13 de set de 2007

SANTA MARIA DE CEIÇA*



Se a terra falasse, havia de contar, por entre abundantes lástimas, muitos sinais do amor dos homens por ela... Terra humanizada é sem­pre mais que terra trabalhada. Se o homem só a quisesse como nascen­te de ouro, talvez já ela se tivesse extinguido. Mas, se a terra dá o pão à gente, também nós lhe damos pão. E o pão mais rico que lhe damos não é tanto a semente que a fecunda; é a alma que lhe confiamos.
Estou-me agora a lembrar de uma certa terra, entre dunas que os pi­nhais cobriram, e o campo aberto pelas águas que descem de Sicó em busca do Mondego, e o Mondego leva ao mar. O nome que lhe dou, vou agora apenas segredá-lo, já que me não deu ela licença para o re­velar. E ela sabe que nem a quero trazer para as bocas do mundo, nem ela é mais que as suas irmãs, dispersas naquela fita de chão que tem ao sul a Saunum dos Romanos e ao norte o Monte Maior da Reconquista, e que a poente se debruça sobre a Figueira e a nascente adivinha Coimbra, a sempre desejada.
Não. Não é esta uma língua de terra que claramente fale de coisas espirituais. Até as tradições do povo se foram afogando e enleando na poderosa floração urbana. Por isso, é mais profunda a voz que sobe da terra, como a descarnar todas as raízes e a forçar os homens a reconhe­cerem-se nos sinais.
Não foi Coimbra, a Rainha Desejada, que deu vida a este rincão. Nem a Figueira, nem Montemor, nem Soure. Como tantas outras re­giões portuguesas, esta (feita da minha terra e das suas irmãs) teve por pai um Rei e por mãe uma ordem religiosa. A minha «pátria chica» descende de D. Sancho, o Velho, e do mosteiro de Ceiça, um dos de Cister.
Pelos anos em que nascia António de Lisboa e (diante de Deus e dos homens) crescia e todo se dava eucaristicamente e depois se recolhia em Coimbra e, do esplendor da Santa Cruz, subia à ermidinha de Santo Antão dos Olivais - por esse tempo de poisio das armas e de ar­rotear da gleba-, o Povoador, lá no plano da vontade soberana, deci­dia que estas dunas (ainda hoje recheadas de fósseis marinhos) e esta lezíria de boas águas começassem a dar berços e pão. Ao mesmo tem­po, Santa Maria de Ceiça (que o Destino traiçoeiro havia de tornar, sé­culos volvidos, em barulhenta fábrica de descasque de arroz!), por seu lado actuando no plano próprio das Regras de criação de S. Bento, ia ensinando a gente rude (vinda sabe Deus donde) a lavrar, semear, plantar, podar, enxertar, colher, enceleirar, prever - e, em tudo, orar e amar.
Ninguém veio depois que, destas boas coisas, soubesse tanto. O azeite, o vinho e a broa foram saindo da nossa mesa. Os Vigários de Ceiça foram perdendo o nome (que respondia, na memória dos po­vos, à antiga função de representantes do Abade em cada uma das fre­guesias nascidas do mosteiro) e até fugindo das igrejas e dos povoados rurais, para se concentrarem na sede do arciprestado. Já pela Páscoa santa não corre as ladeiras e as vielas, visitando todos os vizinhos, a Cruz do Senhor. Para encomendar os mortos na hora do beijo com a terra, chega uma estola envergonhada a manchar de roxo um casaco qualquer. Já o povo não guarda (a não ser por acaso) os domingos e dias santificados. Já a bem dizer ninguém pára e se benze ao tocar das Trindades. E as velhas ruínas (ruínas de ruínas, como dizia, de outras, o nosso mestre Hipólito Raposo) do que foi, há séculos, meio celeiro meio convento, e as últimas pedras da última capela de quinta dos fra­des estremecem um adeus ao Sol e, como pó que foram, também elas voltam ao pó.
Lá por dentro da minha igreja (erguida durante a Restauração, para aproximar mais o povo dos campos fecundos, enquanto a Igreja Velha ia ficando apenas um nome na memória dos velhos) já não há sinais das antigas sepulturas. À volta das paredes muito brancas (Deus as conserve!), já as últimas ossadas do antigo cemitério saltaram, ao en­contro dos ossos novos, que, lá ao alto, desde os tempos da anti-Maria da Fonte, dominam o horizonte dos vivos.
Terras por onde passa (a meia hora) a linha dos comboios e, um pouco mais além, a estrada de Lisboa ao Porto não podem ser terras de ceara farta do Espírito. A não ser, meu Deus, que seja certo que o Es­pírito sopra donde quer e para onde quer. E pode ser que lá venha o dia em que novos Povoadores e novas Cisteres, como os outros que despertaram dos séculos de ferro, tragam de novo a bênção. Já nem sei se de azeite, de vinho, de broa e de carqueja, de tojo e de giesta, de caça miúda e de couves mais altas que um homem - mas de Alegria, Senhor... Da alegria que nasce de um coração que aprendeu e com­preendeu a antiga e veneranda regra: «Ora et labora!».

* Texto de Henrique Barrilaro Ruas, in Cultura Portuguesa, nº 2 , Jan. 1982