29 de jun. de 2008

ZAGALO E O FORTE

Passam duzentos anos da tomada do forte de Stª Catarina aos franceses.
veja-se o post de Maio de 2005 "A Tomada do forte de Stº Catarina".

23 de jun. de 2008

A BATOTA AMENA



Mesmo cá de longe eu estou perto; estou a ver o desvairamento com que aí na Figueira se joga a batota, sob as vistas complacentes da autoridade que neste ponto não cumpre a lei nem as determinações superiores. Estou a ver o suspiro de alívio de mesiurs, os batoteiros, donos da nossa encantadora praia, onipotentes senhores, que teem a mão na policia e o administrador do concelho e falam de papo, entricheirados nas casas de vício e de exploração que são os chamados Casino Peninsular e cafés Europa e Hespanhol; suspiro de alívio por julgarem ter-se visto livres de quem lhes põe a calva á mostra, interpretando o sentir de toda a gente honesta e trabalhadora, que vê no jogo um prejuízo para os seus legítimos interesses.
Mas enganam-se os cavalheiros da indústria do jogo. Eu cá estou. (…)
Tivessem as autoridades a noção simples do dever que são obrigadas a cumprir, e há muito que a nossa praia estaria limpa d`esses senhores, que vassouram para a burra dos patrões avaros e rapaces o que a ingenuidade e o vício atiram para cima do tentador pano verde. E limpa também d`esses mesmos patrões que mal sabem ler e escrever, cuja origem e procedência é quasi sempre incerta, mas que passeiam a sua sobranceria, acotovelando com desprezo as pessoas que ganham honradamente a sua v ida.
(…)
Fechem-se as batotas! Cumpra-se a lei…

António Amargo, O Figueirense, 10 de Setembro de 1922

13 de jun. de 2008

REDONDO JÚNIOR



Não, não dormi com Barrault na cama de Volpone. Mas quantas vezes, quando o Teatro era para mim uma intimidade, me surpreenderam na penumbra gelada do palco, vazia de mistérios e de sonhos, a povoar a cena com os fantasmas das minhas ilusões! Eu também era dos que amavam o Teatro como a sua própria casa. É uma doença de infância irremediável e incurável – mas uma doença de evasão. Há quem atribua algum desencanto do público ao facto de já não se ligar importância, como noutros tempos, ao é proibida a entrada a pessoas estranhas ao teatro. É possível. Quanto a mim, passei a amar mais o Teatro desde que comecei a conhecê-lo mais intimamente – até ao dia das grandes desilusões. Que o amor ao Teatro também se conquista, como as mulheres, com o espírito e os sentidos. É preciso compreendê-lo – ou tentar – e senti-lo, mas senti-lo na carne, por contacto, sem que o amor nunca se realiza. Por isso eu gostava dos palcos embrulhados na sua penumbra gelada, vazios de mistérios e de sonhos e recriá-los à medida dos fantasmas das minhas ilusões.

Redondo Júnior, (1914-1991) jornalista, teatrólogo, dramaturgo, encenador, tradutor, crítico, in "A Juventude pode salvar o teatro"

10 de jun. de 2008

O VELHO NAVIO


Vai para o Mar!
Pois só o Mar, que é traiçoeiro, é que não mente;
-Floresce em ilhas para o náufrago impaciente
E para o sonho que deseja repousar.
Simples miragem? O que importa se a miragem
Nos trouxe a febre de partir e de aportar,
A Primavera renascente da viagem!...
Deixa o passado junto ao cais, ó meu navio!
- Soluça lento o fado triste nas guitarras,
Há beijos quentes nas tabernas, sobre o rio…
Vai para o largo, para o Mar, quebra as amarras,
Não oiças mais o seu encanto doentio!
Mas, ao partir, para galgar com rapidez
A noite e o espaço,
Atira ao fundo com teu lastro de amargura, Com o teu lastro de agonia e de cansaço,- De vida morta, de vida impura –
E a proa em riste, entre gaivotas a cantar,
Vai para o Mar!

João de Barros( 1881-1960)

7 de jun. de 2008

O Maio

Era uma ocasião um homem que tinha uma mulher muito preguiçosa, mas que se queria fazer passar por muito trabalhadora. Gabava-se ella de ser muito boa curadeira de linho e de estopa, e quando o marido chegava a casa costumava dizer sempre:

Maçarócas ao cortiço
Já hoje lá vão sete!

O homem pedia-lhe que lhas deixasse ver mas a mulher dizia-lhe que estava a chegar Maio, e antão as veria curadas.
Efectivamente, chegou o mês de Maio, e a mulher lá foi co`as outras ao rio, mas em vez das meadas, que não tinha, começou com grande estardalhaço a lavar umas esteiras que levava.
Foram contar a coisa ao marido, que lh`apareceu vestido de Maio, cheio de flores, c`um grande chapéu na cabeça, e um cacete nas unhas.

Chegou-se ao pé da mulher e disse-lhe c`uma voz soturna:

Eu sou o Maio curão
Curo meadas e esteiras não!

E ergueu logo o cacete p`rá mulher que estava espantada a vê-lo, e deu, deu, até o diabo dizer basta.
Voltaram p`ra casa, e diz-lhe ele:
-Prepara-te que temos de ir amanhan à feira.
Mas a mulhersinha estava sem um trapo que vestisse, porque não tinha fiado um fio durante todo o ano.
Ele antão emprestou-lhe um capote, meteram-se no carro, e lá foram p`rá feira.
Chegados lá, o homem, que queria pregar partida á mulher, quando estavam no ponto de maior concorrência, arrincou-lhe o capote das costas, e, como era a única coisa qu`ella levava vestida, ficou como a mai a deitou a este mundo.
Ninguém poi na sua ideia a algazarra medonha que ali s`ergueu; e tão grande foi ella que o marido teve que meter a desgraçada a toda a pressa no carro e trazê-la p`ra casa.
Isto serviu-lhe de lição, de modos que dahi p`ró futuro já fiava a valer; e quando alguem lhe dissesse que fiasse mais devagar porque algum fio era grosso e outro fino, ella respondia:

Grosso e delgado,
Tudo cobre o rabo!

Cardoso Marta e Augusto Pinto, Folclore da Figueira da Foz, (1913)

9 de mai. de 2008

AUTO DE ACLAMAÇÃO de D. MARIA II



Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1834 aos 8 dias do mez de Maio do dito anno n`esta villa da Figueira da Foz e casas da câmara d`ella onde se achava reunido o clero, nobreza e povo d`esta mesma villa, depois de eleito por unânime aclamação a câmara interina composta do juiz José da Costa Diniz, dos vereadores o Bacharel José Tavares de Goês Nobre, João Fernandes Thomaz, Francisco Luiz Affonso da Costa e do procurador Joaquim Malheiro de Mello, e dos mais empregados publicos, e povo abaixo assignado, unânime, expontanea e livremente por elles proclamado o Legitimo Governo da Nossa Idolatrada Rainha, A Senhora Donna Maria Segunda, cujo excellso governo, athé agora se achava interrompido, mas nunca esquecido dos honrados Habitantes d`esta villa. Embora os inimigos das liberdades dos povos tivessem feito calar em seus corações sentimentos que agora tão livremente exprimem mas nunca foram capazes de os fazerem mudar, nunca decerto os inimigos se attreverão a manchar o nome d`esta Villa tão decantada por elles mesmos, como o centro do liberalismo, com um corpo organizado em forma de batalhão nunca decerto o nome da Figueira luzia nas fileiras do usurpador; seus habitantes são mais nobres e indignos de mancharem-se na perfídia. Os nobres esforços, o Patriotismo inibitavil do Nosso Augusto Regente, O Senhor Duque de Bragança, não deixando de ser recordado por nós, não podia porem soltar-se as nossas vozes livremente; Hoje pois ellas se ellevão aos céus com a expansão mais viva da nossa gratidão, e n`este dia tão allegre para os fieis Portugueses Figueirenses, elles se juntarão pela maneira exposta, e mandarão fazer este auto de aclamação da Mesma Augusta Senhora Donna Maria Segunda, Única Legitima Rainha d`Estes reinos e assinarão em câmara e jurarão observar a própria custa de suas vidas e sendo levantados os Vivas a mesma Augusta Senhora, a Carta Constitucional e ao regente d`estes Reinos foram correspondidos com enthusiasmo supperior a todo o ellogio de que se fez o presente auto que o juiz, vereadores e mais clero, Nobreza e Povo assignarão comigo, Francisco José Ferreira d`Araújo, escrivão interino da mesma câmara, o escrevi e assignei.

Cit. Por José Jardim, Notas d`um Figueirense, in Revista da Figueira, nº 1, 1917 com a menção: “Transcripto no livro nº 5 dos actos, fls 145 v.146, 147”.

25 de abr. de 2008

FIGUEIRA DA FOZ - 25 DE ABRIL DE 1974



-Em 23 de Abril de 74 o Capitão Dinis de Almeida deslocou-se a Lisboa a fim de se apresentar no tribunal onde fora chamado. À tarde chegou à Figueira da Foz o Capitão Pizarro que me expôs a sua situação. A Companhia com que contava encontrava-se em exercícios no campo não me podendo garantir a sua arrancada. Caso lhe fosse possível poderíamos contar com ele. Se não pudesse arrancar com a coluna viria só, juntar-se a nós. Ninguém até esta altura, dentro do Aquartelamento do R.A.P. 3, estava a par do que se planeava. O Capitão Dinis de Almeida havia Iniciado uma campanha de mentalização cuidada entre os seus recrutas. Recordo, por exemplo os versos de António Aleixo que em uníssono ele encorajava a cantar:
«Vós que lá do vosso Império
Prometeis um mundo novo,
Calai-vos, que pode o povo
Qu'rer um mundo novo e sério»

«Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão?»

No dia 25 de Abril à hora prevista, é tomado o Regimento após terem sido avisados os camaradas da E.C.S. que lá fora aguardavam desesperados desde a 1 hora. Eram 3 horas e 40 minutos chega a altura de Aveiro. Chegava antes da hora prevista e Isso ía alterar os planos por nós traçados anteriormente. O movimento gerado la acordar o Cor. Aires de Figueiredo e o Major Malaquias que nesta altura ainda não sabíamos que não se encontravam a dormir no quartel. Imediatamente o Cap. Diniz de Almeida se dirigiu à messe de oficiais. Já o comandante se levantara e se dirigia para o quartel. Foi Intimado a render-se tendo então sido detido. Teve que se aguardar a saída dos presos da prisão do quartel e limpeza da mesma para nela se meter provisoriamente o Cor. Figueiredo. Logo que foi possível foi transferido para o seu quarto dando-lhe toda a liberdade que na altura era aconselhável. Quando deu entrada na prisão apresentou-me voluntariamente uma pistola que trazia no bolso. - Todos os oficiais e sargentos milicianos bem como os praças presentes no quartel aderiram imediatamente e se colocaram inteiramente à nossa disposição.
A coluna de Aveiro entrou para o quartel aguardando a preparação da coluna do R.A.P. 3 e a chegada da coluna do C.I.C.A 2 e do R.1. 14. Entretanto assumia o Comando do R.A.P. 3 o Capitão Ferreira da Cal, como oficial mais antigo, que juntamente com o Cap. Moço e Ten. Garcia haviam vindo de Águeda. A coluna foi formada rapidamente; a colaboração de todos foi admirável. Do R.A.P. 3 saíram 6 bocas de fogo 10,5 cerca de 300 homens transportados em 40 viaturas. A coluna do C.I.C.A. 2 entrou no R.A.P. 3 pelas 6 horas. Esperava-se pela do R.1. 14 que não chegara ainda. Pelas 7 horas saiu a coluna em direcção a Leiria e um quarto de hora depois aparecia do R.1. 14 que se lhe foi juntar no percurso.
Constituiu-se assim o -Agrupamento NOVEMBER- com cerca de 60 viaturas e mais de 500 homens. - A partir desta altura a vida da unidade decorreu normalmente sem os oficiais superiores que entretanto ficaram em casa bem como a grande maioria dos restantes oficiais e sargentos do O.P. A porta de armas manteve-se fechada. O pessoal que seguiu na coluna com os objectivos de Peniche e Lisboa permaneceu na capital sendo substituído em 27/4 por uma outra bateria que continuou sob o comando do Cap. Dínlz de Almeida. - Destacava-se além da grande actividade desenvolvida pelo Cap. Diniz de Almeida que deverá ser analisada a nível superior, a dedicação que o aspirante Mil. Matos pôs nas tarefas que lhe confiei sendo de uma voluntariedade admissível e digna de ser realçada sua actividade teve grande Influência para o excelente desencadeamento da manobre que se Iniciou na Figueira da Foz. Poderei ainda mencionar o Asp. Mil. Borges pela excelente colaboração que me prestou. O 1º cabo Mil. Vitorino foi também muito Influente na boa concretização dos pormenores prontificando-se a dormir sempre no quartel desde que eu lho ordenei embora tivesse quarto fora. Poderia mencionar ainda o nome de todos os militares que comigo colaboraram nos preparativos da coluna e ainda os que abnegadamente fizeram alguns serviços seguidos sem nunca por Isso terem manifestado o mais leve desagrado.

Figueira da Foz, 1 de Maio de 1974.
FAUSTO ALMEIDA PEREIRA,
Cap. de Artilharia

29 de mar. de 2008

A FALÊNCIA DO COSTA E Cª (II)



A cidade que ele banhava não era bonita nem feia. Era uma cidade vulgar de província, término duma linha de caminho de ferro com o seu pequeno porto de mar e a sua Indústria de pesca, bastante comprometida desde a recente falência do Banco.
(…) Meses atrás, de surpresa, o Banco do pai suspendera os pagamentos. Um escândalo que atordoara a cidade e só por pouco a não deixara em farrapos. A inspecção acusada de negligência. E todos aqueles avultados fundos que alimentavam, como um sangue fértil e generoso, o corpo da indústria e do comércio locais, ali estavam retidos (e estariam, realmente?!) à espera que o Governo ordenasse um inquérito.
Umas após outras, deputações de homens públicos tinham-se deslocado a Lisboa a avistar-se com o Ministro. Os jornais publicavam na primeira página os resultados das conferências. Eram pessimistas umas vezes; outras, porém, não hesitavam, em garantir que tudo voltaria em breve à normalidade.
A população acolhera o Comissário do Governo com angústia. Mas também com alguma esperança. E na antiquíssima casa bancária Spratley e Cª, em frente ao cais, peritos trabalhavam até altas horas da noite, por detrás de vidros foscos, tentando apurar responsabilidades e até que ponto seria possível, mediante operações de emergência, salvar os depositantes da ruína eminente.
O pânico estabelecera-se entretanto. À desconfiança dos primeiros dias, seguiu-se a paralisação de algumas indústrias. Uma fábrica de vidros fechou. As minhas de hulha, nas faldas da serra, reduziram a metade o período de exploração. Depois, hoje um, amanhã outro, vários estabelecimentos comerciais, alguns quase seculares, abriram falência. Inexoravelmente, à vista de todos, a máquina económica desmantelava-se em mil pedaços inúteis.

Luís Cajão, Um dia fora do mundo, Ed. Minerva, 1956

A FALÊNCIA DO COSTA E Cª (I)

*Manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministro das Finanças, nos termos e com aplicação dos artigos 11º, 12º, 56° e 58° do Decreto-Lei nº 30698, de 27 de Agosto de 1940, e 1137.° e 1324.° do Código de Processo Civi1, visto o estabelecimento bancário Costa & Cª, com sede na Figueira da Foz, não ter podido restabelecer, dentro do prazo fixado no artigo 1° daquele diploma, as condições normais do seu funcionamento: 1.° seja retirada ao mencionado estabeleci­mento a autorização de exercício do comércio bancário, considerando-se, portanto, o mesmo em estado de falência, bem como os seus sócios, João José de Figueiredo Costa, Ana Dias da Silva Costa e João José da Silva Costa, aquele falecido no período a que se refere o dito artigo 1137; 2º, se proceda, consequentemente, à liquidação imediata dos respectivos patrimónios, com observância das disposições de direito, especialmente as do decreto-lei.

*Retirado de Belarmino Pedro, Dez anos de Quixotismo, Ed. A Voz da Figueira, 1964

26 de mar. de 2008

TAVAREDE, GRACIOSO PORTO DE MAR

Tavarede, gracioso pôrto de mar aberto na embocadura do rio Alvo, gozara outrora de relativa prosperidade, graças a excelente situação: os exportadores da província florestal e vinícola que marginava as águas do Alvo, tinham nêle ótima saída para a mar. Então, nesses tempos felizes, raro era o dia em que o Espadarte, o pequenino rebocador da pôrto, empenachado de fumo, não sulcasse as águas azues do Alvo, para levar ao mar alto os veleiros atestados de pipas ou toros de pinheiro. Esses tempos tinham passado. O asso­reamento crescente do rio afugentara as embar­cações. Tavarede era agora uma cidadezinha tranquila, onde os homens caminhavam sem pressa, ao longo dos cais abandonados ao grasnido das gaivotas poisadas, em bandos espenujantes, na orla dos grandes areais do rio. O movimento do pôrto estava confinado a algumas traineiras que abasteciam de sardinha a região, e, na época própria, à faina do bacalhau para o que a cidade mantinha uma pequena frota. 0 comércio local era escasso vivendo a melhor parte da população à custa dos rendimentos de bens amassados pelos que tinham tido a dita de viver no tempo de prosperidade do pôrto. Era o caso da família de Antu­nes Pinto. Quem passasse no largo da Alfândega, e relanceasse os olhos à acanhada loja de papelaria, sôbre cujas portas pendia taboleta com o nome dêste senhor, ficaria crendo que o seu proprietá­rio não passava dum pobre comerciante. Contudo, em Tavarede, Antunes Pinto gozava fama de ricaço. Seus antepassados haviam enriquecido, dizia-se, exportando moeda falsa para o Brasil no oco de imagens devotas.

João Gaspar Simões, Uma história de província, Amores Infelizes, Presença, Coimbra, 1934

14 de mar. de 2008

A FILARMÓNICA DO PAIÃO



Livro de Eurico Silva versando a história da mais que centenária Filarmónica Paionense, fundada em 1858 pelo Dr. Leonel Seabra. O, na altura, Monte-pio Philarmónico visava “melhorar a sorte dos associados” e contribuir para a sua “moralisação” e sobre ele pesava o ditame real de que este beneplácito lhe seria retirado se e “Quando se desvie dos fins, para que é instituída, não cumpra fielmente os seus estatutos ou deixe d`enviar anualmente á Direção geral do Commercio e Industria o relatório e contas da sua gerência”.
Os estatutos foram aprovados por decreto de 30 de Setembro de 1868.

12 de mar. de 2008

LUÍS CAJÃO (1920-2008)


Semeador corajoso duma escrita de nobre consistência, escritor e personagem duma existência cumprida em plenitude, amante da música e da beleza das mulheres, sábio irónico, visionário e senhor profético do nosso futuro colectivo, cavalheiro andante, aventureiro, pastor da serenidade inquieta que de forma insustentável assola os grandes homens, eis que Luís Cajão nos deixa, agora e para sempre, só com as suas palavras. Saibamos abraçá-las, como ele abraçou de forma profunda e dedicada a sua escrita.

5 de fev. de 2008

DEUS E O DIABO

Uma vez um homem tinha que atravessar uma ponte muito velha e quase a cair. Por baixo dela havia um grande fundão, onde passava um rio de corrente muito forte.
Ora como o homem era temente a Deus, pensou em se encomendar a ele antes de se meter à ponte; mas alembrou-se também de que o Diabo podia atentá-lo ou pregar-lhe alguma partida e ficou-se p`ra`li, à entrada da ponte, sem saber se havia de avançar, se voltar para traz.
De repente veio-lhe uma ideia e começou a atravessar o rio com toda a cautela, pé-aqui-pé-acolá, e a repetir sempre:
- Se Deus é bom… o Diabo também não é mau! Se Deus é bom… o Diabo também não é mau!...
Falava assim, já se vê, p`ra contentar a ambos.
Isto foi enquanto não passou a ponte; que mal se viu do outro lado em terra firme, virou-se p`ra traz e gritou:
-Tão bom é um com`ó outro!

In Folclore da Figueira da Foz, coord. Cardoso Martha e Augusto Pinto, 1913

SANTO AMARO

Acendeu-se mais - mais rumoroso e forte­- o estrupidar do foguetório.
A multidão refluía para o adro. Saiam de pinhais -onde se tinham moído com ripànço, sestas doces - gentes apressadas e curiosas.
Ia sair a procissão!
Manuel «Tarzan» tomou o seu lugar de sem­pre. As suas mãos possantes ergueram, sem aparente esforço, a vara do pendão, - que um ligeiro sôpro de aragem enfunava.
Estendia-se uma fila de Irmãos do Santíssimo com suas opas vermelhas; Depois alongava-se a confraria da Senhora dos Aflitos, com vestes azuis.
Nossa Senhora das Dores, com suas setas no peito, surgiu ângustiosa e sofredora no seu andor atapetado de rosas brancas. O suave e lacrimoso rosto da Mãe de Deus, lívido e doloroso, resplandecia, no manto roxo, avivado a oiro, de infinita bondade, de suprema ternura.
Dum janelo, caiu um punhado de pétalas de cravos que incensaram o ar. Nossa Senhora pareceu fixar Anita, Maria Rosa e Belinha, ajoelhadas à sua passagem.
E dir-se-ia que as gemas puríssimas das suas pupilas de Misericórdia, a todas três enlearam, no mesmo piedoso olhar de caridade e per­dão…
A imagem de Santo Amaro, tôsca e velhinha, passou logo de seguida pelo palio, sob o qual caminhava o pároco de Maiorca, conduzindo a sa­grada Custódia. A banda de Santana gemia uma linda mar­cha solene e pomposa. E no coice do préstito, um mar de pessoas acompanhava o cortejo religioso com grada com­postura e respeito, bitolando os seus lentos moveres pelo chouto brando dos toques: os homens, com os chapéus nas unhas calosas e escuras, as mulheres embiocadas nos chales, o seu caçoilinho de fêltro na cabeça, no qual - entre laçarotes e fitas, penas de côres vivas, con­tas de vidro e pequenos espelhos, - refulgiam e cintilavam!
Dada a volta ao burgo, retornada a procissão à pequenina igreja, foi dado começo ao passo mais curioso e característico do festival em honra e louvor de Stº Amaro da Boiça – a venda em leilão de todas as oblatas.

In As viúvas do Rentão de Raymundo Esteves

20 de jan. de 2008

MELINDRES FIGUEIRENSES

*Batem-se 18 gemas de ovos com 125 grs. de manteiga de vaca e 450 grs. de açúcar até ficarem bem escumosas. Junta-se 125 grs. de farinha de trigo, umas pedras de sal e um pouco de casca de limão. Amassa-se tudo e, estando a massa bem trabalhada, deita-se em formas pequenas, bem untadas de manteiga, e cozinha-se em forno quente.

in Figueira da Foz – Cozinha Regional, 1973

*(contributo de um leitor)

29 de dez. de 2007

O SAL DA RAINHA

*Seja-nos permitido dizer que este documento, o fomos nós desencantar na «Notícia Histórica do Mosteiro da Vacariça", onde se encontra com tão pouco relevo, que até ao próprio Dr. Santos Rocha passou despercebido, apesar de ter sido nesta mesma obra que obteve a informação que nos transmitiu, quanto à doação feita ao Mosteiro de Lorvão, como há pouco vimos.
É ele uma interessantíssima «Carta de foro duma Marinha feita em Lavos, em 1217, a uns homens daquele lugar, pelo Bispo de Coimbra, D. Pedro», e portanto, precisamente o tal documento comprovativo do século XIII, que faltava ao nosso historiador.
Pela «Carta de Foral ou povoação de Lavos outorgada aos seus habitantes pelo Bispo D. Pedro e Cabido de Coimbra, em Setembro de 1190» publicada no Album Figueirense, sabíamos da existência de marinhas de sal em Lavos, àquela data, e que uma dessas marinhas pagava o foro de um sétimo, enquanto outra denominada a da rainha, devia pagar metade da produção, mas não podíamos atinar com a razão da disparidade nas condições estatuídas para esta e as outras e ainda, porque se distinguia esta com o pomposo título de marinha da rainha. Estes eram para nós enigmas indecifráveis.
A leitura do nosso desencantado documento que temos a grata satisfação de patentear a todos os figueirenses, e em especial aos que são salicultores, mostra-nos que a régia personagem que aqui fundou novas salinas, introduzindo-lhes, certamente, aperfeiçoamentos até então descurados, e não se limitava a ser uma proprietária adventícia de outras anteriormente existentes, baseadas em moldes rotineiros e de proporções acanhadas, foi a Rainha D. Dulce, mulher de D.Sancho I.
Compreende-se que, vivendo esta simpática senhora, ora no seu solar de Coimbra, ora no seu alcácer de Montemor-o-Velho, onde (como todos os reis anteriores a D. Dinis) tinham alternadamente a sua corte, desse com os numerosos filhos, frequentes passeios até à foz do Mondego, não só para que pudessem contemplar a grandiosa e impressionante paisagem que o mar lhes oferecia, mas também para gozarem as delícias da fresca brisa marítima nos calmosos dias de verão.
Dirá talvez alguém que isto tudo não passa de pura fantasia nossa; e no entanto nada há de mais verosímil.
Ninguém contestará que em Coimbra, no verão, há dias de calor sufocante, e suas altezas não ignoravam o bem estar, e o prazer, mesmo, que nesses dias se disfrutam à beira-mar. Que poderia impedi-las de se apropriarem de tais benefícios? A falta de boas estradas? Mas não tinham elas a via fluvial, então, muito mais praticável, pela qual podiam fazer-se transportar na galeota privativa da família?
Além disso, não era da pesqueira de Emide que a sua mesa era fornecida do melhor e mais gostoso peixe? E não era das marinhas de Tavarede e de Lavos que provinha o precioso sal, esse indispensável condimento com que era temperada a sua comida?
E não teriam nunca os príncipes manifestado a curiosidade e o desejo de visitarem o porto de S. Julião do Mondego, onde algumas caravelas dos cruzados entraram para meter provisões, enquanto as outras pairavam na cala de Buarcos, aguardando-as para dali seguirem a coadjuvar o seu avô Senhor D. Afonso Henriques, na tomada de Lisboa aos mouros?
Tudo isto eram motivos bastante eloquentes para a justificação de tais visitas, sendo naturalíssimo que vivendo aqui tão próximo, sendo-lhe todas estas coisas tão familiares, por lhe dizerem respeito, a família real não desprezasse o ensejo de aproveitar as lições práticas que delas podia colher, acrescendo ainda mais os benefícios que ao mesmo tempo lhes advinham para a sua saúde.
Considerando, pois, bem cremos que ninguém ousará classificar as nossas hipóteses de absurdas e inadmissíveis.
Seria por certo, num desses passeios de estudo e recreio que a Rainha com os Infantes, ao contornarem com o seu barco a Morraceira, pelo sul, depararam com as marinhas dos Templários e outras aí existentes, justamente quando se encontravam em laboração, interessando-lhes por tal modo os trabalhos dos marnoteiros, que logo tomaram a resolução de fundar outra que se destacasse das demais, pela sua imponência e rendimento.
D. Sancho, não deixou de aplaudir a iniciativa de sua esposa, tão de acordo com os seus planos de repovoamento dos lugares antes devastados pelos sarracenos, como tinha sucedido por mais de uma vez a Lavos, e de fomento da agricultura e doutras fontes de riqueza pública; de maneira que A MARINHA DE D. DULCE, não ficou resumida a um desejo de ocasião, nem ainda a um simples projecto, mas foi, de facto, UMA REALIDADE!

*Coelho, João, De como uma rainha portuguesa da Idade Média foi salicultora na foz do Mondego, O Figueirense, 1943, rep. por Cintrão, Marinha das Ondas

SAL


Rezam os registos que a exploração de sal na Figueira da Foz terá surgido no século XII, quando a Oveiroa (Morraceira) foi doada aos frades Crúzios (1158). Nos séculos XV e XVI o sal conquistava terreno à lezíria (milho, sobretudo) e aos juncais. António Fernando Quadros foi responsável por intensificar a sua produção. Para além da Morraceira, a salicultura fez-se também na Várzea de Tavarede, Casseira, Vila Verde, Lavos e na Marinha das Ondas.

“Na Várzea existiam até ao começo do século XVIII quatro marinhas: El-Rei, Lapa, Vassala e Licenciada”. (Pinto e Esteves) Na Morraceira, por volta de 1880, havia 12 mil talhos que produziam 60 mil toneladas de sal; Em 1917 o número tinha baixado para pouco mais de 7 mil talhos e nos anos 40 do século XX o número de talhos caía para 6 mil com uma produção de 30 mil toneladas.
Além do mercado nacional o sal era exportado para o Brasil, EUA, Terra Nova, Espanha, Escócia, Noruega e Suécia.
“A exploração era feita, em grande parte, por marnoteiros residentes na Figuei­ra, também proprietários ou enfiteutas das marinhas. Famílias como os Lemos, os Pestanas e os Feras (estas duas últimas com os nomes perpetuados em topónimos) desempenharam um importante papel no desenvolvimento de uma indústria que lhes permitiu acumular alguns capitais e lhes abriu o caminho para a ascensão social. Só mais tarde os trabalhos de fabrico e recolha do sal passaram a ser exercidos quase exclusivamente por pessoas das vizinhas freguesias de Vila Verde e de Lavos.
O segundo grupo em dimensão era o das salinas de Lavos, localizadas entre a Gala e o Rio do Pranto, assumindo denominações várias (Craveiras, Torrão, Vermelha, Negrão, Bairro, etc.). Havia ainda as de Vila Verde (Ladeiras, Gramatal e Salmanha) e as da freguesia de Tavarede. Estas últimas, dispostas entre a ribeira da Várzea e a estrada de Mira, nas imediações da estação ferroviária, haviam per­tencido ao duque de Cadaval e passado, mais tarde, para as mãos de proprietários figueirenses.
Modelo de propriedade geradora de prestígio social, as marinhas revelavam-se igualmente como uma excelente e privilegiada forma de investimento. Numa zona onde o rendimento líquido da agricultura raramente era compensador, os terrenos destinados à salicultura chegavam a dar um lucro líquido superior a 100%: 100 talhos de boa qualidade e devidamente tratados produziam entre 200 e 300 moios de sal que nos anos de preços mais elevados (por volta de 1880), valiam 250$000 a 375$00”. (Rui Cascão)

Seguimos: Cascão, Rui, Figueira da Foz e Buarcos, Permanência e Mudança…, Pinto, M. e Esteves, R. Aspectos da Figueira da Foz, Soeiro e Lourido, Fainas do Mar

28 de dez. de 2007

Sª das ONDAS

*No anno de 1624, em treze de Junho, dia de Santo António, appareceo sobre as ondas do mar Oceano, perto do Pinhal de Usso, na Freguesia de Lavos, Bispado de Coimbra, huma milagrosa Imagem da Mãy de Deos, a Fernando Affonso, o qual havia tres noytes, que sonhava, lhe dizião fosse à praya do mar buscar hum peyxe. E indo a certificarse do seu sonho, ouvio huma voz, que dizia, Fernando Affonso; & attendendo para a parte aonde tinha ouvido o echo daquella voz, vio a Imagem de Nossa Senhora, que veio sobre huma onda sahir junto a elle, & logo hum fermoso rodovalho; para que em tudo se verificasse a locução. E não sey se o interesse de achar o peyxe moveo ao Fernando Affonso a fazer mais caso do seu sonho. Trazendo este ditoso homem para sua casa a sagrada Imagem da Senhora dos Mares, affirmava depois elle, & os da sua familia. óuviraõ em muytas noytes canticos Angelicos, vendo muytas luzes, & experimentando suavissimos cheyros. Atéqui a forma do verdadeyro apparecimento.

*In, F. Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, cit por Cintrão, Marinha das Ondas na História e na lenda

26 de dez. de 2007

REVISTA DA FIGUEIRA



Número 1, Setembro de 1917. O director era Pedro Fernandes Thomaz e o secretariado da redacção de António C. Pinto de Almeida. Editor: Augusto Veiga. Propriedade da Gazeta da Figueira. Era composta e impressa na Imprensa Lusitana de Augusto veiga, sita à Praça Nova, 23 a 25.
Neste número, um editorial esclarece que se trata da continuação da “À Figueira”, “que suspendeu a sua publicação por um dos seus directores haver sahido desta cidade”. Destinava-se a “dar bom nome à sua terra natal, mantendo e alimentando o cultivo das lettras e o estudo de aspectos regionaes”.
Neste primeiro número colaboraram: Pedro Fernandes Thomaz, Sant`Iago Prezado, José Jardim, Affonso Simões, João Coelho, Cardoso Martha, Manuel de Sousa e Raymundo Esteves.
A assinatura custava 2.000 reis e o número avulso 200.

PRAIA

O areal extenso está deserto.
Nem uma viva alma ali passeia.
O próprio mar parece que salmeia
Endechas tristes para o céu aberto.

O sol a pino, radioso, esperto,
Incide os belos raios sobre a areia,
Que, à sua vez, parece, se incendeia,
Brunando quem lá passe descoberto.

As barracas – somente os esqueletos,
Parecem um pinhal incendiado, -
São como orijinais dos meus sonetos…

Cobertas, tem um tique festejado;
Mas assim, como estão, lembram-me espetos
Saídos dum fogão carbonizado.

José Ramalho Núnez(1864-1942), Pinturescos, 1908