9/Mai/2008

AUTO DE ACLAMAÇÃO de D. MARIA II



Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1834 aos 8 dias do mez de Maio do dito anno n`esta villa da Figueira da Foz e casas da câmara d`ella onde se achava reunido o clero, nobreza e povo d`esta mesma villa, depois de eleito por unânime aclamação a câmara interina composta do juiz José da Costa Diniz, dos vereadores o Bacharel José Tavares de Goês Nobre, João Fernandes Thomaz, Francisco Luiz Affonso da Costa e do procurador Joaquim Malheiro de Mello, e dos mais empregados publicos, e povo abaixo assignado, unânime, expontanea e livremente por elles proclamado o Legitimo Governo da Nossa Idolatrada Rainha, A Senhora Donna Maria Segunda, cujo excellso governo, athé agora se achava interrompido, mas nunca esquecido dos honrados Habitantes d`esta villa. Embora os inimigos das liberdades dos povos tivessem feito calar em seus corações sentimentos que agora tão livremente exprimem mas nunca foram capazes de os fazerem mudar, nunca decerto os inimigos se attreverão a manchar o nome d`esta Villa tão decantada por elles mesmos, como o centro do liberalismo, com um corpo organizado em forma de batalhão nunca decerto o nome da Figueira luzia nas fileiras do usurpador; seus habitantes são mais nobres e indignos de mancharem-se na perfídia. Os nobres esforços, o Patriotismo inibitavil do Nosso Augusto Regente, O Senhor Duque de Bragança, não deixando de ser recordado por nós, não podia porem soltar-se as nossas vozes livremente; Hoje pois ellas se ellevão aos céus com a expansão mais viva da nossa gratidão, e n`este dia tão allegre para os fieis Portugueses Figueirenses, elles se juntarão pela maneira exposta, e mandarão fazer este auto de aclamação da Mesma Augusta Senhora Donna Maria Segunda, Única Legitima Rainha d`Estes reinos e assinarão em câmara e jurarão observar a própria custa de suas vidas e sendo levantados os Vivas a mesma Augusta Senhora, a Carta Constitucional e ao regente d`estes Reinos foram correspondidos com enthusiasmo supperior a todo o ellogio de que se fez o presente auto que o juiz, vereadores e mais clero, Nobreza e Povo assignarão comigo, Francisco José Ferreira d`Araújo, escrivão interino da mesma câmara, o escrevi e assignei.

Cit. Por José Jardim, Notas d`um Figueirense, in Revista da Figueira, nº 1, 1917 com a menção: “Transcripto no livro nº 5 dos actos, fls 145 v.146, 147”.

25/Abr/2008

FIGUEIRA DA FOZ - 25 DE ABRIL DE 1974



-Em 23 de Abril de 74 o Capitão Dinis de Almeida deslocou-se a Lisboa a fim de se apresentar no tribunal onde fora chamado. À tarde chegou à Figueira da Foz o Capitão Pizarro que me expôs a sua situação. A Companhia com que contava encontrava-se em exercícios no campo não me podendo garantir a sua arrancada. Caso lhe fosse possível poderíamos contar com ele. Se não pudesse arrancar com a coluna viria só, juntar-se a nós. Ninguém até esta altura, dentro do Aquartelamento do R.A.P. 3, estava a par do que se planeava. O Capitão Dinis de Almeida havia Iniciado uma campanha de mentalização cuidada entre os seus recrutas. Recordo, por exemplo os versos de António Aleixo que em uníssono ele encorajava a cantar:
«Vós que lá do vosso Império
Prometeis um mundo novo,
Calai-vos, que pode o povo
Qu'rer um mundo novo e sério»

«Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão?»

No dia 25 de Abril à hora prevista, é tomado o Regimento após terem sido avisados os camaradas da E.C.S. que lá fora aguardavam desesperados desde a 1 hora. Eram 3 horas e 40 minutos chega a altura de Aveiro. Chegava antes da hora prevista e Isso ía alterar os planos por nós traçados anteriormente. O movimento gerado la acordar o Cor. Aires de Figueiredo e o Major Malaquias que nesta altura ainda não sabíamos que não se encontravam a dormir no quartel. Imediatamente o Cap. Diniz de Almeida se dirigiu à messe de oficiais. Já o comandante se levantara e se dirigia para o quartel. Foi Intimado a render-se tendo então sido detido. Teve que se aguardar a saída dos presos da prisão do quartel e limpeza da mesma para nela se meter provisoriamente o Cor. Figueiredo. Logo que foi possível foi transferido para o seu quarto dando-lhe toda a liberdade que na altura era aconselhável. Quando deu entrada na prisão apresentou-me voluntariamente uma pistola que trazia no bolso. - Todos os oficiais e sargentos milicianos bem como os praças presentes no quartel aderiram imediatamente e se colocaram inteiramente à nossa disposição.
A coluna de Aveiro entrou para o quartel aguardando a preparação da coluna do R.A.P. 3 e a chegada da coluna do C.I.C.A 2 e do R.1. 14. Entretanto assumia o Comando do R.A.P. 3 o Capitão Ferreira da Cal, como oficial mais antigo, que juntamente com o Cap. Moço e Ten. Garcia haviam vindo de Águeda. A coluna foi formada rapidamente; a colaboração de todos foi admirável. Do R.A.P. 3 saíram 6 bocas de fogo 10,5 cerca de 300 homens transportados em 40 viaturas. A coluna do C.I.C.A. 2 entrou no R.A.P. 3 pelas 6 horas. Esperava-se pela do R.1. 14 que não chegara ainda. Pelas 7 horas saiu a coluna em direcção a Leiria e um quarto de hora depois aparecia do R.1. 14 que se lhe foi juntar no percurso.
Constituiu-se assim o -Agrupamento NOVEMBER- com cerca de 60 viaturas e mais de 500 homens. - A partir desta altura a vida da unidade decorreu normalmente sem os oficiais superiores que entretanto ficaram em casa bem como a grande maioria dos restantes oficiais e sargentos do O.P. A porta de armas manteve-se fechada. O pessoal que seguiu na coluna com os objectivos de Peniche e Lisboa permaneceu na capital sendo substituído em 27/4 por uma outra bateria que continuou sob o comando do Cap. Dínlz de Almeida. - Destacava-se além da grande actividade desenvolvida pelo Cap. Diniz de Almeida que deverá ser analisada a nível superior, a dedicação que o aspirante Mil. Matos pôs nas tarefas que lhe confiei sendo de uma voluntariedade admissível e digna de ser realçada sua actividade teve grande Influência para o excelente desencadeamento da manobre que se Iniciou na Figueira da Foz. Poderei ainda mencionar o Asp. Mil. Borges pela excelente colaboração que me prestou. O 1º cabo Mil. Vitorino foi também muito Influente na boa concretização dos pormenores prontificando-se a dormir sempre no quartel desde que eu lho ordenei embora tivesse quarto fora. Poderia mencionar ainda o nome de todos os militares que comigo colaboraram nos preparativos da coluna e ainda os que abnegadamente fizeram alguns serviços seguidos sem nunca por Isso terem manifestado o mais leve desagrado.

Figueira da Foz, 1 de Maio de 1974.
FAUSTO ALMEIDA PEREIRA,
Cap. de Artilharia

29/Mar/2008

A FALÊNCIA DO COSTA E Cª (II)



A cidade que ele banhava não era bonita nem feia. Era uma cidade vulgar de província, término duma linha de caminho de ferro com o seu pequeno porto de mar e a sua Indústria de pesca, bastante comprometida desde a recente falência do Banco.
(…) Meses atrás, de surpresa, o Banco do pai suspendera os pagamentos. Um escândalo que atordoara a cidade e só por pouco a não deixara em farrapos. A inspecção acusada de negligência. E todos aqueles avultados fundos que alimentavam, como um sangue fértil e generoso, o corpo da indústria e do comércio locais, ali estavam retidos (e estariam, realmente?!) à espera que o Governo ordenasse um inquérito.
Umas após outras, deputações de homens públicos tinham-se deslocado a Lisboa a avistar-se com o Ministro. Os jornais publicavam na primeira página os resultados das conferências. Eram pessimistas umas vezes; outras, porém, não hesitavam, em garantir que tudo voltaria em breve à normalidade.
A população acolhera o Comissário do Governo com angústia. Mas também com alguma esperança. E na antiquíssima casa bancária Spratley e Cª, em frente ao cais, peritos trabalhavam até altas horas da noite, por detrás de vidros foscos, tentando apurar responsabilidades e até que ponto seria possível, mediante operações de emergência, salvar os depositantes da ruína eminente.
O pânico estabelecera-se entretanto. À desconfiança dos primeiros dias, seguiu-se a paralisação de algumas indústrias. Uma fábrica de vidros fechou. As minhas de hulha, nas faldas da serra, reduziram a metade o período de exploração. Depois, hoje um, amanhã outro, vários estabelecimentos comerciais, alguns quase seculares, abriram falência. Inexoravelmente, à vista de todos, a máquina económica desmantelava-se em mil pedaços inúteis.

Luís Cajão, Um dia fora do mundo, Ed. Minerva, 1956

A FALÊNCIA DO COSTA E Cª (I)

*Manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministro das Finanças, nos termos e com aplicação dos artigos 11º, 12º, 56° e 58° do Decreto-Lei nº 30698, de 27 de Agosto de 1940, e 1137.° e 1324.° do Código de Processo Civi1, visto o estabelecimento bancário Costa & Cª, com sede na Figueira da Foz, não ter podido restabelecer, dentro do prazo fixado no artigo 1° daquele diploma, as condições normais do seu funcionamento: 1.° seja retirada ao mencionado estabeleci­mento a autorização de exercício do comércio bancário, considerando-se, portanto, o mesmo em estado de falência, bem como os seus sócios, João José de Figueiredo Costa, Ana Dias da Silva Costa e João José da Silva Costa, aquele falecido no período a que se refere o dito artigo 1137; 2º, se proceda, consequentemente, à liquidação imediata dos respectivos patrimónios, com observância das disposições de direito, especialmente as do decreto-lei.

*Retirado de Belarmino Pedro, Dez anos de Quixotismo, Ed. A Voz da Figueira, 1964

26/Mar/2008

TAVAREDE, GRACIOSO PORTO DE MAR

Tavarede, gracioso pôrto de mar aberto na embocadura do rio Alvo, gozara outrora de relativa prosperidade, graças a excelente situação: os exportadores da província florestal e vinícola que marginava as águas do Alvo, tinham nêle ótima saída para a mar. Então, nesses tempos felizes, raro era o dia em que o Espadarte, o pequenino rebocador da pôrto, empenachado de fumo, não sulcasse as águas azues do Alvo, para levar ao mar alto os veleiros atestados de pipas ou toros de pinheiro. Esses tempos tinham passado. O asso­reamento crescente do rio afugentara as embar­cações. Tavarede era agora uma cidadezinha tranquila, onde os homens caminhavam sem pressa, ao longo dos cais abandonados ao grasnido das gaivotas poisadas, em bandos espenujantes, na orla dos grandes areais do rio. O movimento do pôrto estava confinado a algumas traineiras que abasteciam de sardinha a região, e, na época própria, à faina do bacalhau para o que a cidade mantinha uma pequena frota. 0 comércio local era escasso vivendo a melhor parte da população à custa dos rendimentos de bens amassados pelos que tinham tido a dita de viver no tempo de prosperidade do pôrto. Era o caso da família de Antu­nes Pinto. Quem passasse no largo da Alfândega, e relanceasse os olhos à acanhada loja de papelaria, sôbre cujas portas pendia taboleta com o nome dêste senhor, ficaria crendo que o seu proprietá­rio não passava dum pobre comerciante. Contudo, em Tavarede, Antunes Pinto gozava fama de ricaço. Seus antepassados haviam enriquecido, dizia-se, exportando moeda falsa para o Brasil no oco de imagens devotas.

João Gaspar Simões, Uma história de província, Amores Infelizes, Presença, Coimbra, 1934

14/Mar/2008

A FILARMÓNICA DO PAIÃO



Livro de Eurico Silva versando a história da mais que centenária Filarmónica Paionense, fundada em 1858 pelo Dr. Leonel Seabra. O, na altura, Monte-pio Philarmónico visava “melhorar a sorte dos associados” e contribuir para a sua “moralisação” e sobre ele pesava o ditame real de que este beneplácito lhe seria retirado se e “Quando se desvie dos fins, para que é instituída, não cumpra fielmente os seus estatutos ou deixe d`enviar anualmente á Direção geral do Commercio e Industria o relatório e contas da sua gerência”.
Os estatutos foram aprovados por decreto de 30 de Setembro de 1868.

12/Mar/2008

LUÍS CAJÃO (1920-2008)


Semeador corajoso duma escrita de nobre consistência, escritor e personagem duma existência cumprida em plenitude, amante da música e da beleza das mulheres, sábio irónico, visionário e senhor profético do nosso futuro colectivo, cavalheiro andante, aventureiro, pastor da serenidade inquieta que de forma insustentável assola os grandes homens, eis que Luís Cajão nos deixa, agora e para sempre, só com as suas palavras. Saibamos abraçá-las, como ele abraçou de forma profunda e dedicada a sua escrita.

5/Fev/2008

DEUS E O DIABO

Uma vez um homem tinha que atravessar uma ponte muito velha e quase a cair. Por baixo dela havia um grande fundão, onde passava um rio de corrente muito forte.
Ora como o homem era temente a Deus, pensou em se encomendar a ele antes de se meter à ponte; mas alembrou-se também de que o Diabo podia atentá-lo ou pregar-lhe alguma partida e ficou-se p`ra`li, à entrada da ponte, sem saber se havia de avançar, se voltar para traz.
De repente veio-lhe uma ideia e começou a atravessar o rio com toda a cautela, pé-aqui-pé-acolá, e a repetir sempre:
- Se Deus é bom… o Diabo também não é mau! Se Deus é bom… o Diabo também não é mau!...
Falava assim, já se vê, p`ra contentar a ambos.
Isto foi enquanto não passou a ponte; que mal se viu do outro lado em terra firme, virou-se p`ra traz e gritou:
-Tão bom é um com`ó outro!

In Folclore da Figueira da Foz, coord. Cardoso Martha e Augusto Pinto, 1913

SANTO AMARO

Acendeu-se mais - mais rumoroso e forte­- o estrupidar do foguetório.
A multidão refluía para o adro. Saiam de pinhais -onde se tinham moído com ripànço, sestas doces - gentes apressadas e curiosas.
Ia sair a procissão!
Manuel «Tarzan» tomou o seu lugar de sem­pre. As suas mãos possantes ergueram, sem aparente esforço, a vara do pendão, - que um ligeiro sôpro de aragem enfunava.
Estendia-se uma fila de Irmãos do Santíssimo com suas opas vermelhas; Depois alongava-se a confraria da Senhora dos Aflitos, com vestes azuis.
Nossa Senhora das Dores, com suas setas no peito, surgiu ângustiosa e sofredora no seu andor atapetado de rosas brancas. O suave e lacrimoso rosto da Mãe de Deus, lívido e doloroso, resplandecia, no manto roxo, avivado a oiro, de infinita bondade, de suprema ternura.
Dum janelo, caiu um punhado de pétalas de cravos que incensaram o ar. Nossa Senhora pareceu fixar Anita, Maria Rosa e Belinha, ajoelhadas à sua passagem.
E dir-se-ia que as gemas puríssimas das suas pupilas de Misericórdia, a todas três enlearam, no mesmo piedoso olhar de caridade e per­dão…
A imagem de Santo Amaro, tôsca e velhinha, passou logo de seguida pelo palio, sob o qual caminhava o pároco de Maiorca, conduzindo a sa­grada Custódia. A banda de Santana gemia uma linda mar­cha solene e pomposa. E no coice do préstito, um mar de pessoas acompanhava o cortejo religioso com grada com­postura e respeito, bitolando os seus lentos moveres pelo chouto brando dos toques: os homens, com os chapéus nas unhas calosas e escuras, as mulheres embiocadas nos chales, o seu caçoilinho de fêltro na cabeça, no qual - entre laçarotes e fitas, penas de côres vivas, con­tas de vidro e pequenos espelhos, - refulgiam e cintilavam!
Dada a volta ao burgo, retornada a procissão à pequenina igreja, foi dado começo ao passo mais curioso e característico do festival em honra e louvor de Stº Amaro da Boiça – a venda em leilão de todas as oblatas.

In As viúvas do Rentão de Raymundo Esteves