28 de jul de 2007

HÁ 125 ANOS


Assinala-se, neste 2007, 125 anos da elevação da vila da Figueira da Foz do Mondego a cidade.
Em 1882 a cidade e a região conheciam um progresso de registo. Nos dez anos que precederam a elevação a cidade registaram-se um conjunto assinalável de obras demonstrativas da pujança do lugar: em 1870 foi fundada a Empresa das Minas de Carvão do Cabo Mondego que viria a dar na Companhia Mineira e Industrial do Cabo Mondego; em 1872 foi instalada a fábrica de vidro do Cabo Mondego e em 1874 a Companhia conseguiu a desejada ligação por via-férrea ao porto, através do Americano. Neste mesmo ano iniciou-se a construção do Teatro Príncipe e no ano seguinte a estrada em direcção a Leiria ( a estrada para Coimbra precedeu esta alguns anos e diminuiu em 5 horas a viagem).
Em termos económicos a vila ganhava dimensão: para além das minas e do vidro, tinham importância a extracção de pedra, a salicultura e, claro, a pesca. Esta última sustentava um sector exportador que era o das conservas, também a ganhar preponderância. Acresciam a produção de cal e cimento (com força a partir da década de 80), a cerâmica (destaque para a Manufactura Cerâmica Figueirense, a funcionar no Viso), a metalúrgica (Mota de Quadros, 1878 e Oficinas do Mondego, 1891), a construção naval e a exportação do vinho.
Um mês antes da elevação a cidade, foi aberta a linha da Beira Alta (1882) e em 1888 chegou a Linha do Oeste. De 1884 data o teatro Circo Saraiva de Carvalho, a adjudicação da água (1886) e a iluminação a gás (1889). O mercado em 1892. Em 93 nasceu a Naval 1º de Maio e foi criada a Escola Industrial, em 94 o Museu, em 95 o Ginásio e o Coliseu e em 98 o edifício dos Paços do Concelho e o Casino Oceano. É caso para dizer que os últimos 30 anos do século XIX, que assistiram ao nascimento da cidade, são fecundos em realizações, embora do ponto de vista social se conheçam períodos de grande fome (1876, 1878 e 1893). É sabido que a partir da década de 90 o comércio exportador caiu de forma abrupta. Em Fevereiro de 1900 um texto na Gazeta da Figueira referia que “A Figueira não tem comércio, não tem indústria, não tem agricultura, isto é, presentemente, só a época balnear e o comércio do bacalhau são os seus principais factores de vida” (1)
Em 1878 a Figueira tinha 1080 fogos e 5676 habitantes e Buarcos 800 fogos e 3182 habitantes. Em 1886 assinalavam-se 6 hotéis.

Em Janeiro de 1883 na revista O Ocidente escrevia-se: (2)
A Figueira é das povoações de Portugal que nos últimos tempos mais se tem desenvolvido (…). Ainda nos princípios deste século passado, era apenas uma aldeia com 300 habitantes e pouco mais desenvolvimento tinha, quando em 1771 El-Rei D.José a elevou à categoria de vila.
(…) Hoje, a Figueira é uma cidade que está crescendo a olhos vistos, organizando companhias edificadoras que têm aumentado consideravelmente o número de edificações, ascendendo já a não menos de 1600 fogos, com cerca de 6000 habitantes.
Possui edifícios notáveis, incluindo um magnífico teatro e seu porto está defendido por uma doca de construção recente (…)
O seu aspecto é alegre e festivo e de um delicioso pitoresco, a par do seu belo clima.
Este conjunto de atractivos, chama um grande número de banhistas, na estação própria, às suas magníficas praias.
O seu comércio é importante, para o que lhe basta ter um magnífico porto de mar por onde se exporta grande quantidade de sal, azeite, vinhos e cereais, etc.
Agora o caminho-de-ferro da Beira Alta vai dar-lhe mais elementos de vida e desenvolvimento assegurando um futuro próspero a esta boa terra.”
(1) Cit. por Cascão, Rui, Figueira da Foz e Buarcos, Figueira da Foz, 1998
(2) Cit. por Jardim, José, As grandes linhas de uma cidade, Figueira da Foz, 1947

BENTO JOSÉ DA SILVA, 1º JUIZ DE FORA

Elevada a vila por decreto de 12 de Março de 1771, a Figueira da Foz teve como primeiro Juiz de Fora, Bento José da Silva que tomou posse em 30 de Julho.
Bento José da Silva nasceu em Coimbra em 1736 e tencionava seguir a carreira eclesiástica, da qual, entretanto, desistiu. Tomou posse na Figueira, pois a Câmara só em 1773 se mudaria de Tavarede para a novel vila (1).
A criação dos Juízes de Fora remonta ao princípio do século XIV e constituiu uma medida centralista, porquanto estes oficiais eram nomeados pelo rei e representavam a coroa. A sua designação está relacionada, justamente, com o facto de serem de fora, isto é, estranhos aos concelhos onde oficiavam; a razão desta qualidade reside no entendimento de que os de dentro não teriam a independência necessária para administrar a justiça (Manuel Fernandes Tomaz foi Juiz de Fora em Arganil)
Bento José da Silva teve tarefa difícil pois caiu no meio do braço de ferro entre o Cabido da Sé de Coimbra e a poderosa família Quadros.
O primeiro Juiz de Fora da, então, vila da Figueira da Foz casou na Qtª do Canal com D. Caetana Ifigénia de Salazar Vasconcelos da Silva e Crato, mais nova vinte anos que seu marido. A família possuía linhagem no oficio da magistratura de Alfandega e de Fora. A sua mãe e suas sete tias eram conhecidas como “as senhoras alfandegas”.
(1) De acordo com João P. Mano, in Litorais, nº 3, Nov. 2005

27 de jul de 2007

A ALFANDEGA


É corrente atribuir-se à Alfandega nacional a idade da nação; na Figueira, os serviços de Alfandega instalaram-se em 1707. Contam por isso 300 anos. Dizia um velho regulamento que a Alfandega estava onde houvesse “portos secos, molhados e vedados”.
A etimologia da palavra provém do árabe e remete para um lugar de grande movimento, barulho e azáfama. Coincidem, por isso, as alfandegas, com o desenvolvimento do comércio. Assim foi entre nós.
A Casa do paço tinha começado a construir-se no início do século e poucos anos depois reedificava-se a igreja matriz. A Figueira tinha pouco mais de 700 habitantes e estava ainda a alguns nos de ser vila, mas no final da década de 50 já se reclamava esta pretensão. A burguesia ganhava preponderância social.
A Alfandega contribuía para as receitas da Câmara e em alguns anos, já no final do século, o seu contributo chegava a 50% daquele montante, sabendo-se, no entanto, que o seu contributo era um montante fixo. “A alfandega era um foco de poder com maior protagonismo do que propriamente a Câmara e esse fazia-se sentir a nível tanto económico como social”. Os habitantes “estavam muito mais dependentes da justiça exercida pelo juiz da alfandega do que pelo juiz de fora, porque pelo primeiro passavam as principais determinações sobre as suas actividades”.(*)

(*) Citações retiradas de Oliveira, Isabel, A Figueira da Foz de 1771 a 1790: poder e quotidiano municipal, 2005, ed. da C.M.F.F.