29 de mar. de 2008

A FALÊNCIA DO COSTA E Cª (II)



A cidade que ele banhava não era bonita nem feia. Era uma cidade vulgar de província, término duma linha de caminho de ferro com o seu pequeno porto de mar e a sua Indústria de pesca, bastante comprometida desde a recente falência do Banco.
(…) Meses atrás, de surpresa, o Banco do pai suspendera os pagamentos. Um escândalo que atordoara a cidade e só por pouco a não deixara em farrapos. A inspecção acusada de negligência. E todos aqueles avultados fundos que alimentavam, como um sangue fértil e generoso, o corpo da indústria e do comércio locais, ali estavam retidos (e estariam, realmente?!) à espera que o Governo ordenasse um inquérito.
Umas após outras, deputações de homens públicos tinham-se deslocado a Lisboa a avistar-se com o Ministro. Os jornais publicavam na primeira página os resultados das conferências. Eram pessimistas umas vezes; outras, porém, não hesitavam, em garantir que tudo voltaria em breve à normalidade.
A população acolhera o Comissário do Governo com angústia. Mas também com alguma esperança. E na antiquíssima casa bancária Spratley e Cª, em frente ao cais, peritos trabalhavam até altas horas da noite, por detrás de vidros foscos, tentando apurar responsabilidades e até que ponto seria possível, mediante operações de emergência, salvar os depositantes da ruína eminente.
O pânico estabelecera-se entretanto. À desconfiança dos primeiros dias, seguiu-se a paralisação de algumas indústrias. Uma fábrica de vidros fechou. As minhas de hulha, nas faldas da serra, reduziram a metade o período de exploração. Depois, hoje um, amanhã outro, vários estabelecimentos comerciais, alguns quase seculares, abriram falência. Inexoravelmente, à vista de todos, a máquina económica desmantelava-se em mil pedaços inúteis.

Luís Cajão, Um dia fora do mundo, Ed. Minerva, 1956

A FALÊNCIA DO COSTA E Cª (I)

*Manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministro das Finanças, nos termos e com aplicação dos artigos 11º, 12º, 56° e 58° do Decreto-Lei nº 30698, de 27 de Agosto de 1940, e 1137.° e 1324.° do Código de Processo Civi1, visto o estabelecimento bancário Costa & Cª, com sede na Figueira da Foz, não ter podido restabelecer, dentro do prazo fixado no artigo 1° daquele diploma, as condições normais do seu funcionamento: 1.° seja retirada ao mencionado estabeleci­mento a autorização de exercício do comércio bancário, considerando-se, portanto, o mesmo em estado de falência, bem como os seus sócios, João José de Figueiredo Costa, Ana Dias da Silva Costa e João José da Silva Costa, aquele falecido no período a que se refere o dito artigo 1137; 2º, se proceda, consequentemente, à liquidação imediata dos respectivos patrimónios, com observância das disposições de direito, especialmente as do decreto-lei.

*Retirado de Belarmino Pedro, Dez anos de Quixotismo, Ed. A Voz da Figueira, 1964

26 de mar. de 2008

TAVAREDE, GRACIOSO PORTO DE MAR

Tavarede, gracioso pôrto de mar aberto na embocadura do rio Alvo, gozara outrora de relativa prosperidade, graças a excelente situação: os exportadores da província florestal e vinícola que marginava as águas do Alvo, tinham nêle ótima saída para a mar. Então, nesses tempos felizes, raro era o dia em que o Espadarte, o pequenino rebocador da pôrto, empenachado de fumo, não sulcasse as águas azues do Alvo, para levar ao mar alto os veleiros atestados de pipas ou toros de pinheiro. Esses tempos tinham passado. O asso­reamento crescente do rio afugentara as embar­cações. Tavarede era agora uma cidadezinha tranquila, onde os homens caminhavam sem pressa, ao longo dos cais abandonados ao grasnido das gaivotas poisadas, em bandos espenujantes, na orla dos grandes areais do rio. O movimento do pôrto estava confinado a algumas traineiras que abasteciam de sardinha a região, e, na época própria, à faina do bacalhau para o que a cidade mantinha uma pequena frota. 0 comércio local era escasso vivendo a melhor parte da população à custa dos rendimentos de bens amassados pelos que tinham tido a dita de viver no tempo de prosperidade do pôrto. Era o caso da família de Antu­nes Pinto. Quem passasse no largo da Alfândega, e relanceasse os olhos à acanhada loja de papelaria, sôbre cujas portas pendia taboleta com o nome dêste senhor, ficaria crendo que o seu proprietá­rio não passava dum pobre comerciante. Contudo, em Tavarede, Antunes Pinto gozava fama de ricaço. Seus antepassados haviam enriquecido, dizia-se, exportando moeda falsa para o Brasil no oco de imagens devotas.

João Gaspar Simões, Uma história de província, Amores Infelizes, Presença, Coimbra, 1934

14 de mar. de 2008

A FILARMÓNICA DO PAIÃO



Livro de Eurico Silva versando a história da mais que centenária Filarmónica Paionense, fundada em 1858 pelo Dr. Leonel Seabra. O, na altura, Monte-pio Philarmónico visava “melhorar a sorte dos associados” e contribuir para a sua “moralisação” e sobre ele pesava o ditame real de que este beneplácito lhe seria retirado se e “Quando se desvie dos fins, para que é instituída, não cumpra fielmente os seus estatutos ou deixe d`enviar anualmente á Direção geral do Commercio e Industria o relatório e contas da sua gerência”.
Os estatutos foram aprovados por decreto de 30 de Setembro de 1868.

12 de mar. de 2008

LUÍS CAJÃO (1920-2008)


Semeador corajoso duma escrita de nobre consistência, escritor e personagem duma existência cumprida em plenitude, amante da música e da beleza das mulheres, sábio irónico, visionário e senhor profético do nosso futuro colectivo, cavalheiro andante, aventureiro, pastor da serenidade inquieta que de forma insustentável assola os grandes homens, eis que Luís Cajão nos deixa, agora e para sempre, só com as suas palavras. Saibamos abraçá-las, como ele abraçou de forma profunda e dedicada a sua escrita.

5 de fev. de 2008

DEUS E O DIABO

Uma vez um homem tinha que atravessar uma ponte muito velha e quase a cair. Por baixo dela havia um grande fundão, onde passava um rio de corrente muito forte.
Ora como o homem era temente a Deus, pensou em se encomendar a ele antes de se meter à ponte; mas alembrou-se também de que o Diabo podia atentá-lo ou pregar-lhe alguma partida e ficou-se p`ra`li, à entrada da ponte, sem saber se havia de avançar, se voltar para traz.
De repente veio-lhe uma ideia e começou a atravessar o rio com toda a cautela, pé-aqui-pé-acolá, e a repetir sempre:
- Se Deus é bom… o Diabo também não é mau! Se Deus é bom… o Diabo também não é mau!...
Falava assim, já se vê, p`ra contentar a ambos.
Isto foi enquanto não passou a ponte; que mal se viu do outro lado em terra firme, virou-se p`ra traz e gritou:
-Tão bom é um com`ó outro!

In Folclore da Figueira da Foz, coord. Cardoso Martha e Augusto Pinto, 1913

SANTO AMARO

Acendeu-se mais - mais rumoroso e forte­- o estrupidar do foguetório.
A multidão refluía para o adro. Saiam de pinhais -onde se tinham moído com ripànço, sestas doces - gentes apressadas e curiosas.
Ia sair a procissão!
Manuel «Tarzan» tomou o seu lugar de sem­pre. As suas mãos possantes ergueram, sem aparente esforço, a vara do pendão, - que um ligeiro sôpro de aragem enfunava.
Estendia-se uma fila de Irmãos do Santíssimo com suas opas vermelhas; Depois alongava-se a confraria da Senhora dos Aflitos, com vestes azuis.
Nossa Senhora das Dores, com suas setas no peito, surgiu ângustiosa e sofredora no seu andor atapetado de rosas brancas. O suave e lacrimoso rosto da Mãe de Deus, lívido e doloroso, resplandecia, no manto roxo, avivado a oiro, de infinita bondade, de suprema ternura.
Dum janelo, caiu um punhado de pétalas de cravos que incensaram o ar. Nossa Senhora pareceu fixar Anita, Maria Rosa e Belinha, ajoelhadas à sua passagem.
E dir-se-ia que as gemas puríssimas das suas pupilas de Misericórdia, a todas três enlearam, no mesmo piedoso olhar de caridade e per­dão…
A imagem de Santo Amaro, tôsca e velhinha, passou logo de seguida pelo palio, sob o qual caminhava o pároco de Maiorca, conduzindo a sa­grada Custódia. A banda de Santana gemia uma linda mar­cha solene e pomposa. E no coice do préstito, um mar de pessoas acompanhava o cortejo religioso com grada com­postura e respeito, bitolando os seus lentos moveres pelo chouto brando dos toques: os homens, com os chapéus nas unhas calosas e escuras, as mulheres embiocadas nos chales, o seu caçoilinho de fêltro na cabeça, no qual - entre laçarotes e fitas, penas de côres vivas, con­tas de vidro e pequenos espelhos, - refulgiam e cintilavam!
Dada a volta ao burgo, retornada a procissão à pequenina igreja, foi dado começo ao passo mais curioso e característico do festival em honra e louvor de Stº Amaro da Boiça – a venda em leilão de todas as oblatas.

In As viúvas do Rentão de Raymundo Esteves

20 de jan. de 2008

MELINDRES FIGUEIRENSES

*Batem-se 18 gemas de ovos com 125 grs. de manteiga de vaca e 450 grs. de açúcar até ficarem bem escumosas. Junta-se 125 grs. de farinha de trigo, umas pedras de sal e um pouco de casca de limão. Amassa-se tudo e, estando a massa bem trabalhada, deita-se em formas pequenas, bem untadas de manteiga, e cozinha-se em forno quente.

in Figueira da Foz – Cozinha Regional, 1973

*(contributo de um leitor)

29 de dez. de 2007

O SAL DA RAINHA

*Seja-nos permitido dizer que este documento, o fomos nós desencantar na «Notícia Histórica do Mosteiro da Vacariça", onde se encontra com tão pouco relevo, que até ao próprio Dr. Santos Rocha passou despercebido, apesar de ter sido nesta mesma obra que obteve a informação que nos transmitiu, quanto à doação feita ao Mosteiro de Lorvão, como há pouco vimos.
É ele uma interessantíssima «Carta de foro duma Marinha feita em Lavos, em 1217, a uns homens daquele lugar, pelo Bispo de Coimbra, D. Pedro», e portanto, precisamente o tal documento comprovativo do século XIII, que faltava ao nosso historiador.
Pela «Carta de Foral ou povoação de Lavos outorgada aos seus habitantes pelo Bispo D. Pedro e Cabido de Coimbra, em Setembro de 1190» publicada no Album Figueirense, sabíamos da existência de marinhas de sal em Lavos, àquela data, e que uma dessas marinhas pagava o foro de um sétimo, enquanto outra denominada a da rainha, devia pagar metade da produção, mas não podíamos atinar com a razão da disparidade nas condições estatuídas para esta e as outras e ainda, porque se distinguia esta com o pomposo título de marinha da rainha. Estes eram para nós enigmas indecifráveis.
A leitura do nosso desencantado documento que temos a grata satisfação de patentear a todos os figueirenses, e em especial aos que são salicultores, mostra-nos que a régia personagem que aqui fundou novas salinas, introduzindo-lhes, certamente, aperfeiçoamentos até então descurados, e não se limitava a ser uma proprietária adventícia de outras anteriormente existentes, baseadas em moldes rotineiros e de proporções acanhadas, foi a Rainha D. Dulce, mulher de D.Sancho I.
Compreende-se que, vivendo esta simpática senhora, ora no seu solar de Coimbra, ora no seu alcácer de Montemor-o-Velho, onde (como todos os reis anteriores a D. Dinis) tinham alternadamente a sua corte, desse com os numerosos filhos, frequentes passeios até à foz do Mondego, não só para que pudessem contemplar a grandiosa e impressionante paisagem que o mar lhes oferecia, mas também para gozarem as delícias da fresca brisa marítima nos calmosos dias de verão.
Dirá talvez alguém que isto tudo não passa de pura fantasia nossa; e no entanto nada há de mais verosímil.
Ninguém contestará que em Coimbra, no verão, há dias de calor sufocante, e suas altezas não ignoravam o bem estar, e o prazer, mesmo, que nesses dias se disfrutam à beira-mar. Que poderia impedi-las de se apropriarem de tais benefícios? A falta de boas estradas? Mas não tinham elas a via fluvial, então, muito mais praticável, pela qual podiam fazer-se transportar na galeota privativa da família?
Além disso, não era da pesqueira de Emide que a sua mesa era fornecida do melhor e mais gostoso peixe? E não era das marinhas de Tavarede e de Lavos que provinha o precioso sal, esse indispensável condimento com que era temperada a sua comida?
E não teriam nunca os príncipes manifestado a curiosidade e o desejo de visitarem o porto de S. Julião do Mondego, onde algumas caravelas dos cruzados entraram para meter provisões, enquanto as outras pairavam na cala de Buarcos, aguardando-as para dali seguirem a coadjuvar o seu avô Senhor D. Afonso Henriques, na tomada de Lisboa aos mouros?
Tudo isto eram motivos bastante eloquentes para a justificação de tais visitas, sendo naturalíssimo que vivendo aqui tão próximo, sendo-lhe todas estas coisas tão familiares, por lhe dizerem respeito, a família real não desprezasse o ensejo de aproveitar as lições práticas que delas podia colher, acrescendo ainda mais os benefícios que ao mesmo tempo lhes advinham para a sua saúde.
Considerando, pois, bem cremos que ninguém ousará classificar as nossas hipóteses de absurdas e inadmissíveis.
Seria por certo, num desses passeios de estudo e recreio que a Rainha com os Infantes, ao contornarem com o seu barco a Morraceira, pelo sul, depararam com as marinhas dos Templários e outras aí existentes, justamente quando se encontravam em laboração, interessando-lhes por tal modo os trabalhos dos marnoteiros, que logo tomaram a resolução de fundar outra que se destacasse das demais, pela sua imponência e rendimento.
D. Sancho, não deixou de aplaudir a iniciativa de sua esposa, tão de acordo com os seus planos de repovoamento dos lugares antes devastados pelos sarracenos, como tinha sucedido por mais de uma vez a Lavos, e de fomento da agricultura e doutras fontes de riqueza pública; de maneira que A MARINHA DE D. DULCE, não ficou resumida a um desejo de ocasião, nem ainda a um simples projecto, mas foi, de facto, UMA REALIDADE!

*Coelho, João, De como uma rainha portuguesa da Idade Média foi salicultora na foz do Mondego, O Figueirense, 1943, rep. por Cintrão, Marinha das Ondas

SAL


Rezam os registos que a exploração de sal na Figueira da Foz terá surgido no século XII, quando a Oveiroa (Morraceira) foi doada aos frades Crúzios (1158). Nos séculos XV e XVI o sal conquistava terreno à lezíria (milho, sobretudo) e aos juncais. António Fernando Quadros foi responsável por intensificar a sua produção. Para além da Morraceira, a salicultura fez-se também na Várzea de Tavarede, Casseira, Vila Verde, Lavos e na Marinha das Ondas.

“Na Várzea existiam até ao começo do século XVIII quatro marinhas: El-Rei, Lapa, Vassala e Licenciada”. (Pinto e Esteves) Na Morraceira, por volta de 1880, havia 12 mil talhos que produziam 60 mil toneladas de sal; Em 1917 o número tinha baixado para pouco mais de 7 mil talhos e nos anos 40 do século XX o número de talhos caía para 6 mil com uma produção de 30 mil toneladas.
Além do mercado nacional o sal era exportado para o Brasil, EUA, Terra Nova, Espanha, Escócia, Noruega e Suécia.
“A exploração era feita, em grande parte, por marnoteiros residentes na Figuei­ra, também proprietários ou enfiteutas das marinhas. Famílias como os Lemos, os Pestanas e os Feras (estas duas últimas com os nomes perpetuados em topónimos) desempenharam um importante papel no desenvolvimento de uma indústria que lhes permitiu acumular alguns capitais e lhes abriu o caminho para a ascensão social. Só mais tarde os trabalhos de fabrico e recolha do sal passaram a ser exercidos quase exclusivamente por pessoas das vizinhas freguesias de Vila Verde e de Lavos.
O segundo grupo em dimensão era o das salinas de Lavos, localizadas entre a Gala e o Rio do Pranto, assumindo denominações várias (Craveiras, Torrão, Vermelha, Negrão, Bairro, etc.). Havia ainda as de Vila Verde (Ladeiras, Gramatal e Salmanha) e as da freguesia de Tavarede. Estas últimas, dispostas entre a ribeira da Várzea e a estrada de Mira, nas imediações da estação ferroviária, haviam per­tencido ao duque de Cadaval e passado, mais tarde, para as mãos de proprietários figueirenses.
Modelo de propriedade geradora de prestígio social, as marinhas revelavam-se igualmente como uma excelente e privilegiada forma de investimento. Numa zona onde o rendimento líquido da agricultura raramente era compensador, os terrenos destinados à salicultura chegavam a dar um lucro líquido superior a 100%: 100 talhos de boa qualidade e devidamente tratados produziam entre 200 e 300 moios de sal que nos anos de preços mais elevados (por volta de 1880), valiam 250$000 a 375$00”. (Rui Cascão)

Seguimos: Cascão, Rui, Figueira da Foz e Buarcos, Permanência e Mudança…, Pinto, M. e Esteves, R. Aspectos da Figueira da Foz, Soeiro e Lourido, Fainas do Mar

28 de dez. de 2007

Sª das ONDAS

*No anno de 1624, em treze de Junho, dia de Santo António, appareceo sobre as ondas do mar Oceano, perto do Pinhal de Usso, na Freguesia de Lavos, Bispado de Coimbra, huma milagrosa Imagem da Mãy de Deos, a Fernando Affonso, o qual havia tres noytes, que sonhava, lhe dizião fosse à praya do mar buscar hum peyxe. E indo a certificarse do seu sonho, ouvio huma voz, que dizia, Fernando Affonso; & attendendo para a parte aonde tinha ouvido o echo daquella voz, vio a Imagem de Nossa Senhora, que veio sobre huma onda sahir junto a elle, & logo hum fermoso rodovalho; para que em tudo se verificasse a locução. E não sey se o interesse de achar o peyxe moveo ao Fernando Affonso a fazer mais caso do seu sonho. Trazendo este ditoso homem para sua casa a sagrada Imagem da Senhora dos Mares, affirmava depois elle, & os da sua familia. óuviraõ em muytas noytes canticos Angelicos, vendo muytas luzes, & experimentando suavissimos cheyros. Atéqui a forma do verdadeyro apparecimento.

*In, F. Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, cit por Cintrão, Marinha das Ondas na História e na lenda

26 de dez. de 2007

REVISTA DA FIGUEIRA



Número 1, Setembro de 1917. O director era Pedro Fernandes Thomaz e o secretariado da redacção de António C. Pinto de Almeida. Editor: Augusto Veiga. Propriedade da Gazeta da Figueira. Era composta e impressa na Imprensa Lusitana de Augusto veiga, sita à Praça Nova, 23 a 25.
Neste número, um editorial esclarece que se trata da continuação da “À Figueira”, “que suspendeu a sua publicação por um dos seus directores haver sahido desta cidade”. Destinava-se a “dar bom nome à sua terra natal, mantendo e alimentando o cultivo das lettras e o estudo de aspectos regionaes”.
Neste primeiro número colaboraram: Pedro Fernandes Thomaz, Sant`Iago Prezado, José Jardim, Affonso Simões, João Coelho, Cardoso Martha, Manuel de Sousa e Raymundo Esteves.
A assinatura custava 2.000 reis e o número avulso 200.

PRAIA

O areal extenso está deserto.
Nem uma viva alma ali passeia.
O próprio mar parece que salmeia
Endechas tristes para o céu aberto.

O sol a pino, radioso, esperto,
Incide os belos raios sobre a areia,
Que, à sua vez, parece, se incendeia,
Brunando quem lá passe descoberto.

As barracas – somente os esqueletos,
Parecem um pinhal incendiado, -
São como orijinais dos meus sonetos…

Cobertas, tem um tique festejado;
Mas assim, como estão, lembram-me espetos
Saídos dum fogão carbonizado.

José Ramalho Núnez(1864-1942), Pinturescos, 1908

A PESCA FLUVIAL NA COVA E GALLA


É principalmente a numerosa população que habita as povoações que demoram ao sul da Figueira, a Galla e Cova de Lavos, do outro lado do Mondego, em frente da cidade, que se entrega com mais afan à pesca fluvial e onde existe maior numero de barcos, redes e outros apparelhos piscícolas.
Os pescadores do Buarcos occupam-se quasi exclusivamente na pesca do alto ou na captura da sardinha, quer no mar largo, na occasião da safra, quer na costa com as artes ou rêdes de arrasto. O número de pescadores que actualmente habitam a cidade é insignificante. É pois nas povoações acima mencionadas onde se recruta a maior parte dos indivíduos que no vasto estuário do Mondego se entrega a esta indústria.

As espécies piscícolas que mais abundam no Mondego são os linguados, sôlhas, tainhas, robalétes, enguias, fanecas etc., que se pescam durante todo o anno, e as lampreias, sáveis, savelhas, corvinas, de Janeiro a Abril, quando estes peixes sobem os rios para a dosova. Nos bancos, e covões de arêa que se espalham pelo leito do rio, ficam a descoberto na vasante das marés, apanha-se o berbigão, o mexilhão, a navalha, o lingeirão, etc.
Principalmente de Inverno, quando a agitação do mar impede a sahida dos barcos para a pesca do alto, e por este motivo se torna impossível também o emprego das rêdes do arrasto, a pesca f1uvial atinge extraordinária importância, abastecendo ella só os mercados da Figueira, Coimbra a outras povoações limitrophes. Na primavera numerosos grupos de pescadores da Galla e Cova vão todos os annos exercer a sua industria no Tejo, onde a pesca é mais remuneradora, empregando-se na captura do sável e corvina, que nos mezes de Março, Abril e Maio abundam extraordinariamente naquele grande rio. Terminada a safra ei-los que voltam de novo ao Mondego até princípios de Novembro, época em que os primeiros bancos de sardinha os chama ao mar largo.

Ret. de edição policop. editada pela Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás. Não há referência ao autor .

19 de dez. de 2007

PESCADORES E SEUS BARCOS

Faz-se a pesca da sardinha no Inverno, na Figueira. Para salgar, a melhor sardinha é a de Janeiro. As redes empregadas nesta pesca são as chamadas SARDINHEIRAS ou PEÇAS. Durante o Verão saem os pescadores a apanha da raia, pescada, faneca, rodovalho, linguado e congro.
Recolhendo os lucros do trabalho, não há nesta gente o cuidado de os regular para se cobrir das vicissitudes da vida, que não são poucas. É largo e bem acentuado no pescador o espírito de imprevidência. Por isso comem e bebem todos os ganhos, enquanto duram, os quais, bem repartidos, davam margem a afrontrar os maus dias de ociosidade forçada, os da tempestade quando o mar urra temerosamente como cem leões de ventre rasgado, quando o mar se alça contorsionado, em convulsões monstruosas e frenéticos remoinhos, a querer engo1ir a terra, a querer escalar o céu...
A horas de fartura, poucas, correspondem horas de escassez, muitas. E, já se sabe, um dos meios deste desperdiçar é o vinho.

Guarda esta gente do mar uma viva indiferença por tudo. Até, talvez, será este espírito de indiferença bem maior que o da imprevidência. Quebra-a, porém, o vinho e só ele anima os pescadores. Mas lutando a toda a hora com a morte nas fainas do mar trai­çoeiro quantas vezes! - de que lhes valerá o arrecadar, o dar valor às coisas que os outros estimam!
Quando não pescam, não sabem o que fazer. Daí, envoltos em suas ásperas farpelas de saragoça curtida, carapuças negras a tombar-lhes sobre uma orelha e de cachimbo queimado a fumegar densos vapores, segue até às vendas com zurrapas reclamadas a rótulos sedutores do bom verdasco e bom maduro, a gastar o tempo na bela sociedade e o cabedal na bela pinga.
Pelas portas de seus casebres vivem as mulheres e crianças a conversar, a coser, a fazer meia e também a catar-se. Vezes por outras, acontece o 1amuriarem sua triste vida ao raro caminheiro de seus bairros. No fundo, toda a vida do pescador, seu modo de viver é, em casa, uma miséria pegada, quer de bens, quer de limpeza e conforto, no mar, uma tribulação continua, a carranca da morte sempre à vista.
Os barcos, esses, vivem juntinhos, aconchegados e bem unidos como irmãos duma confraria da mesma fé. Na Figueira, são uns figurões mui guapos, engalanados a cores pimponas, com títulos de rica devoção em letras de palmo e meio a farfalhudos emblemas, de religiosidade uns, outros de fantasia e ainda outros de superstição, a rutilarem vaidosos ao sol arrogan­te. Dir-se-á, porém, que o baptismo dos barcos vai perdendo o tom religioso da tradição, da devoção, em prol das coisas de comum e da política. Alguns são bem curiosos e fazem sorrir pelo inesperado como CONTAS DO PORTO, FILHO D0 DONO; outros levam-nos a arregalar os olhos pelo seu estrangeirismo, tal o de JOFFRE.
Toda a pintura dos barcos e o desenho de títulos e emblemas é feita, regra geral, por artistas da terra. Às vezes, porém, aparece um pescador mais curioso e económico que substitui o artista na obra pictura1. Mas não só emblemas e títu1os fulgem suas cores berrantes no costado dos barcos. Estes, de alto a baixo, cobrem-se de santos de variadas tintas; tais santos são divididos em faixas de cores diferentes - cada faixa, cada cor. Na Figueira, na maior parte, as faixas não vão a mais de três, sendo preta, no geral, a inferior. A sua marca de capitania é f1103y.
Ora da pintura dos barcos o mais curioso e atraente está nos emblemas ou divisas. Estas, tanto são marcas de fantasia, como religiosas ou supersticiosas. No primeiro caso, abundam os corações complicando-se variadamente; no segundo, sobejam as cruzes com feitios diversos; no terceiro, multiplicam-se os círculos concêntricos - cada roda, cada cor - e o signo Saimão, uma vezes simp1es, outras recortado em cores e ainda mantido num. círculo, como amuletos de grande virtude protectora. Este signo, a célebre pentalfa ou estrela de Mercúrio, vem de tempos imemoriais e foi do grande voga na magia medieval e nas crenças lusas.
Pescadores há que, na ideia de dar maior realce a seus barcos, os atulham com dois, três e mais emblemas como um da Figueira cuja ornamentação ia a quatro divisas.
De graúda variedade de marcas ou divisas, bastantes há com pequenas variações: os CORAÇÕES, as CRUZES, o SIGNO SAIMÂO, os SARILHOS e as GRADES, respectivamente MOINHOS e ENCOMENDAS; na Figueira além destas, cujo sentido é compreensível, há ainda umas outras que se não percebem e que os pescadores dão à conta de simples ornatos: os PANAIS, que descem da segunda ou terceira faixa colorida, de ambos os lados dos barcos, os_ÓCULOS (ASPAS CERRADAS na Figueira) postos à laia de aspas, nos títulos.

In Terra Portuguesa, 1922, (sem menção do autor) ret. de edição polic. da Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás, 1984

PEIXEIRAS



Vinham de Quiaios, de onde eram naturais, vergadas ao peso das canastras, percorrendo calvários de areia, de porta em porta, na venda do seu peixe. Atravessavam ermos e pinheirais, batendo léguas desmedidas, ágeis e descal­ças, bem dispostas, e sempre com resposta adequada para as mais inesperadas situações.
Que peixe vendiam estas sardinheiras trota-mundos? Obvi­amente que, na maioria dos casos era a sardinha que imperava; porém, de vez em quando, la vinha um carapau para desfastio, ou o biqueirão, ou, mais raramente a raia pintalgada. E também a petinga vendida ao prato, muito reclamada pelas descamisadelas do milho …
Eram duas as peixeiras mais assíduas que faziam esta volta, mãe e filha, chamadas Marcolina e Benvinda, respectivamente; vêmo-las ainda, altas e magras, esgalgadas mesmo, de pé descalço e empreendedor, um ar sempre prazenteiro. Percorriam lugarejos que não vêm no mapa, numa corrida contínua, saltitantes, lutando pela vida, falando uma linguagem algo estrambótica, onde sobres­saía a pronúncia afrancesada do u. E por esta maneira de falar, logo se via de onde eram naturais. Ossos de ferro, dizia quem as via passar, sempre no mesmo passo estugado, levantando por vezes a canastra nas mãos, certamente para darem descanso à cabeça. Parece que haviam nascido para andarem eternamente debaixo do carrego das cestas. Até porque, à medida que iam vendendo o seu peixe, iam­-nas carregando de vária mercadoria que recebiam em troca: um çalamim de feijão, algum punhado de milho, uns ovos, num simulacro de verdadeira troca directa, que, por aqui e por esses tempos, era bastante comum; e nunca se sabia quem ficava a ganhar com a permuta, mas isso, para o caso tanto faz.(…)
A bem dizer, as sardinheiras não caminhavam. No seu deambular eterno, mal lhes iria o comércio se praticassem o passo, ainda que apressado, dos caminheiros normais; não venderiam metade do pescado, deixando sem conduto muitos fregueses da volta. Inventaram então aquelas passadas, nervosas e rápidas, saltarilhas, que tinham tanto de marcha atlética como do caminhar da boieira assustada. O seu passo era tudo harmonia e rápida progressão, simultaneamente, azafamadas, o que fazia com que vendessem o seu peixe a tempo e horas. Peixe que não era mercado ao quilo, como hoje, mas ao cento, tendo como sub-múltiplos o meio cento e o quarteirão. Ao aviarem a freguesa, as peixeiras contavam as quantidades requeridas às mãos, sendo que cada cento comportava 25 mãos e, logicamente, o meio cento, doze mãos e duas unidades, e o quarteirão, seis mãos e uma unidade. Evitava-se assim, com esta forma de venda, o custo e o peso da balança na canastra, o que não era coisa de somenos importância para quem tão sobrecarregada andava sempre de trabalhos e de falta de dinheiro.
E como sobrava algum tempo da missão cumprida, que as sardinheiras geriam sabiamente junto de cada freguesa, havia azo ainda para se darem notícias daqui e dali, que elas recolhiam de póvoa em póvoa na sua recovagem diária. E também para comerem uma bucha de pão, quando não mesmo um caldinho apressado que alguma freguesa, sempre generosa, lhes servia numa malga. Comi­am cá fora no aido ou no pátio, sempre de pé, porém descansando a canastra no chão. Que era a única vez, seguramente, em que se podia ver uma sardinheira sem o fardo diário à cabeça.
Nas tardes compridas de Verão, ei-las que enfrentavam a canícula de peito feito, para que nunca faltasse na casa gandaresa a sardinha que pingava na broa, mormente a sardinha, repita-se, que o seu denodo e empenho na luta diária faziam chegar até nós. Atravessavam caminhos imensos de areia, pela zina do calor, carregando a canastra eterna, ao som estrídulo da cegarrega. E no Inverno, arrostavam com o frio e a chuva, brigavam com o vento de frente, ou eram empurradas como se fossem aves sem defesa. Mesmo assim, cumpriam à risca o fadário do seu roteiro, só não o fazendo quando o peixe faltava na origem. Ganhavam a sua vida nesta roda viva, e ganhavam também o estabelecimento de laços afectivos com as populações por onde passavam.
(…)A sua odisseia era bem o espelho de um povo que, em épocas não muito recuadas, esgrimia a sua tenacidade para sobreviver nas condições mais adversas.

Idalécio Cação, Gândara Antiga (relatos idênticos se encontram noutras fontes; v.g. Marinha das Ondas na história e na lenda, de Manuel Cintrão (foto))

15 de dez. de 2007

LITORAIS, 7


Saiu o nº 7 da LITORAIS, Revista de Estudos Figueirenses, publicada pela Associação Doutor Joaquim de Carvalho.
Cinco artigos sobre a Figueira da Foz, foto da capa de Maria Oliveira. Imperdível, claro.

1 de dez. de 2007

ASCOROSO


Algumas ruas da villa oferecem o aspecto ascoroso de uma immensa sentina. Não pode pessoa alguma transitar por ellas, tão repugnante é o cheiro exhalado pelas matérias impuras que as cobrem litteralmente.
Isto dá uma triste ideia da terra (...) A dois passos do rio, defronte da praça do Commercio, resolveram algumas pessoas, na falta da latrina publica, fazer, a um canto, um repositório de impuridades. Foi acertada a deliberação. Incomoda-se o publico, pode alli desenvolver-se uma epidemia qualquer que cause graves damnos à salubridade da terra, mas que importa isso? Pelo menos a Câmara julga o caso de tão pequena gravidade que não se digna ordenar a um dos seus zeladores municipaes o cumprimento de uma das suas posturas.*

Chiqueiros
Apezar das medidas rigorosas de sanidade há tempos postas em prática, mandando retirar da cidade todos os cortelhos de porcos, é certo que em pleno coração da cidade, e n’uma das ruas mais concorridas, temos verdadeiros chiqueiros, ainda mais perigosos que os dos suínos.
Percorra-se a rua do Príncipe, e ter-se-á a confirmação do que dizemos. Na valeta, junto a algumas tabernas ali estabelecidas, faz-se deposito de várias imundices e além da falta de hygiene resultante de tal prática, afigura-se-nos pouco decente para os que nos visitam, encontrar logo à entrada da cidade tal falta de limpeza.
Vassoura! Vassoura!

* Correspondência da Figueira, Julho e Setembro de 1836, cit. por Isabel Simões in Ruas e Praças da nossa terra, Revista Litorais, nº 4, Maio 2006.

24 de nov. de 2007

A LEIROSA



Refere J. P. Mano* que “A Lourosa, nome que mais tarde evolucionou para Leirosa, foi uma pequena e antiga povoação de Lavos, como tantas outras pequenas povoações da freguesia, mas esta com a característica de ter sido quase só povoada por moleiros”.
Sampaio e Lourosa tinham uma linha de separação indefinida”, razão pela qual hoje todo o conjunto toma o nome de Sampaio (Dr. Elísio de Moura, cit. Por J.P. Mano). Isto porque a Leirosa não se situa onde é hoje a povoação da praia da Leirosa, mas sim perto da chamada “vala da Leirosa”, próximo das actuais instalações da Celbi.
Topónimo que aparecia era o de Louroza dos Moinhos, por referência aos moinhos que então havia na povoação – 16, conta o notável investigador.
O registo do primeiro nascido na praia da Leirosa data de 1836 e refere-se a uma Florinda, filha de Joaquim Fontinha e de Teresa Maia. Agora, já na povoação de pescadores – oriundos de Quiaios, diz J.P.Mano, estabelecida nos areais da costa.
Entre 1843 e 1852 foram registados 20 nascimentos na Praia da Leirosa, quase metade dos neófitos eram filhos de quiaenses e vinte por cento de Ílhavo-covenses.
Em 1854 a Praia da Leirosa tinha 16 fogos, mais do que a Costa de Lavos que contava apenas 11. Trinta anos depois a Costa suplantava em muito a povoação da Praia.
A Leirosa deixou de fazer parte da freguesia de Lavos quando apareceu a freguesia da Marinha das Ondas, em 21 de Março de 1928. Foi, no dizer de J.P.Mano “a última das povoações da costa meridional da Figueira a desistir da exploração das grandes artes de arrastar para terra, lançados pelos belíssimos e inconfundíveis grandes barcos da arte”.

*J.P.Mano, Terras do Mar Salgado / A foto é de Manuel Cintrão, Marinha das Ondas, na história e na lenda

TORGA EM BUARCOS


Buarcos, 15 de Julho de 1962

EVOCAÇÃO

Havia sol na praia desse tempo…
O mar era tão jovem como nós…
Num toldo de gaivotas,
Despiam-se e vestiam-se os desejos…
No teu corpo e no meu, cristalizado,
Brilhava sem pecado
O sal dos nossos beijos…

Um barco vislumbrado na lonjura
Negava-se ao destino de ter cais;
A brisa regressava dos pinhais
A cheirar a resina;
E a música das ondas, em surdina,
Quase sentimental,
Ressoava no búzio do areal…

Depois vinha o aceno dos penedos…
Templos de imolação
Ardia neles o resto da fogueira…
E o fumo que subia do brasido
Tornava mais etérea a claridade
Que nimbava de mítico sentido
Cada parcela de realidade…