16 de jan de 2005

FIGUEIRA VISTA POR DENTRO E POR FORA



Excerto de uma reportagem publicada na Gazeta Ilustrada “O ATHENEU” do Porto em 1881(último ano da Figueira enquanto vila) assinada pelo Sr. Pist. o autor faz ironia com a divisão maniqueísta entre Progressistas e Regeneradores.

No dia seguinte ao da nossa chegada fomos logo de manhã cedo ver o Bairro Novo, o bairro aristocrático, que parece caminhar para Buarcos, assim a modos de quem quer abraçar.
Na verdade é um bairro selecto, uma pequenina miniatura desse grande bairro madrileno, chamado o bairro Salamanca.
O Bairro Novo está construído logo após o Forte de Santa Catarina, cortado de ruas largas e asseadas, e semeado de casas de uma elegância irrepreensível - próprias para gozar.
Dali viemos à praça, onde um mulherio, num zum-zum enorme, vendia peixe seco, fresco, salgado, etc., e ao mercado onde as regateiras se aninhavam ao pé das suas canastras de frutas, legumes, pão, flores, etc.
Tudo na verdade, muito asseado, muito limpo.
No meado do século passado a Figueira era uma aldeiazinha muito bonita, mas sem a importância que hoje tem. Apenas trezentos habitantes viviam ali do fruto dos banhos e da pesca.
A Figueira é uma vila essencialmente moderna, chic - apesar do fundador da monarquia portuguesa, que não era progressista como a srª D. Guilhermina, nem regenerador como o sr. Guilherme da Cunha, ter tido a honra de ir lavar os seus ossos e as suas reais carnes nestas praias ocidentais e douradas.
Ora o fundador - era nada mais, nada menos - que o sr. D. Afonso Henriques, que aí foi por conselhos dos médicos, conforme afirma frei Bernardo de Brito, nas suas Chronicas.
Estamos certos que então a Figueira não era política por dentro nem por fora, - nem o sr. Constantino Sousa, nem o sr. Costa e Silva, nem mesmo o sr. Carlos Guia -guiavam os seus amigos políticos - e outro tanto faziam os srs. Nestório, dr. Borges, João Pedro, Augusto Silvério e Contente Ribeiro, que só se contentam em apoiar os seus.
E estamos de acordo que nesse tempo a carne de vaca era toda regeneradora, e o pão, azeite, o vinagre - pois entravam só no alimento regenerador das pessoas, sem entrar nos domínios avançados da política.
Imagine-se o desconcerto que há-de ser num sapateiro que se vê obrigado a empregar fio republicano no calçado dos seus constituintes! porque, como já temos querido fazer-nos compreender na Figueira há só dois grandes partidos - o progressista e o regenerador.
Perguntamos a uma dama gentil daqui qual o motivo de tanta rixa e a razão de ser daqueles aferrados partidos na Figueira.
- Ignoro, disse ela. Só sei que quem não for da música progressista é regenerador, e quem não for da regeneradora é progressista.
Pareceu-me que a política vinha então dos saxtrompas e dos trombones, mas houve alguém que disse que era um perfeito engano nosso aquela inocentíssima persuasão.
- Mas que diacho, lhe dissémos nós, não vê que aqui tudo é político, desde o chinelinho de liga até às cuias das senhoras, desde o feijão fradinho até ao chapéu de palha do Abel! e isto talvez devido à influência da instrumentação!
- Qual instrumentação nem meia instrumentação! O amigo é que parece que anda a instrumentalr tudo.
Ora já vêem V. Ex.a. que fui entalado nas minhas asserções e então virei-me a descortinar se aquilo seria influência das gentis damas ou de alguns sonhos dourados das ex.ma. sr. Dª Ana Gaspar ou D. Augusta Guedes.
Andávamos neste engano lêdo e cego que a fortuna não deixa durar muito quando soubémos enfim que a política...