19 de nov de 2007

Terça-feira, 19 de Novembro de 1822


Por meados de Novembro de 1822, viveram-se em Lisboa, hora a hora, alguns dias de preocupação, como de outros não havia memória no decurso dos anos passados. «Em toda esta semana” ­escrevia o redactor do "Diário do Governo", no seu número de sábado, dia 16 - tem o Público desta Capital mostrado o mais vivo interesse pelo Sr. Deputado Manuel Fernandes Thomás, cuja moléstia tem ingravescido até o ponto de se recear uma perda lamentável». Aí, na doença que prendera ao leito o cidadão que era de todos admirado e estimado, aí estava a origem da mesma preocupação vivida na capital, quanto o foi, a curto prazo, em todo o lugar onde chegou notícia da moléstia que afligia Manuel Fernandes Thomás. Ao extinguir-se-lhe a vida, prostrado por males velhos que uma actividade sem repouso em muito agravara, logo a consagração pública acudia a distingui-lo entre os seus pares: não quer significar outra coisa, na intenção determinante como na expressão verbal, quanto escreveu o redactor da folha oficial.
Tomara a moléstia - são ainda palavras do cronista oficial­ - um carácter agudíssimo e perigoso, a ponto de os médicos admitirem que o enfermo não viesse a resistir-lhe. E logo os seus amigos mais íntimos se deram pressa em inquiri-lo sobre quaisquer disposições que fossem da sua vontade. Encontraram-no animado, a ponto de se estabelecer longo diálogo. Quanto de nova visita, mais para o fim do dia, o doente mostrava-se abatido de forças. Não tanto, porém, que se esquivasse, como era do seu costume, a discutir a eficácia dos remédios que lhe aplicavam. E logo um dos amigos, em tom jovial, veio a observar-lhe que ele entrava muito na polémica da Medicina. Com firmeza, o doente respondeu de pronto:

- Meu caro Amigo Moura, a mim não me embaraça já a discussão destes Senhores, e o que agora mais vivamente me interessa é chamar ama­nhã cedo o meu Pároco para me confessar, para me Sacramentar, e para me dispor,

Assim aconteceu na manhã do dia seguinte, 14 de Novembro. Pela tarde, sentiu-se pior. Da parte do monarca, acudiu o Marquês de Loulé a visitá-lo e a saber do seu estado. Era maior o abatimento do enfermo, como sempre acontecia após o diálogo sobre as coisas públicas que teimava em manter com os amigos dedicados que eram da sua intimidade.
A voz a esvair-se-lhe, recostando-se um pouco, Manuel Fernandes Tomás recebe o mensageiro da Corte e logo lhe responde:
- Senhor Marquês, diga V. Ex. a EIRei o que vê, e o que V. Ex. é capaz de lhe dizer; e com suas expressões faça valer o apreço que eu faço de tão distinto obséquio.

«Os últimos instantes de um homem grande não se devem perder, para que os presentes e os vindouros aprendam o modo heróico de afrontar a morte» - comentava, no dia 18 de Novembro, o redactor do «Diário do Governo». E lá prosseguia o relato miúdo, sempre a informação a casar-se com o comentário apropriado, desfiando as ocorrências de cada dia e de cada hora. Com inabalável firmeza, o patriarca deixa escapar um desabafo repassado de amargura:

- Eu tinha bastante vida: custa bem a fa­zer-se esta separação.

Finalmente, no dia 20, é publicado um suplemento à folha oficial dessa quarta-feira. Encaixilhado de tarjas negras, um texto curto, que abre com este pequeno título: MORREO!! E nem aparece aí, nem se pode ler em qualquer das vinte e oito linhas do texto, o nome do varão ilustre que havia falecido. Por não mais ser preciso, tão-só e logo de entrada se identifica a alta personalidade nestas breves palavras:

Terminou em fim seu ilustre e virtuosa carreira o Campeão da liberdade Portuguesa! Ontem pelas 11 horas menos um quarto da noite tendo conservado até o último instante sua perfeita razão, rodeado de numerosos amigos, que o não abandonaram desde o momento que se receou tão grande perda, passou para a morada dos Justos tão grande e virtuoso Varão.

Contava apenas cinquenta e um anos e meses, à hora da morte, pois havia nascido em 1771. No mesmo dia em que eram instaladas as Cortes para a segunda legislatura, os seus Companheiros Regeneradores conduziam-lhe o corpo, sem pompas, para uma humilde capela particular da igreja de Santa Catarina, onde ficou depositado.
Nas mesmas Cortes e logo na sessão desse dia, o res­pectivo presidente, que era ainda Hermano José Braancamp do Sobral, consagra algumas palavras à memória de Manuel Fernandes Thomás, encarecendo-lhe os méritos e exaltando os serviços por ele prestados. Dirigindo-se à Nação, lembra-lhe que o patriarca fora o «Ilustre Defensor dos seus direitos» e ainda quem «empreendeu e conseguiu regenerá-la, sem ofen­der sua lealdade ». E assim concluía:

Fez à Pátria mui relevantes serviços, e morreu pobre».

O Primeiro Dos Regeneradores”, de António Cruz, in Revista Da Faculdade De Letras