26 de ago de 2004

AS PONTES DA FIGUEIRA





“Proponho que se represente com urgência ao governo para que sejam imediata e oficialmente abertas ao público as pontes sobre o Mondego ou para que (pelo menos) seja facultado o trânsito de peões pelas mesmas pontes desde o dia 1º do próximo mês de janeiro”

Estas são palavras de José Francisco Vaz, vereador, proferidas na sessão de 12 de dezembro de 1906 da Câmara da Figueira da Foz.

Quando José Vaz falou na sessão camarária do dia 12 já as pontes estavam abertas aos peões que pagassem 20 reis ao arrematante da barca de passagem, uma sociedade constituída por Domingos Simões Calhau e José Ferreira Santos. Esta tinha contrato para fazer a passagem até ao final do ano de 1906, mas o povo, sabendo que as pontes estavam feitas, forçava a sua abertura.

“Os habitantes das freguesias do sul do concelho atribuem à Câmara o firme propósito de os privar da passagem pelas mesmas pontes”, disse também o vereador José Vaz, sem referir, contudo, que as populações, em protesto, tinham derrubado os sacos de areia que serviam de vedação.

As pontes, a do braço norte que só foi substituída pela “ponte da Figueira da Foz” aberta em 12 de Março de 1982, e a do braço sul que durou menos tempo e foi substituída pela “ponte dos arcos” em 1942, acabaram por ser abertas no dia 14, apenas para os peões.

No dia 22 de Dezembro veio a autorização superior “para também poderem também transitar pelas pontes sobre o Mondego veículos de qualquer espécie” pelo que a empresa de Viação Rippert “estabeleceu uma carreira extraordinária para Lavos” logo no dia seguinte. O mesmo fez o “conhecido Alquilador Achadiço” que pôs um carro a circular para sul “partindo da Praça Nova”.

As duas margens estavam agora mais perto.

Seguimos de perto o texto “As pontes do Mondego (Morraceira)”, da autoria do Cap. João P. Mano, inserto no seu livro “Lavos, Nove Séculos de História”. O Cap. João Pereira Mano é também autor da obra “Terras do Mar Salgado” e tem publicados centenas de textos avulso em periódicos, tudo resultado de décadas de investigação aturada em fontes directas. É, sem sombra de dúvida, o maior investigador figueirense vivo e o maior conhecedor da história marítima do concelho. Até hoje, nenhuma autoridade nem ninguém lhe prestou qualquer homenagem.

23 de ago de 2004

A FIGUEIRA EM AGOSTO



Agosto de 2004: a Figueira a transbordar de gente e animação. Como seria em 1935?
Aqui vai a descrição de Albano Duque no “Album Figueirense”, ano II, nº 3.

“Numa noite, em meados de Agôsto, acabava de jantar quando bateram à minha porta dois amigos, que, idos de Braga em excursão, iam, amàvelmente visitar-me ao mesmo tempo que visitavam a nossa terra. Trocámos abraços e palavras de amizade emquanto tomávamos uns cálices de um cordial vinho do Pôrto, e acompanhei-os num rápido percurso pela Avenida Saraiva de Carvalho até ao Forte de Santa Catarina, donde relanceámos a vista pela vasta praia iluminada por um belo luar e pelos focos dos projectores eléctricos. O mar tem, para os que vivem longe do litoral, extraordinário poder mágico que provoca uma admiração, um êxtase que nós, à fôrça de o vermos constantemente, já não sentimos. Por isso os meus amigos se ficaram, por longo tempo, comovidos e altamente interessados ante âquele espectáculo grandioso das águas do Oceano, arremetendo contra as fragas, e o contraste das águas mansas do Mondego, na hora da vasante, em que o luar punha cintilações argênteas.
Percorremos, depois, as esplanadas, bastante concorridas, e fomos cair nas ruas dos Casinos, que estavam em plena animação, cheiinhas de passeantes portuguesas e espanholas. Nos «cafés» não se cabia; o movimento, a alegria estuante, a luz à giorno, os sons das orquestras dos «cafés», dos casinos e dos auto-falantes, imprimiam uma extraordinária animação àquelas artérias da cidade, que são uma pequena parte, apenas, do Bairro Novo.
Ao cabo de algumas dificuldades e pesquisa lá conseguimos abancar a uma mesa de “café”, onde tomámos não me recorda o quê. Perdurava no espírito dos meus companheiros a mais agradável impressão; já tinham percorrido várias praias e termas mas confessaram-me que em nenhuma outra haviam encontrado tanta gente e tão grande animação.”

13 de ago de 2004

A FORMAÇÃO DA PRAÇA VELHA ou PRAÇA da RIBEIRA



"O sítio da Praça do Comércio era já no século XVII um largo público denominado a Ribeira. Mas por este nome foram também designadas as praias do rio até às Lamas, onde hoje são as ruas do Príncipe Real e de M. Fernandes Tomás e a Avenida".

Assim se refere Santos Rocha àquela que é hoje a Praça Velha. O autor refere também que a esta se terá chamado Ribeira das Naus. O sítio das Lamas, que ali se menciona, era um dos subúrbios da Figueira que Santos Rocha presume ter ficado entre as Ruas Dez de Agosto e do Mato. Vale das Lamas era o baixo onde hoje se encontra a rua Dez de Agosto e que tinha ligação a Tavarede por um caminho que passava pela Lapa e seguia pela Várzea.

A Praça do Comércio, que foi aterrada em 1777, "foi a primeira praça que teve a povoação" O pelourinho data de 1782 e custou à Câmara 231$085 reis. No local onde é hoje o largo Luís de Camões (ao lado da Praça velha) existia uma praia do rio "banhada pelas marés regulares e chamava-se Praia da Ribeira". No dizer de Santos Rocha, que vimos seguindo, a Praça era invadida pelo rio, pelo que se construiu "um muro na boca desta".

Nesta altura a Rua da Oliveira, (que se chamava Rua que vai dar à Ribeira) já existia e as ruas que desaguavam na Praça designavam-se Ruas da Ribeira e Couraça da Ribeira

"No século XVIII a Praça da Ribeira estava já toda povoada. Diversos documentos referem-se claramente às casas do lado ocidental: algumas eram de sobrado e uma única de dois sobrados. Outros referem-se às casas do lado oriental onde todas eram de sobrado. A cadeia púbica, em 1749, estava situada por detrás de uma das casas deste lado, e tinha provavelmente a frontaria para a Rua do Forno".

Do norte da Praça subia o "velho caminho do meio que se dirigia para o adro de Stº António e caminho de Tavarede".

7 de ago de 2004

MANUEL DIAS SOARES AUTOR DA "MARCHA DO VAPOR"




Manuel Dias Soares nasceu na Figueira da Foz em Novembro de 1867. Aprendeu música com Manuel Fernandes Mesquita, seu padrasto, e desenvolveu a sua arte com o espanhol Alzamora e depois com Augusto Symaria, regente da "Filarmónica Dez de Agosto".
Apresentou-se em público pela primeira vez em 1889. Em Fevereiro de 1890 tomou parte como violinista num concerto organizado por artistas do Teatro S. Carlos, altura em que terá composto a sua primeira obra "O Privado Sultão", uma opereta de um acto feita com Mendes Leal.
Foi regente da "Dez de Agosto" e colaborador da "Figueirense"; integrou a "Tuna Figueirense" e fundou a "Fanfarra" uma agremiação musical que contava com o concurso de músicos de várias colectividades. Foi, ainda, organizador e regente do "Grupo Musical Clara".
Em 1908, dirigiu a "Dez de Agosto" num concerto dado no convento da Batalha para o rei D. Carlos.
Um ano antes, Dias Soares assumira a direcção do "Rancho do Vapor". Foi aqui que o músico deu largas à sua veia popular e melódica. Daqui se destaca a Marcha do Vapor, hino da associação que compôs para letra de Pereira Correia e que é hoje o hino da Figueira da Foz.
Em 1915 Dias Soares conseguiu organizar uma orquestra sinfónica que fez a sua primeira audição numa das salas do Paço.
Faleceu a 7 de Agosto de 1938.

A cultura, que tem pelouro, homenageará Manuel Dias Soares? Não falta, no local onde esta a placa que homenageia os autores do hino, um busto do insígne músico? As crianças aprendem sobre ele?

TOPOGRAFIA DA FIGUEIRA NOS FINS DO SÉC. XVII



"Imagina, leitor, que no lugar da Praça nova existe uma praia do Mondego, que nas marés altas é banhada pelas águas até ao cimo, não ficando seco senão uma faixa pelos lados do oeste, norte e leste; que no sítio do largo Luís de Camões e em parte da Praça do Comércio (Praça Velha) está outra praia do rio, também completamente inundada pelas marés; e que no jardim público existe ainda outra praia, que tu conheceste com o seu velho e legítimo nome de Praia da Fonte, mas sem o viaduto, os muros de suporte e casaria que ali tens visto. Era nos dois promontoriozinhos que avançam para o sul, sobre o Mondego, um ao nascente, entre as duas primeiras praias, e outro ao poente, entre a segunda e a terceira, que nos fins do século XVII estava circunscrita a povoação que hoje vês tão ampla.
(…)
De comunicação externa existiam seis vias importantes: um caminho pelo local da Rua Fresca, dirigindo-se para a fonte do povoado, que existia e ainda existe no Largo da Fonte, e que daí seguia pelo Viso para Buarcos e Redondos; três caminhos pelos locais das modernas Ruas Formosa, da Bica e de Stº António, em frente do moderno hospital da Misericórdia, e ligavam com o caminho de Tavarede, que seguia para o norte pela moderna Rua do Sol; outro pelo sítio da Rua dos Ferreiros; outro que partia da praia, onde hoje se acha a Praça Nova, aí pela extremidade meridional do edifício onde são actualmente os Paços do Concelho, ia pelo local da Rua Direita do Monte até ao velho Casal das Lamas, e daí para Vila Verde e outras povoações.
(…)
Pelo lado ocidental do caminho que existia na Rua dos Ferreiros havia umas pedreiras em que se explorava o maciço calcário (…). Dali se extraía muito material para as construções do povoado.
Um ribeiro vinha desaguar ao cimo da praia onde se acha a Praça Nova.

Retirado da obra de Santos Rocha "Materiais para a História da Figueira nos Séculos XVII e XVIII"