A segunda metade do século XIX, período que viu crescer e viver Pedro Fernandes Thomás, foi, em Portugal e na Figueira, de grande riqueza histórica.
O país vivia um período de estabilidade política, marcada pelo “Rotatitivismo” partidário e assistiu a um crescimento económico salutar, caracterizado sobretudo por uma revolução ao nível dos transportes. Chamou-se-lhe o período da “Regeneração”.
Mas foi acima de tudo na cultura que esta época mais floresceu; basta atentarmos nos nomes de alguns escritores e pensadores de então para nos impressionarmos: Camilo, Eça, Oliveira Martins, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Antero de Quental, Teófilo Braga, Sampaio Bruno e Leite de Vasconcelos, entre outros. Foi a época da “Questão Coimbrã” e das célebres “Conferências do Casino” e foi um tempo de surgimento de grandes marcos na imprensa: “O Mundo”, “O Século”, “O Primeiro de Janeiro”, a “Voz do Operário” e as revistas “Lusitana” e “Ilustração Portuguesa”.
Também na Figueira este período foi áureo. Desenvolveu-se a indústria (fábricas do Vidro e da Cerâmica), fez-se grandes obras no porto, rasgou-se a ligação por estrada a Coimbra e a Leiria, abriu-se a linha da Beira Alta e do Oeste, construiu-se o mercado e iniciou-se o abastecimento de água e a iluminação pública.
Ao nível da cultura a lista é também prodigiosa: construiu-se o Theatro Príncipe, a actual sede da Assembleia Figueirense, o teatro Saraiva de Carvalho, o Museu, o Ginásio, a Naval, a Dez de Agosto e já no início do século XX, os teatros do Caras Direitas e o Trindade; nesta altura também foi lançado o jornal “O Figueirense” (1863).
Em suma, a Figueira mostrava uma classe burguesa pujante, dinâmica e com capacidade de afirmação no contexto nacional.
Pedro Fernandes Thomás viveu, pois, num contexto de enorme riqueza histórico-cultural, dir-se-ia mesmo num período muito interessante da história portuguesa e da Figueira da Foz. O investigador teve ainda o privilégio de partilhar o seu tempo com uma interessante plêiade de homens figueirenses: Santos Rocha, Acácio Antunes, Goltz de Carvalho, João Costa, Francisco Lopes Guimarães e Fernando Augusto Soares, entre outros. A geração que se seguiu, e com a qual certamente conviveu, foi também uma geração rica em personalidades que pela sua actividade marcaram e se distinguiram na vida pública: Elói do Amaral, João de Barros, Salinas Calado, Cristina Torres, Santiago Prezado, Cardoso Marta, Maurício Pinto, Manuel dos Santos, António Piedade, Joaquim de Carvalho, Raimundo Esteves e João de Oliveira Coelho.
A “A FIGUEIRA E A INVASÃO FRANCEZA, notas e documentos” foi editada em 1910. Todos sabem que esta é a data da implantação da República. Era um tempo marcado por dois sentimentos colectivos fortes: o patriotismo e o anti-clericalismo.
Por aqui se compreende como em 1910, uma obra que relatasse a oposição ao invasor estrangeiro encontrava correspondência na exaltação do sentimento pátrio. A data justificava-a, pois em 1908 assinalara-se o centenário daquelas invasões, mas o momento era propício. Era também pertinente associar ao espírito patriótico o espírito liberal de alguns clérigos, como era o caso de Pister e Andrade, razão porque um dos capítulos da obra lhe faz menção, assim como à sua obra poética. De resto, as outras partes da obra, como o documento que atesta o oferecimento de um refresco às tropas inglesas por parte dos negociantes de Coimbra, ou a ode liberal de José Joaquim de Figueiredo intitulada “A Paz de Lysia”, escrita por ocasião da inauguração da iluminação pública na Figueira, reforçam a ideia do triunfo (tardio) do liberalismo e colam a Figueira da Foz a esse movimento e seu ideário.
Na parte relativa aos acontecimentos históricos que se prendem com a invasão francesa, Pedro Fernandes Thomás dá nota pormenorizada dos momentos vivenciados na Figueira, naquilo que se chamou a primeira, segunda e terceira invasão.
Ficamos a conhecer as tomadas de posição públicas da Câmara e das populações; A obra é profusa na inserção de actas.
Conhecemos os nomes dos que abriram mão do seu pecúlio para ajudar na heróica resistência ao invasor (e os que tiveram que pagar aos franceses o seu esforço de guerra - À Figueira coube então a entrega de 180 mil reis e ao erário figueirense um empréstimo de 144 mil réis, destinado a reparações no forte de Stª Catarina, do qual nunca foi ressarcido).
Conhecemos, ao pormenor, a intervenção do esquadrão académico que, acompanhado de populares, tomou ao ocupante o forte de Stª Catarina (descrição feita por Zagalo da tomada do forte publicado no nº 5 do “Minerva Lusitana”).
Acompanhamos o pavor das gentes e os seus receios, quando após a expulsão dos franceses se colocou a hipótese do seu regresso e ficámos a saber como se recebeu sua eminência, o bispo de Leiria, que procurou acolhimento no Convento de Santo António. Conhecemos os nomes dos que compuseram a Junta de Governo da Vila e as medidas tomadas para protecção da cidade, bem como as que suportaram o desembarque dos ingleses.
Assistimos ao desembarque dos ingleses, primeiro em Buarcos (a nau Alfredo) e depois, no Cabedelo. Percebemos as estratégias em jogo no enfrentamento do invasor, com a posição de Wellington a prevalecer.
Na segunda invasão tomamos nota da resistência das populações à saída do governador José Correa Soares, bem como a abertura de donativos dos locais ao esforço de protecção da vila.
Na terceira invasão, de todas a que mais represálias teve sobre as populações, conhecemos o drama de Mariana Fernandes Thomás (irmã de Manuel) que dá nota, numa carta pormenorizada dirigida ao seu irmão, da forma como a sua família e ela própria foram vilipendiados pelo invasor e despojados dos seus bens e da sua liberdade.
Vivemos o drama das populações que ora debandam para os arredores, ora acorrem à vila.
Conhecemos as más condições em que vivem, o grassar da fome e das epidemias. Percebemos as preocupações da Câmara que se desdobrava na busca de alimentos e que depois teve que se preocupar com os mortos (passam a ser enterrados na cerca do convento de Santo António; nasceu assim, digamos, o cemitério Setentrional).
Tomámos nota, finalmente, da forma como se festejou, na Figueira e em Lavos, a expulsão das tropas francesas (16 de Abril de 1811).
A obra descreve ainda como se assinalou a efeméride nas comemorações do primeiro centenário. Um enorme e participado cortejo, envolvendo as escolas, as filarmónicas, as associações recreativas e profissionais, polícias e bombeiros e representantes de entidades várias desfilaram dos paços do concelho ao forte, onde houve missa e se assinalaram salvas de artilharia. Foi descerrada a lápide colocada no forte e de regresso aos paços do município onde se celebrou a sessão solene com vários discursos. Reza a obra que,
“O salão nobre, corredores e escadas estavam repletas de pessoas de todas as condições sociais. No vasto salão tudo quanto de distinto e notável existia na Figueira e arredores, e grande número de formosas e gentis damas”.
(Texto que serviu de base à apresentação da obra aquando da sua reedição – palácio Sotto Maior, 1 de Agosto).
4 de ago. de 2008
PEDRO FERNANDES THOMÁS E “A FIGUEIRA E A INVASÃO FRANCEZA”
Publicada por António em 12:11 PM
A FIGUEIRA E A INVASÃO FRANCEZA
Publicada por António em 11:59 AM
29 de jul. de 2008
WELESLEY DESEMBARCA
Todos os barcos capazes de aguentar o mar (lanchas, barcos de pesca do alto, etc.) foram empregues no transporte de tropas, tendo prestado grandes serviços a galeota dinamarqueza Elisabeth, ancorada no nosso porto.
O procurador do concelho, coadjuvado por Domingos Lopes da Silva, procurava assegurar os transportes das tropas, embargando os carros e cavalgaduras que se podiam encontrar, mandando construir grandes mangedouras em Lavos para onde foram enviados pastos e palha. Do Porto remeteu a Junta suprema ao General Moore, 200 montadas para o serviço do exército, e 4 cavallos para o serviço do general.
Para interprete dos inglezes e para os acompanhar, nomeou a Junta António José da Silva.
O general Welesley hospedou-se em Lavos, em casa do parocho, que então era o padre António de Macedo Pereira da Horta.
(…) Em 5 entra em Coimbra, no meio do maior enthusiasmo, o general Bernardim Freire de Andrade, que consegue reunir ali mais de 1500 homens de tropa de linha(…)
Em 7, Welesley vai a Montemor-o-velho conferenciar com os generaes Bernardim Freire e Manuel Pinto Bacellar.
Os generaes portuguezes querem que as operações da guerra se façam no interior da Beira (…). Welesley, porém, recusa-se terminantemente a abandonar o litoral na sua marcha; considera a esquadra como a sua base de operações (…).
Tal foi o resultado da conferência de Montemor, regressando depois d`ella á Figueira, e partindo em seguida com as suas tropas e a pequena divisão portugueza em direcção a Lisboa.
Ult.op.cit.
Publicada por António em 7:48 AM
24 de jul. de 2008
Mr BLIGH DESEMBARCOU EM BUARCOS
Não havendo onde aquartellar esta força mandou a Junta immediatamente construir no Pinhal oito barracões de madeira, e uma cosinha para preparar os alimentos.
Mr. Bligh demourou-se algum tempo na Figueira, indo pelo rio até Montemor, no barco de Lourenço Gonçalves.
A fim de prevenir alguma surpreza do inimigo, estabeleceram-se palissadas nos sítios do Pinhal e Lamas, principaes entradas da povoação, que foram defendidas por algumas peças de artilharia; a guarnição do forte foi reforçada, reparadas as principaes obras de defeza, e provido das competentes munições.
As povoações vizinhas da Figueira apressaram-se a mandar os soccorros que puderam, vindo de Maiorca uma companhia de ordenanças com 51 homens, das Alhadas 24, de Mira 92, da Carapinheira 81, de Arazede 68, de Liceia 15. Em Buarcos organisou-se também uma companhia com 74 homens, sendo alguns da Figueira, perfazendo tudo um total de mais de 400 ordenanças. De Peniche vieram vinte e cinco soldados de artilharia, e de outras localidades alguns soldados de infantaria e cavallaria.
(…) Foram enviadas diversas escoltas ao sul do Mondego, a fim de observarem os movimentos do inimigo; d`uma d` elas era comandante José Fernandes Thomaz. Estabeleceu-se também um serviço de posta a cavallo dirigido por João António Ferreira de Sá.
A esquadra ingleza conservava-se á vista da Figueira, aguardando o ensejo favorável de operar o desembarque das tropas que só poude começar a fazer-se no dia 1 de Agosto. A este tempo a Junta tinha já encarregado o mestre Ricardo José Monteiro, de construir algumas barracas, destinadas a alojar as tropas inglezas durante a sua permanência na Figueira
Retirado de A Figueira e a invasão franceza, notas e documentos de Pedro Fernandes Thomás, Figueira, 1910
Publicada por António em 4:34 AM
16 de jul. de 2008
MÁRIO AUGUSTO, PINTOR
Representado nos grandes museus nacionais, Mário Augusto possui um incontestável valor na pintura portuguesa.Nascido nas Alhadas (23.07.1895), cursou Belas Artes em Lisboa e no Porto, onde concluiu o curso geral. Foi bolseiro e esteve em vários países, como a França, a Inglaterra, a Bélgica e Espanha. Foi mestre de pintura na escola António Arroio e na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Não deixou de pintar as paisagens, lugares e personagens da sua terra e arredores, estando muito divulgado o seu quadro em que retrata “O Latoeiro”. Faleceu em Coimbra, em Agosto de 1941. Há poucos anos tornou-se patrono da escola básica 2/3 de Alhadas.
Imagem (Raparigas das Alhadas, 1930) retirada de galeria-de-mario-augusto.blogspot.com
Publicada por António em 8:16 AM
12 de jul. de 2008
A GREVE DOS BACALHOEIROS
Foi na Figueira da Foz e em Buarcos que a greve mais se fez sentir; os pescadores recusavam matricular-se. Na altura, a Figueira era o segundo maior porto bacalhoeiro em número de navios e o maior em recrutamento de homens para a pesca. Só em 1936 embarcaram 500 homens de Buarcos e 300 das restantes freguesias, grande parte da Cova e Gala.
A importância do movimento chamou a atenção do Diário de Lisboa que fez uma reportagem em Buarcos sobre a greve, intitulada “Pesca do bacalhau ameaçada”.
Além da recusa da matrícula, os pescadores de Buarcos – que possuíam sindicato – reivindicavam um aumento de 500 escudos na soldada fixa. Com o andar do tempo os armadores pressionavam o governo e os comerciantes da Figueira apelaram ao Ministério da Marinha para resolver a crise. Assim foi. Começaram a ser presos pescadores e um grupo que foi preso e que seguia sob escolta da capitania da Figueira para Buarcos teve o apoio da multidão que saiu à rua para apedrejar a polícia. As crónicas rezam que houve tiros e coronhadas.
A repressão fez ceder os pescadores. O Ministro da Marinha entretanto fazia sair um diploma em cujo preâmbulo se lia: “Verifica-se que para a campanha de 1937 não se apresentaram à matrícula pescadores em número suficiente para que nela possam tomar parte todos os navios que constituem a frota bacalhoeira, incluindo os que se estão acabando de construir. O interesse da nação exige porém que saiam à pesca todas as unidades em condições de o fazer”.
No dia do embarque, 15 de Maio de 1937, muitos pescadores foram presos e colocados a bordo pela polícia. Rebelo de Andrade dava a sentença: “O interesse nacional exige que os navios saiam; o governo, ponderadas todas as circunstâncias, resolveu mobilizar os pescadores; esta é a última palavra do governo, que assume a responsabilidade desta medida e garantirá os meios de a fazer executar”.
Seguiu-se de perto o artigo de Álvaro Garrido, Os bacalhoeiros em revolta: a «greve» de 1937, in Análise Social, vol. XXXVII
Publicada por António em 6:53 PM
29 de jun. de 2008
ZAGALO E O FORTE
Passam duzentos anos da tomada do forte de Stª Catarina aos franceses.
veja-se o post de Maio de 2005 "A Tomada do forte de Stº Catarina".
Publicada por António em 2:38 PM
23 de jun. de 2008
A BATOTA AMENA
Mas enganam-se os cavalheiros da indústria do jogo. Eu cá estou. (…)
Tivessem as autoridades a noção simples do dever que são obrigadas a cumprir, e há muito que a nossa praia estaria limpa d`esses senhores, que vassouram para a burra dos patrões avaros e rapaces o que a ingenuidade e o vício atiram para cima do tentador pano verde. E limpa também d`esses mesmos patrões que mal sabem ler e escrever, cuja origem e procedência é quasi sempre incerta, mas que passeiam a sua sobranceria, acotovelando com desprezo as pessoas que ganham honradamente a sua v ida.
(…)
Fechem-se as batotas! Cumpra-se a lei…
António Amargo, O Figueirense, 10 de Setembro de 1922
Publicada por António em 8:42 AM
13 de jun. de 2008
REDONDO JÚNIOR
Redondo Júnior, (1914-1991) jornalista, teatrólogo, dramaturgo, encenador, tradutor, crítico, in "A Juventude pode salvar o teatro"
Publicada por António em 11:27 AM
10 de jun. de 2008
O VELHO NAVIO

Vai para o Mar!
Pois só o Mar, que é traiçoeiro, é que não mente;
-Floresce em ilhas para o náufrago impaciente
E para o sonho que deseja repousar.
Simples miragem? O que importa se a miragem
Nos trouxe a febre de partir e de aportar,
A Primavera renascente da viagem!...
Deixa o passado junto ao cais, ó meu navio!
- Soluça lento o fado triste nas guitarras,
Há beijos quentes nas tabernas, sobre o rio…
Vai para o largo, para o Mar, quebra as amarras,
Não oiças mais o seu encanto doentio!
Mas, ao partir, para galgar com rapidez
A noite e o espaço,
Atira ao fundo com teu lastro de amargura, Com o teu lastro de agonia e de cansaço,- De vida morta, de vida impura –
E a proa em riste, entre gaivotas a cantar,
Vai para o Mar!
João de Barros( 1881-1960)
Publicada por António em 12:03 PM
7 de jun. de 2008
O Maio
Maçarócas ao cortiço
Já hoje lá vão sete!
O homem pedia-lhe que lhas deixasse ver mas a mulher dizia-lhe que estava a chegar Maio, e antão as veria curadas.
Efectivamente, chegou o mês de Maio, e a mulher lá foi co`as outras ao rio, mas em vez das meadas, que não tinha, começou com grande estardalhaço a lavar umas esteiras que levava.
Foram contar a coisa ao marido, que lh`apareceu vestido de Maio, cheio de flores, c`um grande chapéu na cabeça, e um cacete nas unhas.
Chegou-se ao pé da mulher e disse-lhe c`uma voz soturna:
Eu sou o Maio curão
Curo meadas e esteiras não!
E ergueu logo o cacete p`rá mulher que estava espantada a vê-lo, e deu, deu, até o diabo dizer basta.
Voltaram p`ra casa, e diz-lhe ele:
-Prepara-te que temos de ir amanhan à feira.
Mas a mulhersinha estava sem um trapo que vestisse, porque não tinha fiado um fio durante todo o ano.
Ele antão emprestou-lhe um capote, meteram-se no carro, e lá foram p`rá feira.
Chegados lá, o homem, que queria pregar partida á mulher, quando estavam no ponto de maior concorrência, arrincou-lhe o capote das costas, e, como era a única coisa qu`ella levava vestida, ficou como a mai a deitou a este mundo.
Ninguém poi na sua ideia a algazarra medonha que ali s`ergueu; e tão grande foi ella que o marido teve que meter a desgraçada a toda a pressa no carro e trazê-la p`ra casa.
Isto serviu-lhe de lição, de modos que dahi p`ró futuro já fiava a valer; e quando alguem lhe dissesse que fiasse mais devagar porque algum fio era grosso e outro fino, ella respondia:
Grosso e delgado,
Tudo cobre o rabo!
Cardoso Marta e Augusto Pinto, Folclore da Figueira da Foz, (1913)
Publicada por António em 11:09 AM
9 de mai. de 2008
AUTO DE ACLAMAÇÃO de D. MARIA II
Cit. Por José Jardim, Notas d`um Figueirense, in Revista da Figueira, nº 1, 1917 com a menção: “Transcripto no livro nº 5 dos actos, fls 145 v.146, 147”.
Publicada por António em 10:38 AM
25 de abr. de 2008
FIGUEIRA DA FOZ - 25 DE ABRIL DE 1974
Prometeis um mundo novo,
Calai-vos, que pode o povo
Qu'rer um mundo novo e sério»
«Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão?»
No dia 25 de Abril à hora prevista, é tomado o Regimento após terem sido avisados os camaradas da E.C.S. que lá fora aguardavam desesperados desde a 1 hora. Eram 3 horas e 40 minutos chega a altura de Aveiro. Chegava antes da hora prevista e Isso ía alterar os planos por nós traçados anteriormente. O movimento gerado la acordar o Cor. Aires de Figueiredo e o Major Malaquias que nesta altura ainda não sabíamos que não se encontravam a dormir no quartel. Imediatamente o Cap. Diniz de Almeida se dirigiu à messe de oficiais. Já o comandante se levantara e se dirigia para o quartel. Foi Intimado a render-se tendo então sido detido. Teve que se aguardar a saída dos presos da prisão do quartel e limpeza da mesma para nela se meter provisoriamente o Cor. Figueiredo. Logo que foi possível foi transferido para o seu quarto dando-lhe toda a liberdade que na altura era aconselhável. Quando deu entrada na prisão apresentou-me voluntariamente uma pistola que trazia no bolso. - Todos os oficiais e sargentos milicianos bem como os praças presentes no quartel aderiram imediatamente e se colocaram inteiramente à nossa disposição.
Figueira da Foz, 1 de Maio de 1974.
FAUSTO ALMEIDA PEREIRA,
Cap. de Artilharia
Publicada por António em 1:12 PM
29 de mar. de 2008
A FALÊNCIA DO COSTA E Cª (II)
(…) Meses atrás, de surpresa, o Banco do pai suspendera os pagamentos. Um escândalo que atordoara a cidade e só por pouco a não deixara em farrapos. A inspecção acusada de negligência. E todos aqueles avultados fundos que alimentavam, como um sangue fértil e generoso, o corpo da indústria e do comércio locais, ali estavam retidos (e estariam, realmente?!) à espera que o Governo ordenasse um inquérito.
Umas após outras, deputações de homens públicos tinham-se deslocado a Lisboa a avistar-se com o Ministro. Os jornais publicavam na primeira página os resultados das conferências. Eram pessimistas umas vezes; outras, porém, não hesitavam, em garantir que tudo voltaria em breve à normalidade.
A população acolhera o Comissário do Governo com angústia. Mas também com alguma esperança. E na antiquíssima casa bancária Spratley e Cª, em frente ao cais, peritos trabalhavam até altas horas da noite, por detrás de vidros foscos, tentando apurar responsabilidades e até que ponto seria possível, mediante operações de emergência, salvar os depositantes da ruína eminente.
O pânico estabelecera-se entretanto. À desconfiança dos primeiros dias, seguiu-se a paralisação de algumas indústrias. Uma fábrica de vidros fechou. As minhas de hulha, nas faldas da serra, reduziram a metade o período de exploração. Depois, hoje um, amanhã outro, vários estabelecimentos comerciais, alguns quase seculares, abriram falência. Inexoravelmente, à vista de todos, a máquina económica desmantelava-se em mil pedaços inúteis.
Luís Cajão, Um dia fora do mundo, Ed. Minerva, 1956
Publicada por António em 2:22 PM
A FALÊNCIA DO COSTA E Cª (I)
*Retirado de Belarmino Pedro, Dez anos de Quixotismo, Ed. A Voz da Figueira, 1964
Publicada por António em 2:18 PM
26 de mar. de 2008
TAVAREDE, GRACIOSO PORTO DE MAR
Tavarede, gracioso pôrto de mar aberto na embocadura do rio Alvo, gozara outrora de relativa prosperidade, graças a excelente situação: os exportadores da província florestal e vinícola que marginava as águas do Alvo, tinham nêle ótima saída para a mar. Então, nesses tempos felizes, raro era o dia em que o Espadarte, o pequenino rebocador da pôrto, empenachado de fumo, não sulcasse as águas azues do Alvo, para levar ao mar alto os veleiros atestados de pipas ou toros de pinheiro. Esses tempos tinham passado. O assoreamento crescente do rio afugentara as embarcações. Tavarede era agora uma cidadezinha tranquila, onde os homens caminhavam sem pressa, ao longo dos cais abandonados ao grasnido das gaivotas poisadas, em bandos espenujantes, na orla dos grandes areais do rio. O movimento do pôrto estava confinado a algumas traineiras que abasteciam de sardinha a região, e, na época própria, à faina do bacalhau para o que a cidade mantinha uma pequena frota. 0 comércio local era escasso vivendo a melhor parte da população à custa dos rendimentos de bens amassados pelos que tinham tido a dita de viver no tempo de prosperidade do pôrto. Era o caso da família de Antunes Pinto. Quem passasse no largo da Alfândega, e relanceasse os olhos à acanhada loja de papelaria, sôbre cujas portas pendia taboleta com o nome dêste senhor, ficaria crendo que o seu proprietário não passava dum pobre comerciante. Contudo, em Tavarede, Antunes Pinto gozava fama de ricaço. Seus antepassados haviam enriquecido, dizia-se, exportando moeda falsa para o Brasil no oco de imagens devotas.João Gaspar Simões, Uma história de província, Amores Infelizes, Presença, Coimbra, 1934
Publicada por António em 1:51 PM
14 de mar. de 2008
A FILARMÓNICA DO PAIÃO
Os estatutos foram aprovados por decreto de 30 de Setembro de 1868.
Publicada por António em 3:30 PM
12 de mar. de 2008
LUÍS CAJÃO (1920-2008)
Publicada por António em 8:34 AM
5 de fev. de 2008
DEUS E O DIABO
Ora como o homem era temente a Deus, pensou em se encomendar a ele antes de se meter à ponte; mas alembrou-se também de que o Diabo podia atentá-lo ou pregar-lhe alguma partida e ficou-se p`ra`li, à entrada da ponte, sem saber se havia de avançar, se voltar para traz.
De repente veio-lhe uma ideia e começou a atravessar o rio com toda a cautela, pé-aqui-pé-acolá, e a repetir sempre:
- Se Deus é bom… o Diabo também não é mau! Se Deus é bom… o Diabo também não é mau!...
Falava assim, já se vê, p`ra contentar a ambos.
Isto foi enquanto não passou a ponte; que mal se viu do outro lado em terra firme, virou-se p`ra traz e gritou:
-Tão bom é um com`ó outro!
In Folclore da Figueira da Foz, coord. Cardoso Martha e Augusto Pinto, 1913
Publicada por António em 4:30 AM
SANTO AMARO
A multidão refluía para o adro. Saiam de pinhais -onde se tinham moído com ripànço, sestas doces - gentes apressadas e curiosas.
Ia sair a procissão!
Manuel «Tarzan» tomou o seu lugar de sempre. As suas mãos possantes ergueram, sem aparente esforço, a vara do pendão, - que um ligeiro sôpro de aragem enfunava.
Estendia-se uma fila de Irmãos do Santíssimo com suas opas vermelhas; Depois alongava-se a confraria da Senhora dos Aflitos, com vestes azuis.
Nossa Senhora das Dores, com suas setas no peito, surgiu ângustiosa e sofredora no seu andor atapetado de rosas brancas. O suave e lacrimoso rosto da Mãe de Deus, lívido e doloroso, resplandecia, no manto roxo, avivado a oiro, de infinita bondade, de suprema ternura.
Dum janelo, caiu um punhado de pétalas de cravos que incensaram o ar. Nossa Senhora pareceu fixar Anita, Maria Rosa e Belinha, ajoelhadas à sua passagem.
E dir-se-ia que as gemas puríssimas das suas pupilas de Misericórdia, a todas três enlearam, no mesmo piedoso olhar de caridade e perdão…
A imagem de Santo Amaro, tôsca e velhinha, passou logo de seguida pelo palio, sob o qual caminhava o pároco de Maiorca, conduzindo a sagrada Custódia. A banda de Santana gemia uma linda marcha solene e pomposa. E no coice do préstito, um mar de pessoas acompanhava o cortejo religioso com grada compostura e respeito, bitolando os seus lentos moveres pelo chouto brando dos toques: os homens, com os chapéus nas unhas calosas e escuras, as mulheres embiocadas nos chales, o seu caçoilinho de fêltro na cabeça, no qual - entre laçarotes e fitas, penas de côres vivas, contas de vidro e pequenos espelhos, - refulgiam e cintilavam!
Dada a volta ao burgo, retornada a procissão à pequenina igreja, foi dado começo ao passo mais curioso e característico do festival em honra e louvor de Stº Amaro da Boiça – a venda em leilão de todas as oblatas.
In As viúvas do Rentão de Raymundo Esteves
Publicada por António em 4:08 AM











