17 de ago de 2007

UM MENINOZINHO VINHA VINDO...


*Um meninozinho, João Balãozinho, vinha vindo em seus passos travessos, de cumprir um recado na loja, satisfeito, con­sistido de trazer em cada sua mão, engarrafado, um litro de vinho. Que era mister, em assinadas ocasiões, ter de ir-se por essa malvasia, a comprá-la, tão sempre desexistida foi ela das terras gandaresas, que não a produzem, sáfaras de areia e vento, leiras magras de chorume para imprir-se um plantio de bacelo. Há que, portanto, na devida maré, e quando é o caso, prover ao devido em afazeres diversos como: ser o dia de cozer­-se a broa, ou trazer gente de fora numa tardada, ou vir um alguém de visita, inesperado ou não, e ter de beber-se uma pinga. Que é, neste caso derradeiro, o que mandam as regras e usos de bem receber. Ah!, e a Gândara é hospitaleira.
Lá vinha vindo, pois, esse meninozinho com as duas garrafas bem aviadas, porque a mãe, no azo, já trazia o lume ao forno. O que, era, portanto. E havia de chegar um tal Maiorqueiro, ao cerrante da noite, fechar o negócio do boi de cobrição, que ficou de remissa da feira de Gatões. Eram dois os motivos por que, então e portanto. João Balãozinho vinha transportando essas duas garrafas, pejadas que nem, em cada sua mão, equilibrado no peso do corpo. Vem por carreiras e travessias de pinhais, o chão descarnado, e em cujos e quais pode muito bem dar-se uma topada. Porque há sempre uma raiz imprevista e treda, celerada, ou uma cova-falsa igualou tão mais.
(…)
Pois lá vinha vindo, cumpridor, esse meninozinho João Balãozinho; lá vem ele em suas alegrias ladinas, mas ainda no seu prazo, miúdos passos, ou conforme, porque há o parar e olhar, voou o garrancho do seu poiso, ou gaguejou a pega tagarela. E há que seguir o rumo e arte do peneireiro, ou escutar, atentivo, a trombeta do moquenco pontual, algures, rosnento e grosso, que é para distinguir: se é o burro do moleiro Zé Maluco, ou o das Quintaloas, ou a burra nova da tremoceira Maria Umbelina. Que vos parece?
(…)
João Balãozinho, que num ponto da sua viagem havia de cruzar-se com Manuel da, Fanata, o dos burros, o qual vai prendê-los nalguma resteva, ou num vaIado de sil­vas, ou num combro inventado para relvar-se. E era um casal, os cujos que iam levados à corda, o burro e a burra, que o meninozinho bem viu os escritos lá deles. Pois ficou-se parado a olhá-los, que lá iam indo, indo-se, subalternos e tão submis­sos, campassados. Aonde é que sítio ia o Fanata prendê-los?
Esse era um menino muito interrogativo, João (…)
(…)
Porém, quando. Estão a burra e o burro em seus cios transparecidos, tão assim, e nem as cordas não foi preciso esticá-las até finalmente; e já se davam em cheiraduras e mimos de beiços, espirravam estrondos, aluadões, a mostra­rem os dentes todos que tinham. Espoldrinhavam a sua ale­gria, amorudos, desencabrestados, a resteva era o seu paraí­so. Quem passasse havia de apreciar, quem é que não?, estes trafegos. E sobretudo, ah!, e sobretudo. Porque o burro tinha uma grande maçaneta a nascer-lhe na pele da barriga, ou era um unteiro, que crescia, e crescia;
(…)
E ouve-se o carro do Toino Quintaneiro, de regres­so a casa, gemendo a falta dum untozinho nas garridas de cada coicão. O que é mais um sinal, outro, de estar a luz por um triz, com um pé no dia e o outro já dentro da noite.
Foi quando no interim e átomo do tempo, irremediável. Foi quando. O burro atirou as ambas patas para cima de quem estava a pedi-las, jogadas à bruta, escarranchado ao pino, gi­gante. Momento penetrante, oh! O chão estremeceu por todo ele, abalado inteiro, e a burra atreveu-se com todo o peso e poder do seu semelhante. A quanta brutidade e fragor!
E nunca não soube-se onde o meninozinho estava com os pés: se assentados no firme, estando espasmecido no meio do carreiro; ou se ele estava embarcado nalguma nuvem, transplantado, por outros mundos remotos. João Balãozinho estava com as mãos caídas dos braços, assombrado, e das cujas e quais, intactas e cheias, pendiam as garrafas de vi­nho. Tivesse-as ele posto no chão, ao alto, que ficavam res­guardadas dos mil perigos à vista. Mas (…)
No meio do caminho, hem! Tinha uma pedra e topada, estardalhaço, o vinho e vidro em mil pedacinhos.
* Idalécio Cação, Os pés e as mãos, ret. de O Chão e a Voz, ed. Escritor, 1998