5 de ago. de 2007

A MULHER QUE...



* Tinham ido à Serra da Boa Viagem. Era uma tarde de calor. A bola do sol parecia uma brasa redonda. Estava tudo azul e oiro. O céu. Os longes do mar. O rio quieto. Na fornalha do sol candente, os corpos, as almas, as coisas ardiam. O automóvel galgava as lombas da serra. E a vida crepitava em labaredas. E dessa vez duvidou…
No topo da serra, o panorama surpreendente, fez esquecer tudo o restante. É certo que a bola do sol boiava no azul sem vinco, derramando calor. E que ao Redol, pelos montes que se esfumavam nas distancias, pelo vasto mar sem fim, pela fita de nastro do rio que serpeava entre margens dum verde moço, pelos areaes do sul que flamejavam, - era tudo azul e oiro. Mas o panorama deslumbrava as retinas. E o resto esqueceu…
Saíram do carro. Da eminência, era um assombro de belesa que se rasgava. Desceram à mata dos cedros. Era tudo quiétude e silencio. Nem viv`alm! As franças do arvoredo, baloiçavam-se com tanta doçura, que o rumo era tão brando como uma carícia. Florice, enlaçou Luisinha. No ar palpitavam azas de seda, seivas perturbantes. As mãos de Florice, subiram o busto da amiga…
- Que lindo… que lindo…
Um dos seios de Luisinha, estava na concha das suas mãos:
- Que lindo… que lindo…
Mas Luisinha desprendeu-se. Correu. E dessa vez duvidou…
* Da novela "A mulher que não gostava de homens", de RAYM. (pseudónimo de Raymundo Esteves) editado em 1936

O DESEMBARQUE


* De 1 a 3 de Agosto de 1808 (passam 200 anos daqui a um ano) desembarcaram na praia do Cabedelo (1) dez mil soldados do corpo expedicionário inglês, comandadas pelo célebre Wellington. No dia 8, juntaram-se a estes mais cinco mil homens sob o comando do general Spencer.
O desembarque foi complicado devido ao estado do mar, apesar do auxílio prestado pelos figueirenses e pela galeota dinamarquesa “Elisabeth”.
Wellington ficou hospedado na casa do pároco António de Macedo, em Lavos, onde montou o seu quartel general e onde lhe foi dada a comer - por mor da fraqueza que trazia - uma canja rica, que ficou celebrizada numa carta do general a um amigo.
Em 1932 foi colocada na dita casa a placa da imagem.
* Veja-se o arquivo de Julho de 2004 onde se insere uma carta de um soldado inglês do corpo de Wellington escrita a 8 de Agosto de 1808 a partir do acampamento de Lavos, próximo da Figueira.
(1) M. Pinto e R. Esteves referem que o desembarque ocorreu dentro do porto da Figueira.

4 de ago. de 2007

FOLCLORE PORNOGRÁFICO


É lançado hoje, na Havaneza, um fac-simile do "Folclore Pornográfico da Figueira da Foz", uma obra editada em 1914, sem identificação de editor ou tipografia.

Trata-se um conjunto de quadras, adivinhas, imprecações, superstições, costumes, adágios, contos e modismo do bom povo figueirense. O conteúdo, popular e brejeiro, de cariz desveladamente erótico, revela acima de tudo a linguagem que as gentes utilizavam para traduzir aquilo que constituía conteúdo proibido nos meios sociais castos e púdicos.

Julga-se que este "Folclore" constituiu recolha de Cardoso Marta e Augusto Pinto, pois os mesmos editaram em 1911 e 1913 um "Folclore da Figueira da Foz" em dois tomos, obras que seguem a mesma sistematização que a sua congénere "pornográfica", a qual parece ter sido amputada daquelas primeiras edições.

Aqui fica um pouco do verbo desse saboroso "Folclore" agora reeditado:


Menina da saia branca
com sua barra por baixo,
deixe ver o pintassilgo
pr`a meter o meu cartaxo.

O cartaxo quer casar,
a folosa anda saida,
e anda o pisquito de roda
p`ra lhe meter a torcida.

Vou-te rogar uma praga:
em casa te cáia um raio
que te cáia entre as pernas
e te rache o papagaio.

28 de jul. de 2007

HÁ 125 ANOS


Assinala-se, neste 2007, 125 anos da elevação da vila da Figueira da Foz do Mondego a cidade.
Em 1882 a cidade e a região conheciam um progresso de registo. Nos dez anos que precederam a elevação a cidade registaram-se um conjunto assinalável de obras demonstrativas da pujança do lugar: em 1870 foi fundada a Empresa das Minas de Carvão do Cabo Mondego que viria a dar na Companhia Mineira e Industrial do Cabo Mondego; em 1872 foi instalada a fábrica de vidro do Cabo Mondego e em 1874 a Companhia conseguiu a desejada ligação por via-férrea ao porto, através do Americano. Neste mesmo ano iniciou-se a construção do Teatro Príncipe e no ano seguinte a estrada em direcção a Leiria ( a estrada para Coimbra precedeu esta alguns anos e diminuiu em 5 horas a viagem).
Em termos económicos a vila ganhava dimensão: para além das minas e do vidro, tinham importância a extracção de pedra, a salicultura e, claro, a pesca. Esta última sustentava um sector exportador que era o das conservas, também a ganhar preponderância. Acresciam a produção de cal e cimento (com força a partir da década de 80), a cerâmica (destaque para a Manufactura Cerâmica Figueirense, a funcionar no Viso), a metalúrgica (Mota de Quadros, 1878 e Oficinas do Mondego, 1891), a construção naval e a exportação do vinho.
Um mês antes da elevação a cidade, foi aberta a linha da Beira Alta (1882) e em 1888 chegou a Linha do Oeste. De 1884 data o teatro Circo Saraiva de Carvalho, a adjudicação da água (1886) e a iluminação a gás (1889). O mercado em 1892. Em 93 nasceu a Naval 1º de Maio e foi criada a Escola Industrial, em 94 o Museu, em 95 o Ginásio e o Coliseu e em 98 o edifício dos Paços do Concelho e o Casino Oceano. É caso para dizer que os últimos 30 anos do século XIX, que assistiram ao nascimento da cidade, são fecundos em realizações, embora do ponto de vista social se conheçam períodos de grande fome (1876, 1878 e 1893). É sabido que a partir da década de 90 o comércio exportador caiu de forma abrupta. Em Fevereiro de 1900 um texto na Gazeta da Figueira referia que “A Figueira não tem comércio, não tem indústria, não tem agricultura, isto é, presentemente, só a época balnear e o comércio do bacalhau são os seus principais factores de vida” (1)
Em 1878 a Figueira tinha 1080 fogos e 5676 habitantes e Buarcos 800 fogos e 3182 habitantes. Em 1886 assinalavam-se 6 hotéis.

Em Janeiro de 1883 na revista O Ocidente escrevia-se: (2)
A Figueira é das povoações de Portugal que nos últimos tempos mais se tem desenvolvido (…). Ainda nos princípios deste século passado, era apenas uma aldeia com 300 habitantes e pouco mais desenvolvimento tinha, quando em 1771 El-Rei D.José a elevou à categoria de vila.
(…) Hoje, a Figueira é uma cidade que está crescendo a olhos vistos, organizando companhias edificadoras que têm aumentado consideravelmente o número de edificações, ascendendo já a não menos de 1600 fogos, com cerca de 6000 habitantes.
Possui edifícios notáveis, incluindo um magnífico teatro e seu porto está defendido por uma doca de construção recente (…)
O seu aspecto é alegre e festivo e de um delicioso pitoresco, a par do seu belo clima.
Este conjunto de atractivos, chama um grande número de banhistas, na estação própria, às suas magníficas praias.
O seu comércio é importante, para o que lhe basta ter um magnífico porto de mar por onde se exporta grande quantidade de sal, azeite, vinhos e cereais, etc.
Agora o caminho-de-ferro da Beira Alta vai dar-lhe mais elementos de vida e desenvolvimento assegurando um futuro próspero a esta boa terra.”
(1) Cit. por Cascão, Rui, Figueira da Foz e Buarcos, Figueira da Foz, 1998
(2) Cit. por Jardim, José, As grandes linhas de uma cidade, Figueira da Foz, 1947

BENTO JOSÉ DA SILVA, 1º JUIZ DE FORA

Elevada a vila por decreto de 12 de Março de 1771, a Figueira da Foz teve como primeiro Juiz de Fora, Bento José da Silva que tomou posse em 30 de Julho.
Bento José da Silva nasceu em Coimbra em 1736 e tencionava seguir a carreira eclesiástica, da qual, entretanto, desistiu. Tomou posse na Figueira, pois a Câmara só em 1773 se mudaria de Tavarede para a novel vila (1).
A criação dos Juízes de Fora remonta ao princípio do século XIV e constituiu uma medida centralista, porquanto estes oficiais eram nomeados pelo rei e representavam a coroa. A sua designação está relacionada, justamente, com o facto de serem de fora, isto é, estranhos aos concelhos onde oficiavam; a razão desta qualidade reside no entendimento de que os de dentro não teriam a independência necessária para administrar a justiça (Manuel Fernandes Tomaz foi Juiz de Fora em Arganil)
Bento José da Silva teve tarefa difícil pois caiu no meio do braço de ferro entre o Cabido da Sé de Coimbra e a poderosa família Quadros.
O primeiro Juiz de Fora da, então, vila da Figueira da Foz casou na Qtª do Canal com D. Caetana Ifigénia de Salazar Vasconcelos da Silva e Crato, mais nova vinte anos que seu marido. A família possuía linhagem no oficio da magistratura de Alfandega e de Fora. A sua mãe e suas sete tias eram conhecidas como “as senhoras alfandegas”.
(1) De acordo com João P. Mano, in Litorais, nº 3, Nov. 2005

27 de jul. de 2007

A ALFANDEGA


É corrente atribuir-se à Alfandega nacional a idade da nação; na Figueira, os serviços de Alfandega instalaram-se em 1707. Contam por isso 300 anos. Dizia um velho regulamento que a Alfandega estava onde houvesse “portos secos, molhados e vedados”.
A etimologia da palavra provém do árabe e remete para um lugar de grande movimento, barulho e azáfama. Coincidem, por isso, as alfandegas, com o desenvolvimento do comércio. Assim foi entre nós.
A Casa do paço tinha começado a construir-se no início do século e poucos anos depois reedificava-se a igreja matriz. A Figueira tinha pouco mais de 700 habitantes e estava ainda a alguns nos de ser vila, mas no final da década de 50 já se reclamava esta pretensão. A burguesia ganhava preponderância social.
A Alfandega contribuía para as receitas da Câmara e em alguns anos, já no final do século, o seu contributo chegava a 50% daquele montante, sabendo-se, no entanto, que o seu contributo era um montante fixo. “A alfandega era um foco de poder com maior protagonismo do que propriamente a Câmara e esse fazia-se sentir a nível tanto económico como social”. Os habitantes “estavam muito mais dependentes da justiça exercida pelo juiz da alfandega do que pelo juiz de fora, porque pelo primeiro passavam as principais determinações sobre as suas actividades”.(*)

(*) Citações retiradas de Oliveira, Isabel, A Figueira da Foz de 1771 a 1790: poder e quotidiano municipal, 2005, ed. da C.M.F.F.


13 de ago. de 2005

O TEATRO DE AMADORES NA FIGUEIRA



Tida como terra onde o teatro amador muito se desenvolveu, a Figueira, tal como as outras terras, dava espaço ao teatro religioso e ao drama social.
Os Autos Pastoris ou Presépios cumpriam os valores da religiosidade popular. Estes remontam ao século XVIII mas perderam importância ao fim de algumas décadas, ressurgindo nos finais do séc. XIX. Nesta altura, no entanto, o carácter profano foi-se introduzindo nos Autos, aparecendo além das cenas clássicas de nascimento e adoração ao menino, novas cenas, adaptadas à realidade social local – um panfleto anuncia em 1920, na Philarmónica 10 de Agosto a “representação da tradicional e aparatosa peça phantástica OS REIS MAGOS e acrescenta “ e algumas engraçadas scenas dos Autos Pastoris”.

De acordo com Rui Cascão os Autos tinham uma função gastronómica onde cada espectador se apresentava “com a competente garrafa de vinho e respectivos nacos de torta doce e filhós”. A entrada no século XX apagou a tradição dos Autos que em 1909 já só se representavam na sede do Rancho do Vapor (em 1908 o Theatro Príncipe estreava a comédia “Fazer fogo com pólvora alheia”).

Com os ideais republicanos aparece o drama social, representado nos teatros operários, como o muito popular Teatro do Pinhal que albergava o Grupo Dramático Recreio Operário. As peças exibiam títulos como “O Veterano da Liberdade”, “A Ceia dos Pobres”, “André, o Fabricante”, “Gaspar, o Serralheiro” (esta, ainda há pouco levada a cena por um grupo amador nas Jornadas de Teatro de Amadores) e “Leonardo, o Pescador”. Em Buarcos e após a sua fundação (em 1907), o Grupo Caras Direitas era um esteio deste tipo de teatro. O Teatro Taborda, de Brenha, inaugurado em 1897 estreou-se com o drama “O 8 de Maio” de César de Sá, um autor local e o Teatro Trindade (então chamado Teatro do Celeiro) abriu em 1910 estreando “O Moleiro de Alcalá” (uma zarzuela) e o drama “A Pátria” pelo Grupo Philantrópico Instrução e Recreio. A Sociedade de Instrução Tavaredense inaugurou-se em 1904 com 3 comédias, cada uma em um acto.

Entretanto, nas sociedades recreativas burguesas, como a Assembleia Figueirense, o Ginásio Club Figueirense e o Grupo Dramático Figueirense, abrilhantavam-se operetas e comédias, muitas delas de autores locais.

29 de jul. de 2005

JOAQUIM ANTÓNIO SIMÕES





Nascido na freguesia da Abrunheira (1817-1905), Joaquim António Simões herdou posses dos seus pais e de um irmão. Desenvolveu, no entanto, actividades bem sucedidas no comércio exportador e deve ter sido o mais notável dos comerciantes figueirenses.

Exportou para o Brasil e outras paragens, Vinho do Porto, espumantes da Bairrada, geropigas, aguardentes e um licoroso de fabrico próprio, que se assemelhava ao Madeira; mais tarde canalizou os seus negócios para as ex-colónias de Angola e Moçambique.

Rezam as crónicas que os seus armazéns (em número de 14, localizados onde é hoje o Palácio da Justiça) eram dos maiores do país e que foram montados por operários de Bordéus. Empregava, na sua tanoaria privativa, nos momentos de maior trabalho, cerca de oitenta operários e utilizava “as mais modernas e apuradas machinas”. Os seus produtos foram medalhados em Filadélfia, Paris e Cidade do Cabo.

Joaquim António Simões foi membro do Partido Progressista e foi ministro de D. Maria em 1848.
A ele se ficou a dever a construção do Teatro Circo Saraiva de Carvalho (concluído em 1885), que viria a dar origem ao actual casino (foi o principal accionista da Sociedade Teatro-Circo Saraiva de Carvalho), e foi o grande impulsionador da construção do ramal ferroviário da Beira Alta (1882). Também se deve à sua influência a construção da primeira ponte sobre o Mondego (1906).

Vejam o post "As pontes da Figueira" de Agosto de 2004.

25 de jul. de 2005

A CASA DO PAÇO




Em 1701 iniciava-se construção da nova igreja matriz. Eram tempos difíceis pois o povo pediu ao Rei que os dízimos entregues ao Cabido da Sé ficassem aqui, para ajudar à construção do templo. Esta deverá ter sido também a razão pela qual se interromperam, nesta altura, as obras de reconstrução das fortalezas de Buarcos e da Figueira, que se realizavam por alvará de D. Pedro II.

Em 1704 morria o bispo-conde D. João de Melo – 49º Bispo de Coimbra e 14º Conde de Arganil, nascido na Figueira da Foz em 1620 - a quem se atribui a construção da Casa do Paço, iniciada em 1700. Refere o investigador Arnaldo Soledade que o bispo mandou erigir a Casa “por sentir na carne os efeitos estivais da velha Coimbra”.

Na verdade, o bispo não devia andar bem pois não sobreviveu para ver a edificação completa. Tudo indica que a Casa nunca foi concluída, face ao projecto inicial, pois falta-lhe o torreão poente.

A razão da atribuição da Casa a D. João de Melo prende-se com a similitude da sua fachada principal com a fachada norte do Convento de Stª Isabel. Os torreões também são iguais, têm as mesmas proporções e igual coroamento.

A Casa foi deixada pelo Bispo-Conde ao seu sobrinho D. António José de Melo, cujos descendentes foram condes da Figueira. Já foi hospedaria, sede da Assembleia Figueirense, colégio, ginásio, museu municipal e local de instrução militar.

24 de jul. de 2005

A GRANDE EPIDEMIA E O CRUZEIRO



Quando o general Massena passou a fronteira com um exército de 60 mil homens, as populações das aldeias limítrofes acorreram à cidade em busca de protecção. A grande aglomeração de famílias em condições de pouca higiene gerou uma epidemia que provocou forte mortandade (mais de 5 mil mortes), tendo atacado também os “soldados da Brigada”.

O número de mortes obrigou a Câmara de então a abrir novo cemitério, pois o adro da igreja matriz mostrava-se insuficiente. A decisão teve lugar a 24 de Janeiro de 1810 e reza assim uma passagem:

“(…)Se não deviam enterrar no centro da povoação onde está a egreja e o seu adro, e por conseguinte se devia estabelecer um logar mais remoto e separada para que os mesmos se sepultassem com segurança do público (…) e assentaram que o sitio mais adequado (…) fosse a Cerca do Convento de Santo António”.

Com a batalha do Bussaco e tendo as Brigadas deixado a Figueira da Foz, as gentes refugiaram-se nos arredores, pelos pinhais e montes.
Em Outubro, Massena mandou Montbrun à Figueira para saquear os armazéns da terra que se julgavam bem abastecidos, mas os franceses encontraram-nos vazios.

Com a saída dos franceses do território nacional começou a chegar à Figueira forte apoio em alimentos que eram distribuídos para outras paragens.

Todos dizem que a foz de Figueira do nosso Mondego está coalhada de Hyates e outras embarcações de transportes”.

Para assinalar estes acontecimentos foi erigido em 1912 um cruzeiro, em cuja base um texto dá conhecimento destes factos e que se encontra agora na rua Heróis do Ultramar.


Nota: O monumento está completamente abandonado mais parecendo uma lixeira; falta, no seu exterior, uma explicação alusiva aos factos históricos que lhe deram origem.

22 de jul. de 2005

AS ESCOLAS NA FIGUEIRA DA FOZ



Em 1779 a Rainha D. Maria, mulher dada aos assuntos da educação, criou uma Aula de Gramática Latina e mais tarde uma escola de ler, escrever e contar entregue aos frades do Convento de Stº António.

Quase um século depois foi criada uma Aula de Desenho Industrial (1888) sendo estabelecida em 1889 a Escola Industrial. Dois anos depois esta escola “caía” mas Bernardino Machado, em 1893, havia de a reabilitar. Esta escola leccionava Desenho Geral e Industrial, Língua Francesa e o Curso Elementar do Comércio.

Em 1910 foi fundado o Colégio Figueirense por José Luiz Mendes Pinheiro que mais tarde (1936) o doou ao episcopado de Coimbra. Viria a ser o Seminário da Figueira da Foz.

Em 1914, já na República, foi criado o Jardim Escola João de Deus, sito no Bairro do Pinhal, obra levada a cabo pela Misericórdia.

Em 1922 nasceu a Academia Figueirense, um externato para rapazes onde era ministrado o curso primário e o curso liceal.

Em 1932 foi criado o Liceu Municipal Bissaya Barreto que funcionava onde era, até há pouco tempo, o terminal rodoviário.

Em 1949 apareceu o Colégio de Stª Catarina, para raparigas.

Em 1961 o Liceu Municipal passaria a Nacional, em 1969 mudou-se para as actuais instalações e em 1978 tomou o nome de Joaquim de Carvalho.

Em 1986 foi criada a Escola Cristina Torres e depois desta surgiram já as escolas Pedrosa Veríssimo, no Paião, a Escola Pintor Mário Augusto, nas Alhadas e a Infante D. Pedro em Buarcos.

7 de jul. de 2005

OS MERCADOS DA FIGUEIRA E O JARDIM (1770-1892)



O primeiro mercado da Figueira da Foz começou a funcionar por volta de 1770 no local onde é hoje a Praça Velha. Ao tempo, a praça era uma enseada do rio designada Praia da Ribeira e servia de estaleiro. O mercado funcionava na zona onde hoje se encontra o pelourinho.

Em 1772 a Câmara mandou aterrar a enseada tendo os trabalhos ficado concluídos em 1784. A zona aterrada deu então lugar à designada Praça do Comércio, a qual passou a ser o coração da vila.

O local onde hoje se encontra o Jardim Municipal era igualmente uma enseada do rio (a mais profunda) chamada Praia da Fonte que servia de doca para conserto de embarcações. Em frente havia uma doca para fundeadouro e descarga e toda a frente ribeirinha, dali até ao forte, era zona de armazéns e oficinas: Forjas, serralharias, casa de arreios, carpintarias e cantarias, entre outras.

Aterrada a Praia da Fonte nasceu em 1881 o Jardim Municipal. Tinha uma zona ajardinada, um lago de dimensões razoáveis e um coreto. Curiosamente, o lago ficava no local que viria a ser depois o coreto, ou seja, mesmo em frente ao mercado (V. imagem).

A Câmara de Francisco Lopes Guimarães deliberou em 1890 construir o mercado, tendo escolhido uma proposta da Companhia Progresso Figueirense de Guilherme Mesquita.
O mercado foi inaugurado oficialmente em Junho de 1892.

4 de jul. de 2005

MATCHS DE DOMINGO

Uma delícia esta prosa desportiva encontrada na GAZETA DA FIGUEIRA de 1 de Fevereiro de 1911.

No passado domingo jogaram no campo do Gymnasio, na Morraceira , o 1º e 2º team deste club, e os teams da A. Naval e A. dos Caixeiros.
Ao meio dia jogaram os teams da Naval e dos Caixeiros, ficando o jogo empatado por 0 goals a 0, apezar da boa vontade de uns e d`outros. Há pouco a notar neste match: muita parede dos dois campos (parece que aprenderam agora este modo de defeza); bons shots de um dos backs da Naval e de outro dos Caixeiros; Gouveia, que jogou bem, e que foi ajudado pelos seus insides; Paulo de Carvalho que defendeu bem e … nada mais.
Pouco tempo depois realizou-se um treino entre os dois teams do Gymnasio. No segundo team há alguns players com aptidão para o jogo, e que, como primeiro treino, jogaram menos mal. A. Marques, back direito d`este team, tem um bom shot e fez boas defezas.
Pelas duas horas jogaram os primeiros teams do G. e do A. Dos C. marcando o G. 1 goal contra 0.
A chuva, que começou a cahir com mais abundância, prejudicou muito o jogo dos players, principalmente dos do G. que tinham o vento contra. Os Caixeiros pouco tiveram que defender, pois que o vento rijo que soprava se encarregava de defender o seu goal. José Bento, keeper do G. trabalhou muito e se assim não fosse o G. veria entrar algumas bolas pelo seu goal.
Os players do Gymnasio estavam desastrosos. De quando em quando falhavam shots, até aos que os teem mais firmes. Mas apesar disso, da sua pouca sorte, todos trabalharam com vontade, notando-se Dr. Rainha, nas suas bellas defezas, os forwards que, vamos lá, não andaram mal, F. das Neves e M. Gaspar, halfs, que defenderam bem e José Bento, que como já dissemos se portou como mestre.
Os backs estavam um pouco fracos, o que não admira pois tinham constantemente que defender.

21 de mai. de 2005

A PRAÇA VELHA EM FINAIS DO SÉCULO XIX



(...) Nos finais do século XIX surge-nos a zona mais antiga da praça toda calcetada com árvores junto das ruas laterais e bancos nos intervalos; a zona central da praça apresenta larga faixa empedrada a basalto e no centro uma grande circunferência limitando uma estrela que contem no meio um pequeno círculo com data de 1879 o que nos sugere que o calcetamento tenha sido feito em igual data. Junto aos prédios surgem-nos alguns passeios de cantaria e em dois deles rebatos altos, moldados, que serviriam para impedir a entrada das águas aquando das marés; no topo norte o pelourinho. A zona sul da praça era ainda mais simples consistindo num terreno central alongado até ao cais, em macadame mal cilindrado, orlado de árvores e bancos com duas ruas laterais e passeios estreitos, calcetados.
Foi num prédio desta praça que nasceu o nosso conterrâneo General Freire de Andrade quando o seu pai se encontrava ao serviço das obras do porto.
(…) Ao contrário do habitual não eram a farmácia ou a barbearia os locais mais procurados para cavaqueira desses tempos mas sim o Estanco Real, estabelecimento que tinha o privilégio da venda de tabacos. Era ali que todas as noites, em agradável e ranço convívio, se juntavam as pessoas gradas locais.
Tratava-se de um estabelecimento amplo. Bastante fundo, dividido a meio por um balcão com paredes escuras e forradas até meia altura; do lado de fora situavam-se bancos compridos de madeira de pinho, e a luz, em virtude não haver janelas, apenas penetrava pela porta frontal (...)
Retirado do Dr. Santos Rocha, Materiais...

MOUROS EM BUARCOS



Esta noute de domingo pêra a segunda feira tratarão duas lanchas de mouros de entrar na villa de Buarcos e por ia (já) estar gente metida dentro se lhes fés resistência e se forão vindo acodir um Capitao mor a esta hora que são doze do dia forão vistas cincoenta e tantas vellas e da vella que fiqua no monte alto (Vela, na Serra da Boa Viagem) me avisao que se vista de mais não passando na derrota para essa cidade e por que sendo de inimigos como se presume se podem ir detendo humas por outras aviso a V. magestade e nesta costa de tratar com muito cuidado posto que he terra sem defesa como mais largamente darei conta a vossa Magestade Cuia Catholica pessoa deus guarde nesta costa de Buarcos 29 de Julho 1630
Dioguo Martins coelho

8 de mai. de 2005

A TOMADA DO FORTE DE STª CATARINA



O sargento de artilharia Bernardo António Zagalo saiu de Coimbra à frente de uma força de 40 voluntários, 25 dos quais estudantes.
Pelo caminho os sitiados foram arrebanhando homens para a sua causa, fazendo aclamações e repicando sinos.
Às sete da manhã o batalhão entrou na Figueira e compunha-se então de perto de 3000 homens armados com lanças, piques e foices.

Os franceses, que há 7 meses ocupavam o forte e a cidade estavam desprevenidos. Diz Zagalo:
“Vendo porem, que o povo sem refletir no perigo se adeantava demais, corri à sua frente e o fiz retirar: nessa ocasião dispararão os franceses alguma mosquetearia e huma peça de artilharia sobre nós; mas tendo observado os seus movimentos deitámo-nos e moa ferirão uma única pessoa. Como o cerco estava formalmente lançado e a comunicação como Cabedelo inteiramente cortada intime aos franceses quese rendessem pois sabia que não tinhao mantimentos ara aquele dia, aliás seria passados à espada. O comandante respondeu que era um tenente engenheiro portuguez e que não podia render-se por causa do perigo em que ficava a sua família que tinha em Peniche em poder dos franceses; em razão disto continuou o cerco e quando se estavao para render à descrição de hora a hora recebi no dia 27 (Junho de 1808) ordem do governador de Coimbra para me retirar imediatamente para aquela cidade”.

O povo entretanto entrou pelo forte e com ele as autoridades – major de Buarcos, juízes de Fora da Figueira e Tentugal – e desarmaram os franceses.
Nota: Sobre este assunto veja os posts "Valorize-se o Forte de Stª Catarina" e "Os ingleses na Figueira", ambos de Julho de 2004

FIGUEIRA VILA - MARÇO DE 1771



Hey por bem erigir villa o lugar da Figueira da Fós do Mondego e crear nella o lugar de juis de Fora, Crime e orfaons que terá por destricto os coutos de Mayorca, das Alhadas, Quiajos, TAvarede, LAvos e e az villas de Buarcos e redondos e os ocnselhos e cituações a sul do rio chamado de Carnide ou do Louriçal desde onde principia o destricto da Ouvedoria de pombal ate o Moinho de Almoxarife que tudo hey por desmembrado do destricto de Monte Mor o velho a quem ate agora pertenci e outrossim hey por bem nomear para o logar de juis de Fora o bacharel Bento Joze da Silva o qual fazendo a meu contento a dita creação se haverá o dito logar por cabeça de comarca depois de me servir três annos e os mais que decorrerem emquanto lhe não nomear successor.
Palácio de Nossa Senhora de Ajuda em 12 de Março de 1771

19 de abr. de 2005

FORTIM DE PALHEIROS




Conheceu vários nomes: Fortim da Praia, Fortim do Centro, Reduto Central da Praia; Há quem assegure que se deve a D. Miguel a construção deste reduto de defesa da costa mas não é líquida esta opinião, pois outros encontram-no feito antes das guerras liberais.

O Fortim, que era composto por uma bateria semi-circular, possuia dez bocas de fogo, muralha e parapeitos e ainda uma casa da guarda;contribuia para a defesa da enseada da Figueira a par do Forte de Stª Catarina e do Forte de Buarcos. A sua acção era conjugada com o apoio da infantaria e da cavalaria impedindo eventuais desembarques.
Em 1909 o rei D. Manuel vendeu o fortim em hasta pública tendo-o adquirido Joaquim Sotto Maior pela quantia de quinhentos mil e cem reis.

Foi por duas vezes consagrado como imóvel classificado de interesse público mas tal não o afastou do abandono e do esquecimento.A construção da urbanização da Mata do Sotto Mayor deu o golpe final ao monumento. Restam as pedras que se vêem na imagem.

12 de abr. de 2005

O ESTADO DA NAÇÃO SEGUNDO FERNANDES THOMAS




"O senhor Fernandes Thomaz concluio a leitura do Relatorio ácerca do Estado Publico de Portugal, que se mandou dar ao prelo, e he do theor seguinte:
RELATORIO.
Semhores = O dia 1.º de Outubro do anno de 1820, reunindo em hum só os Governos Provisorios do Porto e de Lisboa, marca em Portugal a epocha para sempre memoravel, de huma nova administração publica, encarregada á Junta Provisional. Como participante de seus honrosos trabalhos, e como orgão della na Repartição do Interior, e da Fazenda, cabe-me em sorte a obrigação de indicar-vos sua conducta, na difficultosa tarefa de que foi incumbida - Lançarei ao mesmo tempo para vossa informação huma vista rapida sobre o estado do reyno, nestes dous interessantissimos objectos; e eu me consideraria feliz se pudesse fazer, tão dignamente como devo a Vós, e á Nação que representais, esta breve mas franca exposição, para a qual he indispensavel que eu chame a vossa attenção.
As causas, que produzirão nossa revolução venturosa, não são desconhecidas de hum só de nossos concidadãos, porque cada hum, na parte que lhe tocava, sentia sobre si o peso enorme das desgraças que affligião Portugal; e nenhum deixa hoje de estar convencido de que era chegado o ultimo instante da existencia politica desta infeliz Patria, se o braço do Omnipotente, confundindo projectos insensatos, não arrancasse das bordas do abysmo tão precioso deposito, para o entregar á vossa guarda, e vigilancia.
Males de toda a ordem se experimentão em todos os ramos da economia particular do Estado, porque a ignorancia, e a immoralidade tudo tinhão contaminado, corrompido tudo. Erros de seculos, e que por seculos havião adquirido a força, e o imperio dos habitos, não podião emendar-se em tres mezes. - A corrupção espalhada por todo o corpo politico não podia debellar-se completamente tem remedios lentos e geraes, porque o veneno atacára ao mesmo tempo toda a massa do sangue, e todo o systema vital.
Assim o Governo, meramente Provisorio desde sua creação, e desde ella tambem pouco poderoso, pela certeza de sua curta duração, não podia obrar com aquella energia que pedem as reformas; e muito mais porque a cada passo se via obrigado a desviar-se das vagas encapelladas das facções, mais impetuosas ainda no meio dos embates de huma revolução começada. - Limitava-se por tanto a pouco mais do que á emenda dos abusos; porque as providencias de universal influencia sobre a sorte da Nação ficavão fóra do seu alcance. Vereis por tanto nesta parte, Senhores, mais o que vos ficou para fazer, do que aquillo que o Governo fez.

RESPOSTA AO ULTIMATUM INGLÊS




Manifesto aprovado pela Associação Comercial aquando do ultimato inglês

“…) tendo em vista:
(…) Que o procedimento violento que usou para com Portugal é incoerente e indigno duma nação civilizada; porque quando a ciência, a diplomacia mais avançada e o sentir geral dos povos cultos procuram substituir à força o direito, à guerra brutal a arbitragem, a Inglaterra que, já do congresso de Paris de 1856, aderira ao protocolo, nº 23, ao voto das potências que nele intervieram de, em qualquer pendência entre os estados, se recorrer a uma potência amiga, antes de usar da força pratica o contrário, preferindo vencer-nos pelo terror e pela imposição da força bruta, a convencer-nos em discussão pacífica e honrosa da legitimidade das suas pretensões o mundo civilizado; (…)

Aderir à liga patriótica, tomando parte no movimento geral do país para os fins que forem convenientemente regulados, abrindo subscrição entre os comerciantes, industriais e proprietários do concelho, cujo produto fará parte da grande subscrição nacional.


A subscrição referida destinou-se à compra de armamento e rendeu 864$710 reis.