29 de dez de 2007

O SAL DA RAINHA

*Seja-nos permitido dizer que este documento, o fomos nós desencantar na «Notícia Histórica do Mosteiro da Vacariça", onde se encontra com tão pouco relevo, que até ao próprio Dr. Santos Rocha passou despercebido, apesar de ter sido nesta mesma obra que obteve a informação que nos transmitiu, quanto à doação feita ao Mosteiro de Lorvão, como há pouco vimos.
É ele uma interessantíssima «Carta de foro duma Marinha feita em Lavos, em 1217, a uns homens daquele lugar, pelo Bispo de Coimbra, D. Pedro», e portanto, precisamente o tal documento comprovativo do século XIII, que faltava ao nosso historiador.
Pela «Carta de Foral ou povoação de Lavos outorgada aos seus habitantes pelo Bispo D. Pedro e Cabido de Coimbra, em Setembro de 1190» publicada no Album Figueirense, sabíamos da existência de marinhas de sal em Lavos, àquela data, e que uma dessas marinhas pagava o foro de um sétimo, enquanto outra denominada a da rainha, devia pagar metade da produção, mas não podíamos atinar com a razão da disparidade nas condições estatuídas para esta e as outras e ainda, porque se distinguia esta com o pomposo título de marinha da rainha. Estes eram para nós enigmas indecifráveis.
A leitura do nosso desencantado documento que temos a grata satisfação de patentear a todos os figueirenses, e em especial aos que são salicultores, mostra-nos que a régia personagem que aqui fundou novas salinas, introduzindo-lhes, certamente, aperfeiçoamentos até então descurados, e não se limitava a ser uma proprietária adventícia de outras anteriormente existentes, baseadas em moldes rotineiros e de proporções acanhadas, foi a Rainha D. Dulce, mulher de D.Sancho I.
Compreende-se que, vivendo esta simpática senhora, ora no seu solar de Coimbra, ora no seu alcácer de Montemor-o-Velho, onde (como todos os reis anteriores a D. Dinis) tinham alternadamente a sua corte, desse com os numerosos filhos, frequentes passeios até à foz do Mondego, não só para que pudessem contemplar a grandiosa e impressionante paisagem que o mar lhes oferecia, mas também para gozarem as delícias da fresca brisa marítima nos calmosos dias de verão.
Dirá talvez alguém que isto tudo não passa de pura fantasia nossa; e no entanto nada há de mais verosímil.
Ninguém contestará que em Coimbra, no verão, há dias de calor sufocante, e suas altezas não ignoravam o bem estar, e o prazer, mesmo, que nesses dias se disfrutam à beira-mar. Que poderia impedi-las de se apropriarem de tais benefícios? A falta de boas estradas? Mas não tinham elas a via fluvial, então, muito mais praticável, pela qual podiam fazer-se transportar na galeota privativa da família?
Além disso, não era da pesqueira de Emide que a sua mesa era fornecida do melhor e mais gostoso peixe? E não era das marinhas de Tavarede e de Lavos que provinha o precioso sal, esse indispensável condimento com que era temperada a sua comida?
E não teriam nunca os príncipes manifestado a curiosidade e o desejo de visitarem o porto de S. Julião do Mondego, onde algumas caravelas dos cruzados entraram para meter provisões, enquanto as outras pairavam na cala de Buarcos, aguardando-as para dali seguirem a coadjuvar o seu avô Senhor D. Afonso Henriques, na tomada de Lisboa aos mouros?
Tudo isto eram motivos bastante eloquentes para a justificação de tais visitas, sendo naturalíssimo que vivendo aqui tão próximo, sendo-lhe todas estas coisas tão familiares, por lhe dizerem respeito, a família real não desprezasse o ensejo de aproveitar as lições práticas que delas podia colher, acrescendo ainda mais os benefícios que ao mesmo tempo lhes advinham para a sua saúde.
Considerando, pois, bem cremos que ninguém ousará classificar as nossas hipóteses de absurdas e inadmissíveis.
Seria por certo, num desses passeios de estudo e recreio que a Rainha com os Infantes, ao contornarem com o seu barco a Morraceira, pelo sul, depararam com as marinhas dos Templários e outras aí existentes, justamente quando se encontravam em laboração, interessando-lhes por tal modo os trabalhos dos marnoteiros, que logo tomaram a resolução de fundar outra que se destacasse das demais, pela sua imponência e rendimento.
D. Sancho, não deixou de aplaudir a iniciativa de sua esposa, tão de acordo com os seus planos de repovoamento dos lugares antes devastados pelos sarracenos, como tinha sucedido por mais de uma vez a Lavos, e de fomento da agricultura e doutras fontes de riqueza pública; de maneira que A MARINHA DE D. DULCE, não ficou resumida a um desejo de ocasião, nem ainda a um simples projecto, mas foi, de facto, UMA REALIDADE!

*Coelho, João, De como uma rainha portuguesa da Idade Média foi salicultora na foz do Mondego, O Figueirense, 1943, rep. por Cintrão, Marinha das Ondas