em 1941 na Assembleia Figueirense, rep. in Ginásio Clube Figueirense de J. Sousa Cardoso, 1944

24 de set de 2007

A VELHA AIA

A velha Aia cantando
Vae dobando o brando linho
E a roca devagarinho
Vae dobando, vae chorando…

E a velha Aia cantando
Vae dobando com carinho,
O brando linho d`arminho…
…e vae dobando, rezando…

Lá fora a lua desmaia,
Já cessou a ventania
Sua canção d`agonia…

Só a voz da velha Aia
A dobar o linho brando
Soluça, morre, cantando…

Manuel de Sousa, 1917

22 de set de 2007

PARA NÃO MAIS SE LER

*Sendo certo, que a ordem da escripturação das actas camarárias foi interrompida por conselho meu e aprovação da Câmara, suspendendo-se, e extinguindo-se o uso d`este livro, para mais não servir, por que era o deposito dos criminosos actos das câmaras rebeldes a favor do usurpador, para se continuar no antigo que só tenha servido nas anteriores epochas em que fora conhecida a liberdade em Portugal, aliás no antigo e assim prosseguir a série dos actos debaixo da legitima authoridade da Rainha sendo por isso que neste effectivamente mais se não escreveu desde o glorioso dia 8 de Maio do corrente ano.
Finalmente para que não fique ineficaz nesta parte aquella determinação estranhando alias muito ao que então servia de secretario da Câmara que devia por em execução aquella sobredita ordem deixando em boa fé os empregados d`ella acerca de um semelhante livro que mesmo se não abriu nem muitas vezes se abrirá a mim principalmente que me havia retirado a Presidência pela posse do novo juiz de Fora meu antecessor egualmente em boa fé, não podendo eu agora presumir que ele deixasse de fazer o que se tinha determinado e para que se cumpra (…)mando se tranquem para mais se não poderem ler nem por qualquer forma interpretar todos os assentos e quaisquer actos da epocha horrorosa em que o infame usurpador regeu em Portugal (…)
Figueira, 8 de Setembro de 1834 – o presidente da actual câmara interina António Roberto de Oliveira Lopes Branco.

*Livro 6 das actas rep. em Revista da Figueira, nº 2, Out 1917

Lopes Branco foi juiz de Fora interino da Figueira de 8 de Maio a 17 de Setembro de 1834. Neste ano, os liberais triunfaram sobre D. Miguel, que foi expulso do país nos termos da Convenção de Évora Monte.

18 de set de 2007

AINDA O CINEMA...

* Sim, era uma vez um rapaz chamado J. Oliveira Santos (a quem os amigos tratavam meramente por Jota). Compunha versos, escrevia artigos em jornais, todo ele um nervo sensitivo mas sem o alimento cultural adequado. Até que, um dia, a novidade estoirou, grandiloquente, pelo burgo: Oliveira Santos dispunha-se a fazer um filme sobre a Figueira: «Dois Corações... Um Destino». Pelo título se poderá aquilatar do contexto.
Jamais o ingénuo fantasista entrara num estúdio. De cinema, portanto, não sabia nada. O operador era Manuel Santos, antigo comerciante com alguns meios de fortuna. Este émulo de Paz dos Reis possuía uma câmara manual, assaz rudimentar, com que se comprazia, por desfastio, a fixar as regatas, cenas de praia e pesca, touradas e concursos hípicos. Com todos os defeitos, por conseguinte, de quem se habituara a ver no bilhete postal o supra­-sumo da arte cinematográfica. .
J. Oliveira Santos «vestia-se» de realizador, isto é, enfiava uma camurcina branca, com o cinto a vincar-lhe fortemente o estômago, acocorava-se junto do tripé, e gritava, pelo majestático megafone, com muita ênfase, muito brio, estas duas expressões apenas: «filma» e «corta». Como não havia som, como o som não era síncrono, nem havia iluminação adequada, nem, enfim, se atendia àquele mínimo de preceitos técnicos necessários a um filme, o resultado estava bem à vista: umas figuras pasmadas de reportagem de cinema mudo, a abrirem e a fecharem puerilmente a boca, a derivarem algo bruscas e grotescas pela pantalha e a ges­ticularem em conformidade. Uma parvoíce. . .
O filme, é bom que se esclareça, embora pretendesse ser uma obra de fundo, com acção e personagens várias, visava a propagandear as belezas da Figueira. Como, porém, faltasse o dinheiro para levar a empresa por diante, decidiram, decidiu J. Oliveira Santos, começar pelo fim, quer dizer, fazer um «trailer», uma amostragem capaz de revelar às forças vivas as virtualidades hollywoodescas da terra, e com isso obter os fundos necessários à ultimação da fita: Uma originalidade; creio bem, em toda a his­tória do cinema. .
E os actores? Ora vejamos. Ela chamava-se Madalena Ótão (hoje Madalena Soto), e ele, na vida real marido dela, Manuel Brandão. .
Este Manuel Brandão, filho embora de pais portugueses, era brasileiro. Autor de dois livrinhos de versos (falta-me a paciência para ir lá acima vasculhar a biblioteca), era um moço simpático, esguio e moreno, porém doentiamente ciumento. Algo como um cantor de tangos da época.
Enquanto, por exemplo, a mulher levantava voo do campo Humberto Cruz, entregue a um piloto qualquer, ficava-se ele, cá em baixo, com um grupo de amigos, a rilhar o lábio nervoso.
Entre os autores da música do famigerado «Dois Corações... Um Destino», estava eu, que completara pouco antes dezoito anos. Tudo então eram pretextos para almoçaradas e jantaradas de todos os intervenientes no filme. Comia-se e bebia-se desalmadamente. Dinheiro,- donde vinha, não sei. Havia contudo o Luís Lopes de Oliveira, filho de um pesado negociante de vinhos e azeites, que sempre me parecera sensível à cheirosa frescura da Madalena. E umas letras que o Cândido J. Oliveira Santos ia sacando do banco onde estava empregado.
Uma noite, eu a chegar ao Bairro Novo e o Luís Lopes, com toda a equipa, muito obediente, à sua volta, a dizer-me, assaz deci­sivo e patrocinador:
- Você tem de partir amanhã de manhã para Lisboa. É pre­ciso contratar a Orquestra Sinfónica Nacional para gravar a mú­sica do filme.
Tímido, varado, aquilo pareceu-me, confesso, excessivo. Mas quem era eu para contrapor fosse o que fosse? Aliás, o que se pretendia de momento, agora que se aproximava a estreia do «trailer», era que eu gravasse ao piano os temas principais, que haviam de acompanhar os 160 metros de película até então im­pressionados. Passaram-me para as mãos uns contos de réis e aí vou eu (no fundo muito satisfeito) a caminho de casa a preparar as malas.
Desembarquei em Lisboa por volta da uma e meia da tarde. Corria o mês de Julho de 1938- um Julho ardente e fulgurante que me fez bater as pálpebras quando, soberbo, me dirigi para o Suíço, famoso restaurante à esquina dos Restauradores com o Largo D. João da Câmara.

(…) Meia hora depois entregavam-me gratuitamente o disco que me apressei a ir guardar no hotel. Andei na pândega duas noites e, na véspera do dia da estreia do «trailer», dei-me ao cuidado de mandar um telegrama ao J. Oliveira Santos: «Chego amanhã de manhã. Abraços.»
O calor, em Lisboa, era de estucha. Ainda cedo, aí pelas oito, já o comboio ardia sob as cúpulas de ferro do Rossio. Tomei com muito garbo a minha 1.a classe - é sempre bom, confortável e re­confortante, viajar por conta alheia -, e arranjei lugar ao pé da janela. .
O disco, em vez de o ter metido na mala, não, senhor. Levava-o à parte, talvez para poder mirar-me nele, gozar-me do seu corpo redondo e flexível. E, agora, onde arrumá-lo? Em cima da mala, podia escorregar; na rede, ficaria a bem dizer suspenso e portanto sem apoio. Eureca: debaixo do banco. Aí é que ele iria bem.
Lá para as bandas das Caldas, e eu, satisfeito, bastante satis­feito, a degustar por antecipação aquele êxito - tinha, não o es­queçamos, dezoito anos -, começo a ver qualquer coisa como uma bicha negra a serpentear pelo chão da carruagem, uma escorrên­cia repugnante de alcatrão.
Aflito, sufocado, curvo-me, espreito, surpreendo com horror o disco convertido numa espécie de manteiga negra que vergonho­samente alastrava aos altos e baixos pelas réguas do pavimento. (…) Quando, por volta da uma da tarde, cheguei à Figueira da Foz, a estação abarrotava de gente à minha espera: toda a equipa do filme e enervantes aderentes, que muitos eram, além dos infa­líveis mirones.
Fomos dali em cortejo automóvel até ao Parque-Cine, incrível barracão no qual, de Inverno, até lhe chovia dentro. Cinco ou seis de nós, com o J. Oliveira Santos, lesto, a comandar, subimos à cabina. Pôs-se o disco, que entretanto secara, no prato do pick-up. Imagine-se a minha consternação, maior ainda, sem dúvida, que a dos outros: a voz do Pessa, mas já um tanto grave, um tanto perra, a querer dramaticamente extinguir-se: «Céu.., éu... ,éu... da Fi…Fi… (o Oliveira Santos, com o dedo, a fazer girar o disco). Música de…de…de…

* Luís Cajão, As Torrentes da Memória, 1979

17 de set de 2007

JOÃO CÉSAR MONTEIRO (1939-2003)



*“Tive infância caprichosa e bem nutrida, no seio de uma família fortemente dominada pelo espírito, chamemos-lhe assim, da 1 ª República. Escusado será dizer que abundavam os dichotes anti-clericais, muito embora o meu pai desejasse que eu viesse a seguir a carreira eclesiástica. Em suma: não se percebia nada. Pelo menos à primeira vista.”
“(...) fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do Dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade e nunca mais fui visto na companhia de políticos. (...) Filho que era de meu pai, atravessei senhorialmente muitos e variados empregos, mas em breve me apercebi que já não podia olhar o mundo da mesma maneira. Fui até Paris para ensaiar até onde me era possível ir. Não me era possível ir muito longe. Meses depois, «ayant connu pas mal de choses» era repatriado. Em 1960, encontrei o Sr. Seixas Santos que teve a bondade de me ensinar um pouco do muito que sabe de cinema.(...)”
“(...) trabalhei como assistente de realização do Sr. Perdigão Queiroga e admito que poderia ter aprendido mais qualquer coisinha se não tivesse sido tão presunçoso. Em 1963, na injusta qualidade de bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, parti para Londres a fim de frequentar a London School of Film Technique. Suponho que nunca por aquela escola passou aluno tão mau, mas nesse passo não tive grandes culpas no cartório: é que de facto os ingleses não nasceram para o cinema. (...) Em 1965, conheci o Paulo Rocha e os seus Verdes Anos, o Fernando Lopes e o seu Belarmino. Tomei-me de amizade pelo Fernando e de amores pelo filme do senhor Rocha, cujos hábitos de anacoreta o tornavam pouco acessível.”
“(…) Nesse mesmo ano, tentei pôr de pé um projecto de filme em 16 m/m, intitulado Quem espera por sapatos de defunto morre descalço. Dois dias de filmagens e rabinho entre as pernas. Falta de xis.(...) De novo na vida civil, os meus excessos ultra-românticos, temperados pela mais nobre profundidade sentimental, tiveram enfim (ai filhas de Sidon) a justa consagração, o que não me livrou de amouchar durante um ano como escriba de Filmes Castello Lopes, Lda.”
(…) O filme começou por ser relativamente mal recebido junto do Mecenas (quereriam ópera por 180 contos?), continuou, pateado num festival no Sul de Espanha e foi friamente acolhido pelos críticos presentes em Nice, aquando da chamada Semaine du Jeune Cinéma Portugais. Foi pena, porque me teria dado jeito, sobretudo no que toca à fruição de algumas benesses locais, mas já que não pôde ser, paciência! Tirando isso, aproveitei a estadia niceoise para comprar um lindo fato de banho de duas peças com a nota de 100 francos que o João Bénard me emprestou e ameacei partir uma garrafa de tinto na cabeça do Cunha Teles que, impensadamente, me chamou oportunista.”
(…)"Andar no cinema para ser contaminado por gravíssimos defeitos de carácter não é coisa que se faça a um velho católico e apostólico romano. Não acredito que se possam fazer bons filmes em pecado mortal e, por isso, espanta-me que a cólera do Senhor não se tenha ainda abatido sobre mim. É certo que o Senhor conhece a extrema pobreza em que vivo e, não obstante os caminhos da perdição serem infinitos, tem-me guiado certeiramente no exercício da minha arte."

* Da obra do cineasta, A Minha Certidão (&ETC, nº 4, 28.02.1973).

13 de set de 2007

SANTA MARIA DE CEIÇA*



Se a terra falasse, havia de contar, por entre abundantes lástimas, muitos sinais do amor dos homens por ela... Terra humanizada é sem­pre mais que terra trabalhada. Se o homem só a quisesse como nascen­te de ouro, talvez já ela se tivesse extinguido. Mas, se a terra dá o pão à gente, também nós lhe damos pão. E o pão mais rico que lhe damos não é tanto a semente que a fecunda; é a alma que lhe confiamos.
Estou-me agora a lembrar de uma certa terra, entre dunas que os pi­nhais cobriram, e o campo aberto pelas águas que descem de Sicó em busca do Mondego, e o Mondego leva ao mar. O nome que lhe dou, vou agora apenas segredá-lo, já que me não deu ela licença para o re­velar. E ela sabe que nem a quero trazer para as bocas do mundo, nem ela é mais que as suas irmãs, dispersas naquela fita de chão que tem ao sul a Saunum dos Romanos e ao norte o Monte Maior da Reconquista, e que a poente se debruça sobre a Figueira e a nascente adivinha Coimbra, a sempre desejada.
Não. Não é esta uma língua de terra que claramente fale de coisas espirituais. Até as tradições do povo se foram afogando e enleando na poderosa floração urbana. Por isso, é mais profunda a voz que sobe da terra, como a descarnar todas as raízes e a forçar os homens a reconhe­cerem-se nos sinais.
Não foi Coimbra, a Rainha Desejada, que deu vida a este rincão. Nem a Figueira, nem Montemor, nem Soure. Como tantas outras re­giões portuguesas, esta (feita da minha terra e das suas irmãs) teve por pai um Rei e por mãe uma ordem religiosa. A minha «pátria chica» descende de D. Sancho, o Velho, e do mosteiro de Ceiça, um dos de Cister.
Pelos anos em que nascia António de Lisboa e (diante de Deus e dos homens) crescia e todo se dava eucaristicamente e depois se recolhia em Coimbra e, do esplendor da Santa Cruz, subia à ermidinha de Santo Antão dos Olivais - por esse tempo de poisio das armas e de ar­rotear da gleba-, o Povoador, lá no plano da vontade soberana, deci­dia que estas dunas (ainda hoje recheadas de fósseis marinhos) e esta lezíria de boas águas começassem a dar berços e pão. Ao mesmo tem­po, Santa Maria de Ceiça (que o Destino traiçoeiro havia de tornar, sé­culos volvidos, em barulhenta fábrica de descasque de arroz!), por seu lado actuando no plano próprio das Regras de criação de S. Bento, ia ensinando a gente rude (vinda sabe Deus donde) a lavrar, semear, plantar, podar, enxertar, colher, enceleirar, prever - e, em tudo, orar e amar.
Ninguém veio depois que, destas boas coisas, soubesse tanto. O azeite, o vinho e a broa foram saindo da nossa mesa. Os Vigários de Ceiça foram perdendo o nome (que respondia, na memória dos po­vos, à antiga função de representantes do Abade em cada uma das fre­guesias nascidas do mosteiro) e até fugindo das igrejas e dos povoados rurais, para se concentrarem na sede do arciprestado. Já pela Páscoa santa não corre as ladeiras e as vielas, visitando todos os vizinhos, a Cruz do Senhor. Para encomendar os mortos na hora do beijo com a terra, chega uma estola envergonhada a manchar de roxo um casaco qualquer. Já o povo não guarda (a não ser por acaso) os domingos e dias santificados. Já a bem dizer ninguém pára e se benze ao tocar das Trindades. E as velhas ruínas (ruínas de ruínas, como dizia, de outras, o nosso mestre Hipólito Raposo) do que foi, há séculos, meio celeiro meio convento, e as últimas pedras da última capela de quinta dos fra­des estremecem um adeus ao Sol e, como pó que foram, também elas voltam ao pó.
Lá por dentro da minha igreja (erguida durante a Restauração, para aproximar mais o povo dos campos fecundos, enquanto a Igreja Velha ia ficando apenas um nome na memória dos velhos) já não há sinais das antigas sepulturas. À volta das paredes muito brancas (Deus as conserve!), já as últimas ossadas do antigo cemitério saltaram, ao en­contro dos ossos novos, que, lá ao alto, desde os tempos da anti-Maria da Fonte, dominam o horizonte dos vivos.
Terras por onde passa (a meia hora) a linha dos comboios e, um pouco mais além, a estrada de Lisboa ao Porto não podem ser terras de ceara farta do Espírito. A não ser, meu Deus, que seja certo que o Es­pírito sopra donde quer e para onde quer. E pode ser que lá venha o dia em que novos Povoadores e novas Cisteres, como os outros que despertaram dos séculos de ferro, tragam de novo a bênção. Já nem sei se de azeite, de vinho, de broa e de carqueja, de tojo e de giesta, de caça miúda e de couves mais altas que um homem - mas de Alegria, Senhor... Da alegria que nasce de um coração que aprendeu e com­preendeu a antiga e veneranda regra: «Ora et labora!».

* Texto de Henrique Barrilaro Ruas, in Cultura Portuguesa, nº 2 , Jan. 1982





11 de set de 2007

FIM DE ESTAÇÃO



*Passou-se o cabo ao vaporzito que punha, no ar delgado e macio, um penacho de fumo esgarçado. O molinete, a dar-que-dar, alou a gata. E o reboque começou a guiar o lugre para a barra.
A essa hora já a praia de banhos formigava de gentana. Era Outubro e ainda centenas de barracas se alinhavam, simétricas, pelo areal, como um acampamento bizarro de um grande exército mourisco – os topos abicados, reluzindo de brancuras. Nas esplanadas cimeiras, faiscavam grandes chapeirões, de lonas vistosas e garridas. Os galhardetes de cores berrantes, que demarcavam as companhias dos banheiros, desdobravam-se com graça. Uma avioneta amarela passeava pelo alto como uma libélula doirada. E a espuma das ondas que se desenrolavam lentas e mansas lembrava uma renda de prata a vestir a orla da saia de lhama de seda, que o mar punha à roda da Figueira.
(…) Corriam mulheres apressadas e lestas acompanhando a rota do barco. Garotada bravia pinchava, paredão fora (…).
O mercado com as marquesas de ferro, o jardim público – mancha de verdura reluzente – o Cais, as duas praças, de jeito pombalino, com seus monumentos, a avenida formosa e ribeirinha ladeada de árvores roliças, tudo foi catado, com acesa curiosidade, por suas pupilas irrequietas.
O lugre desceu até ao trapiche. Arreou o ferro. Despediu o reboque.

*In João Fané, banquista, de Raymundo Esteves, 1942

9 de set de 2007

* VIAGEM NA NOSSA TERRA

LOURENÇO VIEGAS: (sempre risonho, a gostar) Parece-me que vejo tremer o Cardeal Legado, levantar-se e responder: «Não venho tra­zer-vos riquezas, mas a ensinar-vos a fé vim eu, que dela parece vos esquecestes...».

D. AFONSO HENRIQUES: Não me contive e explodi com braveza: «Calai-vos, Dom Cardeal, que mentis pela gorja! Ensinar-me a fé!!! Tão bem em Portugal como em Roma sabemos que Cristo nasceu da Virgem Maria, que como vós outros cremos na Santa Trindade!

GONÇALO DE SOUSA: Os vossos olhos chamejavam de furor...

LOURENÇO VIEGAS: Toda a ousadia do Legado desapareceu como fumo. E sem afinar com resposta para vos dar saiu do alcácer... (rindo)

D. AFONSO HENRIQUES: Pois foi assim, Lourenço Viegas... Dei a Coimbra um Bispo que me excomungou, porque assim o quis o Papa. Dei-lhe outro para me absolver, porque assim o quis eu.

LOURENÇO VIEGAS: (comentando, a rir) O Bispo Negro!... (afasta-se uns passos, fica olhando a barra e o rio.) Grande e belo estuário, este do Mondego!... (Antão Fernandes, que tinha entrado mo­mentos antes, ficou-se a observar; aproxima-se de Lourenço Viegas, que parece embevecido na contemplação de Rio e Mar...) I

ANTÃO FERNANDES: E vai assim, largo, grande, até Montemor... (Lourenço Viegas só agora repara nele, olha-o, fala depois)

LOURENÇO VIEGAS: Pelo que dizes, conheces bem o Rio Mondego...

ANTÃO FERNANDES: Conheço muito bem, até Coimbra. Tenho passado a vida aqui, nesta grande bacia do Mondego.

LOURENÇO VIEGAS: Quem és tu? O que é que fazes?

ANTÃO FERNANDES: O meu avô - já morreu há uns anos - era piloto aqui na barra do Mondego; eu sou calafate. Trabalho numa das tercenas que constroem e consertam embarcações. Chamo­-me Antão Fernandes. E vossemecê é o senhor D. Lourenço Viegas... (espanto e sorriso deste) Disse-me um rapaz que é carpinteiro de machado e esteve a falar com um marinheiro do barco do senhor Rei D. Afonso Henriques. E até me disse que Vossa Senhoria era Espadeiro... (risos de Lourenço Viegas)

LOURENÇO VIEGAS: Estás bem informado, rapaz... (Transição, rindo) Vejo que conheces bem o estuário do Mondego e o movimento da sua navegação. Mas talvez não saibas que desde os tempos antigos demandavam a foz do Mondego embarcações gregas, romanas, e outras...

ANTÃO FERNANDES: Isso não sabia, não senhor. Mas posso dizer-lhe que vi - há... uma dúzia de anos - (recordando) foi no ano de 1147 - uma coisa grande, que nunca mais me esquece: uma multidão de navios grandes e pequenos, fustas da armada real, galeras, caravelas, abrigadas aqui nesta grande ensea­da do Mondego, para acompanharem as forças navais da Cruzada que ia conquistar Lisboa.

MARTIM GONÇALVES: (Indo ao Rei) Quando Vossa Mercê desejar subir à Abadia.. .

D. AFONSO HENRIQUES: Lourenço Viegas! (para os outros) Vamos então ver a célebre vinha do Abade Pedro! (Saem todos falando alegre­mente, com grande animação)

*Extracto da peça de José da Silva Ribeiro (1894-1990), Viagem na nossa Terra

5 de set de 2007

O FESTIVAL



* A Figueira - zona de turismo e jogo – viu-se subitamente invadida por um grupo de pessoas que a ela ia, não para jogar, não para ouvir cantar o Tony de Matos, não só para apanhar sol na praia e mergulhar nas águas da baía. Vinham de vários lados e o que os reunia era sobretudo uma semana para ver cinema e discutir cinema.

No campo cultural pode mesmo afirmar-se que é (o Festival de Cinema da Figueira da Foz) uma das raras instituições a projectarem-se internacionalmente, e com ela o nome do país.
(…) Não se pode todavia garantir que o seu percurso tenha sido (…) isento de altos e baixos, de crises e de incertezas, bem como de apaixonadas polémicas. Foi afinal este trajecto algo tumultuoso, por vezes mesmo conflituoso (saudavelmente conflituoso, acrescente-se) que terá provavelmente ajudado a criar uma imagem, definir um estilo, impor uma personalidade.
Em Setembro de 1974 teríamos a 1ª edição do Festival, afastado que foi o espectro da censura que tornava anteriormente irrealista qualquer hipótese de se erguer uma manifestação deste género, com um mínimo de dignidade e representatividade. 1974-1975 são edições de transição, a que se segue um período mais largo (1976-1979), durante o qual o Festival se interroga, em busca de uma identidade, procurando instalar-se em espaço próprio que seja só seu. Isso mesmo parece ter sido conseguido. Os anos de 1980-81 são já de uma certa maturidade (…).
(…) Outro aspecto interessante foram as sessões promovidas pelo Festival em várias localidades da região, bem assim como as extensões do certame a outras cidades: Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro, Guarda, Funchal ….
(…) A partir de 78, sobretudo, mas com maior incidência nos anos de 80-81 o Festival afirmou-se como local de eleição para apresentação pública do cinema nacional (…). O prestígio internacional do Festival foi crescendo, afirmando-se por diversas formas. Depois da presença da FIPRESCI é a vez de a Comissão Internacional para a Difusão das Artes e das Letras pelo Cinema escolher a Figueira para reunir e aí passar a atribuir uma das suas onze medalhas anuais.
(…) O Festival cumpre um papel que de outro modo seria improvável ver-se satisfeito em Portugal : assistir à projecção de obras de países de produção quase desconhecida nos mercados tradicionais.
(…) (A Câmara conferiu) ao Festival a Medalha de Mérito de Ouro da Cidade, uma recompensa merecida pelo muito que o Festival tem feito pela cidade, sua promoção cultural e, inclusive, turística.
(…) Impensável será agora parar a máquina, privar o País de um acontecimento de tamanha repercussão interna e externa.

* Lauro António, Dez anos de Cinema em Festival, Figueira da Foz, 1982
O FICFF fez 31 edições e terminou em 2002.

3 de set de 2007

ANTROPOFAGIA NO CABO MONDEGO


*Assim é nossa convicção que os dados recolhidos até ao presente nas estações da serra do Cabo Mondego não tendem a demonstrar por qualquer modo o costume do canibalismo entre o povo ou tribo que na época neolítica habitou por estes sítios; antes mostram o contrário, isto é, que esse selvagem, nosso antepassado, pobríssimo de tudo, respeitava e encerrava os mortos, cercando-os de todas as seguranças ao seu alcance, para que a paz do túmulo não fosse perturbada nem pelas profanações dos homens, nem pelos animais faminto
Tão grande era este seu empenho que até os mais pequenos interstícios dos suportes das antas eram cuidadosamente vedados com lascas de pedra!
E com que piedade ele depositava junto do cadáver todo o necessário em armas, utensílios e alimentos, para que os entes queridos pudessem seguir a grande viagem, sem sofrerem privações e quiçá para continuarem no seu sonhado Olimpo a vida deste mundo!
É que tudo isso podia ser consagrado apenas aos restos ósseos daqueles a quem tinham a bestial crueldade de devorarem as carn­es?! Os fragmentos de ossos careciam de antas bem vedadas, de armas, de utensílios, de comida? Onde já se viu o canibal nutrir aquelles sentimentos de ternura pelos ossos das suas vítimas?
É preciso sermos razoáveis tanto em ciência como em tudo mais Avançar a uma proposição, quando todos os factos protestam contra ela, é substituir o arbítrio à lógica, e desviar a ciência por veredas tortuosas, onde os prejuízos disputam a palma ao erro.

* António dos Santos Rocha, “A questão da antropofagia nas estações neolíticas da serra do Cabo Mondego”, in Memórias e e explorações arqueológicas, Univ. Coimbra, 1975.

Santos Rocha, (foto) (1853-1910) arqueólogo eminente e jurista de vulto, desempenhou diversos cargos públicos; fundou o Museu Municipal e a Sociedade Arqueológica Figueirense (V. post, Novembro de 2004). Neste texto, o arqueólogo figueirense refuta, em resposta a certa "crítica", conclusões como a seguinte: "que o canibal da serra do Cabo Mondego misturava o cérebro do seu semelhante a alguma bebida, provavelmente no próprio crânio, que era em seguida levado ao fogo e depois partido para lhe explorar os recessos ósseos".

1 de set de 2007

JOAQUIM NAMORADO (1914-1986)


Partem navios
E chegam navios
De todos os pontos cardeais,
Só eu fiquei
Sonhando os orientes
No cais.

Outros partiram…
- Tantas vezes me chorei perdido
E vencido me arrastei
No sabor das tempestades e dos fados…
Tantas vezes fui o herói da aventura,
O navio naufragado…
E sempre ressuscitei
No cais.

Que em mim vive esta ânsia
Sempre nova
Da largada.

Joaquim Namorado, Aviso à Navegação