29 de jun de 2008

ZAGALO E O FORTE

Passam duzentos anos da tomada do forte de Stª Catarina aos franceses.
veja-se o post de Maio de 2005 "A Tomada do forte de Stº Catarina".

23 de jun de 2008

A BATOTA AMENA



Mesmo cá de longe eu estou perto; estou a ver o desvairamento com que aí na Figueira se joga a batota, sob as vistas complacentes da autoridade que neste ponto não cumpre a lei nem as determinações superiores. Estou a ver o suspiro de alívio de mesiurs, os batoteiros, donos da nossa encantadora praia, onipotentes senhores, que teem a mão na policia e o administrador do concelho e falam de papo, entricheirados nas casas de vício e de exploração que são os chamados Casino Peninsular e cafés Europa e Hespanhol; suspiro de alívio por julgarem ter-se visto livres de quem lhes põe a calva á mostra, interpretando o sentir de toda a gente honesta e trabalhadora, que vê no jogo um prejuízo para os seus legítimos interesses.
Mas enganam-se os cavalheiros da indústria do jogo. Eu cá estou. (…)
Tivessem as autoridades a noção simples do dever que são obrigadas a cumprir, e há muito que a nossa praia estaria limpa d`esses senhores, que vassouram para a burra dos patrões avaros e rapaces o que a ingenuidade e o vício atiram para cima do tentador pano verde. E limpa também d`esses mesmos patrões que mal sabem ler e escrever, cuja origem e procedência é quasi sempre incerta, mas que passeiam a sua sobranceria, acotovelando com desprezo as pessoas que ganham honradamente a sua v ida.
(…)
Fechem-se as batotas! Cumpra-se a lei…

António Amargo, O Figueirense, 10 de Setembro de 1922

13 de jun de 2008

REDONDO JÚNIOR



Não, não dormi com Barrault na cama de Volpone. Mas quantas vezes, quando o Teatro era para mim uma intimidade, me surpreenderam na penumbra gelada do palco, vazia de mistérios e de sonhos, a povoar a cena com os fantasmas das minhas ilusões! Eu também era dos que amavam o Teatro como a sua própria casa. É uma doença de infância irremediável e incurável – mas uma doença de evasão. Há quem atribua algum desencanto do público ao facto de já não se ligar importância, como noutros tempos, ao é proibida a entrada a pessoas estranhas ao teatro. É possível. Quanto a mim, passei a amar mais o Teatro desde que comecei a conhecê-lo mais intimamente – até ao dia das grandes desilusões. Que o amor ao Teatro também se conquista, como as mulheres, com o espírito e os sentidos. É preciso compreendê-lo – ou tentar – e senti-lo, mas senti-lo na carne, por contacto, sem que o amor nunca se realiza. Por isso eu gostava dos palcos embrulhados na sua penumbra gelada, vazios de mistérios e de sonhos e recriá-los à medida dos fantasmas das minhas ilusões.

Redondo Júnior, (1914-1991) jornalista, teatrólogo, dramaturgo, encenador, tradutor, crítico, in "A Juventude pode salvar o teatro"

10 de jun de 2008

O VELHO NAVIO


Vai para o Mar!
Pois só o Mar, que é traiçoeiro, é que não mente;
-Floresce em ilhas para o náufrago impaciente
E para o sonho que deseja repousar.
Simples miragem? O que importa se a miragem
Nos trouxe a febre de partir e de aportar,
A Primavera renascente da viagem!...
Deixa o passado junto ao cais, ó meu navio!
- Soluça lento o fado triste nas guitarras,
Há beijos quentes nas tabernas, sobre o rio…
Vai para o largo, para o Mar, quebra as amarras,
Não oiças mais o seu encanto doentio!
Mas, ao partir, para galgar com rapidez
A noite e o espaço,
Atira ao fundo com teu lastro de amargura, Com o teu lastro de agonia e de cansaço,- De vida morta, de vida impura –
E a proa em riste, entre gaivotas a cantar,
Vai para o Mar!

João de Barros( 1881-1960)

7 de jun de 2008

O Maio

Era uma ocasião um homem que tinha uma mulher muito preguiçosa, mas que se queria fazer passar por muito trabalhadora. Gabava-se ella de ser muito boa curadeira de linho e de estopa, e quando o marido chegava a casa costumava dizer sempre:

Maçarócas ao cortiço
Já hoje lá vão sete!

O homem pedia-lhe que lhas deixasse ver mas a mulher dizia-lhe que estava a chegar Maio, e antão as veria curadas.
Efectivamente, chegou o mês de Maio, e a mulher lá foi co`as outras ao rio, mas em vez das meadas, que não tinha, começou com grande estardalhaço a lavar umas esteiras que levava.
Foram contar a coisa ao marido, que lh`apareceu vestido de Maio, cheio de flores, c`um grande chapéu na cabeça, e um cacete nas unhas.

Chegou-se ao pé da mulher e disse-lhe c`uma voz soturna:

Eu sou o Maio curão
Curo meadas e esteiras não!

E ergueu logo o cacete p`rá mulher que estava espantada a vê-lo, e deu, deu, até o diabo dizer basta.
Voltaram p`ra casa, e diz-lhe ele:
-Prepara-te que temos de ir amanhan à feira.
Mas a mulhersinha estava sem um trapo que vestisse, porque não tinha fiado um fio durante todo o ano.
Ele antão emprestou-lhe um capote, meteram-se no carro, e lá foram p`rá feira.
Chegados lá, o homem, que queria pregar partida á mulher, quando estavam no ponto de maior concorrência, arrincou-lhe o capote das costas, e, como era a única coisa qu`ella levava vestida, ficou como a mai a deitou a este mundo.
Ninguém poi na sua ideia a algazarra medonha que ali s`ergueu; e tão grande foi ella que o marido teve que meter a desgraçada a toda a pressa no carro e trazê-la p`ra casa.
Isto serviu-lhe de lição, de modos que dahi p`ró futuro já fiava a valer; e quando alguem lhe dissesse que fiasse mais devagar porque algum fio era grosso e outro fino, ella respondia:

Grosso e delgado,
Tudo cobre o rabo!

Cardoso Marta e Augusto Pinto, Folclore da Figueira da Foz, (1913)