3 de set de 2007

ANTROPOFAGIA NO CABO MONDEGO


*Assim é nossa convicção que os dados recolhidos até ao presente nas estações da serra do Cabo Mondego não tendem a demonstrar por qualquer modo o costume do canibalismo entre o povo ou tribo que na época neolítica habitou por estes sítios; antes mostram o contrário, isto é, que esse selvagem, nosso antepassado, pobríssimo de tudo, respeitava e encerrava os mortos, cercando-os de todas as seguranças ao seu alcance, para que a paz do túmulo não fosse perturbada nem pelas profanações dos homens, nem pelos animais faminto
Tão grande era este seu empenho que até os mais pequenos interstícios dos suportes das antas eram cuidadosamente vedados com lascas de pedra!
E com que piedade ele depositava junto do cadáver todo o necessário em armas, utensílios e alimentos, para que os entes queridos pudessem seguir a grande viagem, sem sofrerem privações e quiçá para continuarem no seu sonhado Olimpo a vida deste mundo!
É que tudo isso podia ser consagrado apenas aos restos ósseos daqueles a quem tinham a bestial crueldade de devorarem as carn­es?! Os fragmentos de ossos careciam de antas bem vedadas, de armas, de utensílios, de comida? Onde já se viu o canibal nutrir aquelles sentimentos de ternura pelos ossos das suas vítimas?
É preciso sermos razoáveis tanto em ciência como em tudo mais Avançar a uma proposição, quando todos os factos protestam contra ela, é substituir o arbítrio à lógica, e desviar a ciência por veredas tortuosas, onde os prejuízos disputam a palma ao erro.

* António dos Santos Rocha, “A questão da antropofagia nas estações neolíticas da serra do Cabo Mondego”, in Memórias e e explorações arqueológicas, Univ. Coimbra, 1975.

Santos Rocha, (foto) (1853-1910) arqueólogo eminente e jurista de vulto, desempenhou diversos cargos públicos; fundou o Museu Municipal e a Sociedade Arqueológica Figueirense (V. post, Novembro de 2004). Neste texto, o arqueólogo figueirense refuta, em resposta a certa "crítica", conclusões como a seguinte: "que o canibal da serra do Cabo Mondego misturava o cérebro do seu semelhante a alguma bebida, provavelmente no próprio crânio, que era em seguida levado ao fogo e depois partido para lhe explorar os recessos ósseos".