12 de jul de 2008

A GREVE DOS BACALHOEIROS



Corria a primavera de 1937, altura em que se começava a preparar a campanha do Bacalhau, quando os pescadores do “fiel amigo” decidiram que não iriam acatar as ordens do governo. Estas traduziam-se, desde 1935, na entrega da responsabilidade pelo recrutamento e regulação dos acordos de trabalho dos pescadores ao Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau. A formalização da matrícula consistia na aceitação das condições de trabalho, negociadas entre os armadores e o estado. Em síntese, a procura e escolha do navio em que o pescador trabalhava deixava de ser livre.

Foi na Figueira da Foz e em Buarcos que a greve mais se fez sentir; os pescadores recusavam matricular-se. Na altura, a Figueira era o segundo maior porto bacalhoeiro em número de navios e o maior em recrutamento de homens para a pesca. Só em 1936 embarcaram 500 homens de Buarcos e 300 das restantes freguesias, grande parte da Cova e Gala.

A importância do movimento chamou a atenção do Diário de Lisboa que fez uma reportagem em Buarcos sobre a greve, intitulada “Pesca do bacalhau ameaçada”.

Além da recusa da matrícula, os pescadores de Buarcos – que possuíam sindicato – reivindicavam um aumento de 500 escudos na soldada fixa. Com o andar do tempo os armadores pressionavam o governo e os comerciantes da Figueira apelaram ao Ministério da Marinha para resolver a crise. Assim foi. Começaram a ser presos pescadores e um grupo que foi preso e que seguia sob escolta da capitania da Figueira para Buarcos teve o apoio da multidão que saiu à rua para apedrejar a polícia. As crónicas rezam que houve tiros e coronhadas.

A repressão fez ceder os pescadores. O Ministro da Marinha entretanto fazia sair um diploma em cujo preâmbulo se lia: “Verifica-se que para a campanha de 1937 não se apresentaram à matrícula pescadores em número suficiente para que nela possam tomar parte todos os navios que constituem a frota bacalhoeira, incluindo os que se estão acabando de construir. O interesse da nação exige porém que saiam à pesca todas as unidades em condições de o fazer”.

No dia do embarque, 15 de Maio de 1937, muitos pescadores foram presos e colocados a bordo pela polícia. Rebelo de Andrade dava a sentença: “O interesse nacional exige que os navios saiam; o governo, ponderadas todas as circunstâncias, resolveu mobilizar os pescadores; esta é a última palavra do governo, que assume a responsabilidade desta medida e garantirá os meios de a fazer executar”.

Seguiu-se de perto o artigo de Álvaro Garrido, Os bacalhoeiros em revolta: a «greve» de 1937, in Análise Social, vol. XXXVII