13 de abr. de 2009

OS ESTRAGOS DO MAR


N`estas circunstancias surgira uma nova e imperiosa necessidade — a da defeza contra o mar; e as camaras, instadas então pelos clamores dos habitantes das duas villas, viram-se obrigadas a pedirem outra vez a continuação das muralhas, juntando ao seu pedido não só a copia do alvará que em 1718 fora exigida pelo governador da província, mas ainda a do Mandado que fora dirigido ao provedor da co-marca de Coimbra acerca dos rendimentos do real d'agua applicados aquella obra.
A exposição que ellas fizeram dos males que causava o mar merece ser aqui transcripta.. «E porque, diz a petição, de se não terem continuado as obras da dita fortificação ate se acabarem, como convinha, tem resultado as ditas villas e seus habitadores grande e consideravel damno na perda de muitas casas, que se tem arruinado com o impulso do mar que nas occasioes de maior tempestade Ihe entra por aquella parte aonde se não estendem as muralhas que se chegaram a fazer e ate estas estão humas arruinadas, como sao as do forte de Santa Catharina junto a Barra, outras ameaçando ruina, de forma que a ultima cortina das que fortificam as ditas villas se acha com uma grande rotura aberta agora de novo no principio d'este inverno pelo im­pulso do mesmo mar, que esta continuamente combatendo as ditas muralhas...»
D'aqui se ve que ao tempo da petição já Buarcos sofria d'essas catastrophes que nos ainda há pouco presenciamos na povoação da Praia, e que o remédio que então se pro-curava dar-lhes era a construcção de uma obra defensiva, a semelhança da que o governo ultimamente mandou levan-tar n'aquella povoacão.
Também se deduz do exposto que a linha de fortificações de Buarcos, começada no tempo de Joao 4.º, se estendia ate a barra da Figueira, comprehendendo assim o forte de Sancta Catharina.

Santos Rocha, Materiaes para a História da Figueira nos séculos XVII e XVIII

23 de fev. de 2009

A CENSURA AO MAR ALTO

ARQUIVO E PAPÉIS DE JOAQUIM BARROS DE SOUSA (5). A CENSURA AO JORNAL MAR ALTO (1967-1974). 3

OBRIGADO, SALAZAR!


A NOVA BARRA DA FIGUEIRA



Há 150 anos era inaugurada a nova barra da Figueira da Foz. Sem grande sucesso, uma vez que três anos depois a barra voltaria a assorear. O Eng. Adolpho Loureiro descrevia assim o estado da foz, antes das obras:

A grandíssima diminuição da capacidade dos receptáculos interiores, já pelos assoreamentos e depósitos, já pela construção de diques vedando os terrenos ao acesso das aguas salgadas, e a rápida e progressiva obstrução do alveo do Mondego e dos seus afluentes, tanto pelos sedimentos e aluviões fluviais, quanto pelos marítimos, em breve começaram a ter por consequência o assoreamento do porto, a instabilidade e pequena profundidade do canal da barra, e a formação do banco exterior da foz do Mondego, muito próximo da costa” (1)

As obras traduziram-se num “paredão de 1200 metros de comprimento, assentado em funda estacaria”. Das rochas da praia do forte, fez-se cal, que serviu ao empreendimento e “cobriu-se esta praia de elevados aterros, defendidos do mar por grossos muros". Assim se conseguiu proteger “algumas povoações e muitas marinhas importantes” (a sul). (2)
As obras foram supervisionadas pelo Eng. Francisco Maria Pereira da Silva.

Mais tarde. já em 1929, teve que se proceder a obras de vulto no molhe sul e aproveitou-se o ensejo para construir a doca dos bacalhoeiros e aquele que ainda é o cais acostável da margem norte.
Em 1959 anunciavam-se novas obras…

(1) Adolpho Loureiro, Memórias sobre o porto e a barra da Figueira e as obras para o seu melhoramento, 1882.
(2) Filipe Simões, Cartas à Beira-Mar, cit. Por M. Pinto e R. Esteves em Aspectos da Figueira da Foz, 1945.

21 de fev. de 2009

BUARCOS PARA OS VIAJANTES (1917)



Pertenceu ao couto de Tavarede que foi villa muito importante nos séculos idos; e teve tambem foros de villa, do dominio e jurisdicçao do duque do Cadaval a quem pertencia tambem a barca de passagem da Figueira para o Cabedello. A antiga alfandega da Figueira, apesar de construida pouco mais ou menos no logar da actual, era designada nos seculos XV a XVII por Alfandega de Buarcos, havendo tam­bem documentos que lhe chamam Alfandega de Tavarede, a cujo couto a villa pertencia, como fica dito.
No tempo de Filippe II, quando este veio em perseguiçao de D. Antonio, Prior do Crato, as tropas filippinas invadiram Buarcos, relatando a historia os prejuizos que os invasores causaram, sobretudo no convento de Santo Antonio, que datava de 1527; assim como da historia consta tambem que em 1602, foi a antiga villa saqueada e destruida pelos piratas inglezes, que ali aportaram e desembarcaram, tendo trazido uma frota de 7 navios.
Foi sempre povoaçao muito dada a pesca, e ja em 1871, segundo o respectivo censo, contava 2.206 habitantes, na sua maior parte da classe piscatoria, o que ainda hoje sucede, não obstante ter crescido o numero d'almas e de fogos com o desenvolvimento adquirido, e as novas e algumas bem elegantes construções veraniegas, etc. Pelo censo de 1900 ja contava 5033 habitantes.
A Buarcos afluem por vezes grande numero de barcos dos pescadores do norte, que, acossados pelos temporaes, e não podendo entrar na Figueira, pro-curam varar na praia do Buarcos, que lhes offerece o melhor abrigo facilitado pela sua enseada.
Os barcos que veem do largo e pretendem recolher-se ali, teem de transpor as restingas e rochedos da costa, que deixam entre si canaes, ou carreiros, na propria phrase dos Pescadores, dos quaes os mais seguidos por esses barcos sao os chamados Carreiro Grande e Carreiro Pequeno. Com toda a sua pericia de experimentados, os Pescadores conduzem os seus barcos pelos estreitos canaes em referencia, sem tocar nas rochas onde se despedaçariam. Ao sahir, po­rém d'esses estreitos, e ao entrar no porto, recebem de proa uma forte corrente lateral, em consequência das vagas que se propagam pelos outros carreiros com desegual velocidade, de modo que so manobras muito habeis e felizes evitam que os barcos se voltem e pereçam os seus esforçados tripulantes. Quando o mar se acha encapellado e o temporal e rijo, dao-se alguns sinistros, contando-se sempre victimas, e dando-se na costa as scenas pungentes que podem imaginar-se,
Para se fazer uma ideia da importância do porto de Buarcos, diremos que só nos trez annos de 1868-69, 1869-70 e 1870-71, o valor da pesca realisada foi de 192:83O$023 reis, na moeda do tempo, tendo o respe-ctivo imposto rendido para o Estado 11:529S533 reis.
Nas praias limitrophes da de Buarcos, como sejam Quiaios, Palheiros, Cova de Lavos e Leirosa, havia en tao 28 grandes artes de pesca, 698 redes diversas, 540 apparelhos de anzol, 29 barcos grandes, 27 medianos e 48 mais pequenos, com 1143 Pescadores de profis-sao e 232 adventicios. D'ali se exportava ja peixe, em grande quantidade, para toda a parte', levando só o caminho de ferro de Hespanha e Alemtejo 600 toneladas.
(…)na sua Chorographia Moderna diz-nos João Maria Batista, que a antiga villa de Buarcos foi fundada por gentes da Galliza, que encontrando n`aquela costa abundância de pescaria, ali fizeram construir diversas cabanas de buinhos (espécie de junco) e arcos, e que d`esta circumstancia derivou o nome da povoação.

Figueira da Foz e arredores, indicações gerais para uso dos viajantes, Sociedade da Propaganda de Portugal,1917

1 de jan. de 2009

ANO NOVO

«...Ano Novo! Ei-lo aí...Benvindo seja!
Ano Bom, de ventura e de bonança» -
E em nossas almas, rútila, flameja
a luz imarcessível da esperança.

«Foi mau o que passou: lutas e dores.
Mas, no que vem, dos dias através,
-pensamos todos - ha-de ser de flores
o caminho que trilhem nossos pés!»

..............
E enquanto os anos vão correndo assim,
andamos neste louco movimento:
a bendizê-los pelo seu advento
... e a maldizê-los qundo estão no fim...

Campos Monteiro

Publicado in O Figueirense, 1 de Janeiro de 1948

11 de dez. de 2008

CAPITÃO FERREIRA E JOÃO COSTA



Os últimos que deslizaram nas carreiras foram, em 20 de Dezembro, os navios-motores bacalhoeiros “Capitão Ferreira” e “João Costa”, construídos nos Estaleiros Navais do Mondego para a Atlântica Companhia Portuguesa de Pesca, Ldª e para a Sociedade de Pesca Luso-Brasileira, Ldª. Deviam ter sido lançados à água na véspera, deslizar nas respectivas corredoras, por entre ambiente festivo dos outros navios a apitarem, aplausos de multidão, agitar frenético de boinas dos operários que com muita competência e dedicação, os construíram e fizeram, desde a quilha aos topes dos mastros, por entre acordes o Hino Nacional.
Assim devia ter sido.
Sucedeu, porém, que o temporal reinante em todo o país e que particularmente se fez sentir na Figueira da Foz, impediu que o lançamento à água se fizesse na data marcado.
(…) Estando tudo preparado para o lançamento à água dos dois navios, e sob a responsabilidade do mestre construtor Benjamim Mónica, estes desceram às águas do Mondego, enquanto o Sudoeste passava em rajadas que atingiam velocidades superiores a 100 quilómetros e a chuva caía em bátegas sucessivas.
(…) Mestre Benjamim Mónica, assistido pelos seus contra-mestres e operários e por seu irmão Manuel Maria Mónica, de Aveiro, tomou a responsabilidade de que o lançamento se faria. Na hora marcada os barcos desceriam sem novidade. Nem chuva, nem vento o impediriam se Deus quisesse e nossa senhora da Boa Viagem estivessem por ele e com ele.
(…) Escutaram-se toques de sereias, ouviram-se “vivas”, toda a gente se abraçava. (…) Descera, na carreira, vencendo o mais feroz oposição de vento e mar, o “Capitão Ferreira” e o “João Costa” – oitavo e nono navios lançados à água, no ano de 1945 em estaleiros nacionais, com destino à frota bacalhoeira e que já tomarão parte na campanha de 1946.

Jornal do Pescador, órgão das Casas dos Pescadores, Ano X, nº 85, Janeiro de 1946

29 de out. de 2008

JOAQUIM DE CARVALHO

Lembro-me, como se fosse ontem, das lições que me dava quando, por volta das 17 horas, saía da Biblioteca da Universidade. Com o seu sorriso largo e franco, acolhia-me de braços abertos, convidando-me a passear com ele pelo pateo da velha Alma Mater: só se detinha para admirar a paisagem suave do Mondego e dos campos circundantes.
(…) Recordo-me de que, certa tarde, tivemos de aguardar em Alfarelos o comboio para Coimbra. Passeando a todo o comprimento da estação, falou-me dos seus trabalhos, dos amigos e colegas (…).
Em 1949 encontrei-me em Roma, no mês de Junho, com Cabral de Moncada. Pedi-lhe que me indicasse uma boa síntese do pensamento religioso, filosófico e jurídico do século XVIII.. Aconselhou-me a consultar Joaquim de Carvalho “Verá que ele vai resolver o seu problema. Carvalho sabe tudo”.
Ele foi, porventura, o mais lúcido investigador da nossa civilização. Não obstante, um silêncio imerecido tem passado sobre o seu nome e os seus escritos. (…) Não obstante todos os seus créditos, o nome de Joaquim de Carvalho passou ao limbo dos estudiosos ignorados. Tratar-se-á do esquecimento que geralmente ocorre, mesmo no caso de figuras gigantescas da história intelectual, nas três ou quatro décadas que se seguem à sua morte? Como quer que seja, Joaquim de Carvalho não merecia este esquecimento.

José Pina Martins, 1978, prefácio à Obra Completa de Joaquim de Carvalho

27 de out. de 2008

12 de out. de 2008

JOAQUIM DE CARVALHO E O PATRIOTISMO


"A grande maioria dos portugueses vive o amor pátrio como dado intuitivo e imediato, identificando-o normalmente com o amor à terra em que nasceram e onde lhes decorreu a primeira educação. Assim considerado, este amor pátrio gera um patriotismo localista e constitutivamente emotivo. O seu horizonte físico mal vai além da aldeia ou da vila natal e o seu horizonte moral é definido pela constelação de sentimentos que tem por centro a casa familiar. Constitui a forma mais simples, tenaz e generalizada, da fenomenologia do nosso sentimento patriótico, sendo suas notas características a visão estática e a saudade, por assim dizer vital.
Se não erro, é o amor pátrio assim entendido, ou melhor assim sentido, que explica em grande parte a constituição da nossa vida civil com base no agregado familiar, o desinteresse pela vida pública como actividade de primeiro plano, e a instabilidade de todas as organizações de significação estritamente política".

Joaquim de Carvalho, extracto de "Compleição do Patriotismo Português", discurso proferido no Rio de Janeiro, em 10 de Junho de 1953. Na foto, o ilustre pensador na conferência.
Assinala-se este mês cinquenta anos da morte de Joaquim de Carvalho.

29 de set. de 2008

PALHEIRO DA COVA



Na margem sul do Mondego predominavam os extensos campos dunares que se estendiam desde a embocadura do rio, seguindo para sul pelo litoral (…)
As pequenas povoações piscatórias eram caracterizadas por construções primitivas de madeira, erguidas por estacaria e denominadas de palheiros. A pesca foi a actividade principal destas populações. A necessidade de não se distanciarem do mar obrigava-as a construções adaptadas às condições de instabilidade do terreno para vencerem a dinâmica litoral inerente à acção dos ventos e do mar. A povoação Cova de Lavos foi um exemplo típico desse tipo de aglomerado de palheiros. Hoje apenas denominada de Cova, a povoação lembrava uma aldeia lacustre construída sobre uma depressão dunar, em frente ao mar.
Os palheiros da Cova, disseminados por vezes em arruamentos, foram sempre de forma rectangular e chegaram a totalizar as cinco centenas de habitações.

Na foto: Palheiro da Cova. Em plano intermédio a capela da Gala.

Retirado de "Transição entre os séculos XIX e XX na Figueira da Foz: os aspectos sócio-culturais e seu enquadramento geo-natural através do contributo da fotografia", de Miguel de Carvalho, in As Ciências da Terra e da Vida ao Serviço do Ensino e do Desenvolvimento, Ed. Kiwanis Clube Figueira da Foz.

22 de set. de 2008

PARA AFUGENTAR AS BRUXAS


Eu me entrego a S. Silvestre
E à camisa que ele veste
E aos seus anjos, trinta e sete
Cortou a cabeça à sérpe
O coração ao leão.
Para que me livre do demónio
E a quantos aqui estão:
Ao redor desta casa
Anda uma grande conquista
Valha-me o Anjo da Guarda
Mais S. João Baptista

II tomo do Folclore da Figueira da Foz de Cardoso Martha e Augusto Pinto, Espózende, 1913, 269 p. Composto por “Devocionário”, “Superstições”, “Costumes”, “Adagiário” e “Contos Tradicionais”.

26 de ago. de 2008

O AMERICANO



Em 28 de Agosto de 1876 o Americano começou a transportar passageiros.
Inaugurado em Dezembro do ano anterior, o custo da construção da linha orçou em 45 contos. A obra provocou alguma polémica devido ao facto de a Empresa das Minas de Carvão do Cabo Mondego que detinha o alvará do transporte ter procedido a demolições na muralha buarquina. A empresa justificou-se com a inacção da Câmara no arranjo da via entre a Figueira e Buarcos prontificando-se a repará-la e a, logo que possível, começar a transportar banhistas no Americano.

Agora já posso dizer que foi inaugurado o caminho-de-ferro das Minas do Cabo Mondego. Os carros percorrem a totalidade da linha e às minas vai muita gente de passeio, muito mais rápido e cómodo que a rotineira excursão no clássico burro” (Tribuno Popular)

A tracção fazia-se, portanto, com cavalos ou mulas. Em 1888 foram acrescentadas duas extensões à linha: uma, que ligava o cais novo ao forno de cal da Salmanha (também da empresa) e a segunda, deste último ponto à estação de caminho de ferro.

Em Agosto de 1901 o horário praticado incluía carreiras de 15 em 15 minutos da Praça Nova para a praia, nove carreiras entre a estação e o centro da cidade, quatro carreiras do centro para Buarcos e uma da cidade para o Cabo Mondego.

Em Outubro de 1903 começa a usar-se a tracção a vapor que, no caso dos passageiros, era usada apenas em situações de grande afluência, como quando acontecia a festa do S. dos Passos em Buarcos.

Ainda chegou a ser pedida a tracção eléctrica mas esta acabou por não avançar. Em 1927 a empresa obteve um empréstimo com esta finalidade mas cuja aplicação se gorou.

O Americano entra em declínio a partir de 1926, altura em que foi abandonada a tracção a vapor e se voltou aos animais. Em 1931 a Câmara lança uma carreira de autocarros entre a estação e Buarcos (alugados à Gouveia e Campos de Coimbra) e assim aniquila o velho transporte.

Consultada a revista Bastão Piloto, nº 209/210, Set/Dez de 2000.

4 de ago. de 2008

PEDRO FERNANDES THOMÁS E “A FIGUEIRA E A INVASÃO FRANCEZA”


A segunda metade do século XIX, período que viu crescer e viver Pedro Fernandes Thomás, foi, em Portugal e na Figueira, de grande riqueza histórica.
O país vivia um período de estabilidade política, marcada pelo “Rotatitivismo” partidário e assistiu a um crescimento económico salutar, caracterizado sobretudo por uma revolução ao nível dos transportes. Chamou-se-lhe o período da “Regeneração”.
Mas foi acima de tudo na cultura que esta época mais floresceu; basta atentarmos nos nomes de alguns escritores e pensadores de então para nos impressionarmos: Camilo, Eça, Oliveira Martins, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Antero de Quental, Teófilo Braga, Sampaio Bruno e Leite de Vasconcelos, entre outros. Foi a época da “Questão Coimbrã” e das célebres “Conferências do Casino” e foi um tempo de surgimento de grandes marcos na imprensa: “O Mundo”, “O Século”, “O Primeiro de Janeiro”, a “Voz do Operário” e as revistas “Lusitana” e “Ilustração Portuguesa”.
Também na Figueira este período foi áureo. Desenvolveu-se a indústria (fábricas do Vidro e da Cerâmica), fez-se grandes obras no porto, rasgou-se a ligação por estrada a Coimbra e a Leiria, abriu-se a linha da Beira Alta e do Oeste, construiu-se o mercado e iniciou-se o abastecimento de água e a iluminação pública.
Ao nível da cultura a lista é também prodigiosa: construiu-se o Theatro Príncipe, a actual sede da Assembleia Figueirense, o teatro Saraiva de Carvalho, o Museu, o Ginásio, a Naval, a Dez de Agosto e já no início do século XX, os teatros do Caras Direitas e o Trindade; nesta altura também foi lançado o jornal “O Figueirense” (1863).
Em suma, a Figueira mostrava uma classe burguesa pujante, dinâmica e com capacidade de afirmação no contexto nacional.

Pedro Fernandes Thomás viveu, pois, num contexto de enorme riqueza histórico-cultural, dir-se-ia mesmo num período muito interessante da história portuguesa e da Figueira da Foz. O investigador teve ainda o privilégio de partilhar o seu tempo com uma interessante plêiade de homens figueirenses: Santos Rocha, Acácio Antunes, Goltz de Carvalho, João Costa, Francisco Lopes Guimarães e Fernando Augusto Soares, entre outros. A geração que se seguiu, e com a qual certamente conviveu, foi também uma geração rica em personalidades que pela sua actividade marcaram e se distinguiram na vida pública: Elói do Amaral, João de Barros, Salinas Calado, Cristina Torres, Santiago Prezado, Cardoso Marta, Maurício Pinto, Manuel dos Santos, António Piedade, Joaquim de Carvalho, Raimundo Esteves e João de Oliveira Coelho.
A “A FIGUEIRA E A INVASÃO FRANCEZA, notas e documentos” foi editada em 1910. Todos sabem que esta é a data da implantação da República. Era um tempo marcado por dois sentimentos colectivos fortes: o patriotismo e o anti-clericalismo.
Por aqui se compreende como em 1910, uma obra que relatasse a oposição ao invasor estrangeiro encontrava correspondência na exaltação do sentimento pátrio. A data justificava-a, pois em 1908 assinalara-se o centenário daquelas invasões, mas o momento era propício. Era também pertinente associar ao espírito patriótico o espírito liberal de alguns clérigos, como era o caso de Pister e Andrade, razão porque um dos capítulos da obra lhe faz menção, assim como à sua obra poética. De resto, as outras partes da obra, como o documento que atesta o oferecimento de um refresco às tropas inglesas por parte dos negociantes de Coimbra, ou a ode liberal de José Joaquim de Figueiredo intitulada “A Paz de Lysia”, escrita por ocasião da inauguração da iluminação pública na Figueira, reforçam a ideia do triunfo (tardio) do liberalismo e colam a Figueira da Foz a esse movimento e seu ideário.

Na parte relativa aos acontecimentos históricos que se prendem com a invasão francesa, Pedro Fernandes Thomás dá nota pormenorizada dos momentos vivenciados na Figueira, naquilo que se chamou a primeira, segunda e terceira invasão.
Ficamos a conhecer as tomadas de posição públicas da Câmara e das populações; A obra é profusa na inserção de actas.
Conhecemos os nomes dos que abriram mão do seu pecúlio para ajudar na heróica resistência ao invasor (e os que tiveram que pagar aos franceses o seu esforço de guerra - À Figueira coube então a entrega de 180 mil reis e ao erário figueirense um empréstimo de 144 mil réis, destinado a reparações no forte de Stª Catarina, do qual nunca foi ressarcido).
Conhecemos, ao pormenor, a intervenção do esquadrão académico que, acompanhado de populares, tomou ao ocupante o forte de Stª Catarina (descrição feita por Zagalo da tomada do forte publicado no nº 5 do “Minerva Lusitana”).
Acompanhamos o pavor das gentes e os seus receios, quando após a expulsão dos franceses se colocou a hipótese do seu regresso e ficámos a saber como se recebeu sua eminência, o bispo de Leiria, que procurou acolhimento no Convento de Santo António. Conhecemos os nomes dos que compuseram a Junta de Governo da Vila e as medidas tomadas para protecção da cidade, bem como as que suportaram o desembarque dos ingleses.
Assistimos ao desembarque dos ingleses, primeiro em Buarcos (a nau Alfredo) e depois, no Cabedelo. Percebemos as estratégias em jogo no enfrentamento do invasor, com a posição de Wellington a prevalecer.

Na segunda invasão tomamos nota da resistência das populações à saída do governador José Correa Soares, bem como a abertura de donativos dos locais ao esforço de protecção da vila.

Na terceira invasão, de todas a que mais represálias teve sobre as populações, conhecemos o drama de Mariana Fernandes Thomás (irmã de Manuel) que dá nota, numa carta pormenorizada dirigida ao seu irmão, da forma como a sua família e ela própria foram vilipendiados pelo invasor e despojados dos seus bens e da sua liberdade.
Vivemos o drama das populações que ora debandam para os arredores, ora acorrem à vila.
Conhecemos as más condições em que vivem, o grassar da fome e das epidemias. Percebemos as preocupações da Câmara que se desdobrava na busca de alimentos e que depois teve que se preocupar com os mortos (passam a ser enterrados na cerca do convento de Santo António; nasceu assim, digamos, o cemitério Setentrional).
Tomámos nota, finalmente, da forma como se festejou, na Figueira e em Lavos, a expulsão das tropas francesas (16 de Abril de 1811).

A obra descreve ainda como se assinalou a efeméride nas comemorações do primeiro centenário. Um enorme e participado cortejo, envolvendo as escolas, as filarmónicas, as associações recreativas e profissionais, polícias e bombeiros e representantes de entidades várias desfilaram dos paços do concelho ao forte, onde houve missa e se assinalaram salvas de artilharia. Foi descerrada a lápide colocada no forte e de regresso aos paços do município onde se celebrou a sessão solene com vários discursos. Reza a obra que,
“O salão nobre, corredores e escadas estavam repletas de pessoas de todas as condições sociais. No vasto salão tudo quanto de distinto e notável existia na Figueira e arredores, e grande número de formosas e gentis damas”.

(Texto que serviu de base à apresentação da obra aquando da sua reedição – palácio Sotto Maior, 1 de Agosto).

A FIGUEIRA E A INVASÃO FRANCEZA



Republicação da obra, editada em 1910, da autoria de Pedro Fernandes Thomás. Constitui um relato interessante do que se passou na Figueira da Foz aquando da invasão francesa (as três), abordando as tomadas de posição dos poderes públicos, a retoma do forte por Zagalo, os desembarques das tropas, os medos e receios das populações, os ataques de que foram vítimas. OS documentos que acompanham são, também, de muito interesse.
Referência ainda, na obra, ao pároco Pister e Andrade (co-adjutor do Pároco de Lavos que recolheu Wellesley em sua casa) e ao seu poema "Wellingtaida", bem como às comemorações do primeiro centenário da invasão e ao poema "A Paz de Lysia" de José Figueiredo.
Uma (re)edição do livreiro Miguel Carvalho, apaixonado da história da Figueira e fiel depositário de muitas e boas obras sobre esta terra. Pelo que nos diz, depois deste e do "Folclore Pornográfico" editado no ano passado, as reedições vão continuar.

29 de jul. de 2008

WELESLEY DESEMBARCA


No dia 1 começou o desembarque nas praias do sul (Lavos) bastante contrariado por uma forte ventania do norte, tão frequente na nossa costa n`aquella época do anno.
Todos os barcos capazes de aguentar o mar (lanchas, barcos de pesca do alto, etc.) foram empregues no transporte de tropas, tendo prestado grandes serviços a galeota dinamarqueza Elisabeth, ancorada no nosso porto.
O procurador do concelho, coadjuvado por Domingos Lopes da Silva, procurava assegurar os transportes das tropas, embargando os carros e cavalgaduras que se podiam encontrar, mandando construir grandes mangedouras em Lavos para onde foram enviados pastos e palha. Do Porto remeteu a Junta suprema ao General Moore, 200 montadas para o serviço do exército, e 4 cavallos para o serviço do general.
Para interprete dos inglezes e para os acompanhar, nomeou a Junta António José da Silva.
O general Welesley hospedou-se em Lavos, em casa do parocho, que então era o padre António de Macedo Pereira da Horta.
(…) Em 5 entra em Coimbra, no meio do maior enthusiasmo, o general Bernardim Freire de Andrade, que consegue reunir ali mais de 1500 homens de tropa de linha(…)
Em 7, Welesley vai a Montemor-o-velho conferenciar com os generaes Bernardim Freire e Manuel Pinto Bacellar.
Os generaes portuguezes querem que as operações da guerra se façam no interior da Beira (…). Welesley, porém, recusa-se terminantemente a abandonar o litoral na sua marcha; considera a esquadra como a sua base de operações (…).
Tal foi o resultado da conferência de Montemor, regressando depois d`ella á Figueira, e partindo em seguida com as suas tropas e a pequena divisão portugueza em direcção a Lisboa.

Ult.op.cit.

24 de jul. de 2008

Mr BLIGH DESEMBARCOU EM BUARCOS



(…)destacou-se da esquadra a nau Alfredo, do commando do capitão Bligh, que desembarcou em Buarcos com alguma tropa.
Não havendo onde aquartellar esta força mandou a Junta immediatamente construir no Pinhal oito barracões de madeira, e uma cosinha para preparar os alimentos.
Mr. Bligh demourou-se algum tempo na Figueira, indo pelo rio até Montemor, no barco de Lourenço Gonçalves.
A fim de prevenir alguma surpreza do inimigo, estabeleceram-se palissadas nos sítios do Pinhal e Lamas, principaes entradas da povoação, que foram defendidas por algumas peças de artilharia; a guarnição do forte foi reforçada, reparadas as principaes obras de defeza, e provido das competentes munições.
As povoações vizinhas da Figueira apressaram-se a mandar os soccorros que puderam, vindo de Maiorca uma companhia de ordenanças com 51 homens, das Alhadas 24, de Mira 92, da Carapinheira 81, de Arazede 68, de Liceia 15. Em Buarcos organisou-se também uma companhia com 74 homens, sendo alguns da Figueira, perfazendo tudo um total de mais de 400 ordenanças. De Peniche vieram vinte e cinco soldados de artilharia, e de outras localidades alguns soldados de infantaria e cavallaria.
(…) Foram enviadas diversas escoltas ao sul do Mondego, a fim de observarem os movimentos do inimigo; d`uma d` elas era comandante José Fernandes Thomaz. Estabeleceu-se também um serviço de posta a cavallo dirigido por João António Ferreira de Sá.
A esquadra ingleza conservava-se á vista da Figueira, aguardando o ensejo favorável de operar o desembarque das tropas que só poude começar a fazer-se no dia 1 de Agosto. A este tempo a Junta tinha já encarregado o mestre Ricardo José Monteiro, de construir algumas barracas, destinadas a alojar as tropas inglezas durante a sua permanência na Figueira

Retirado de A Figueira e a invasão franceza, notas e documentos de Pedro Fernandes Thomás, Figueira, 1910

16 de jul. de 2008

MÁRIO AUGUSTO, PINTOR

Representado nos grandes museus nacionais, Mário Augusto possui um incontestável valor na pintura portuguesa.
Nascido nas Alhadas (23.07.1895), cursou Belas Artes em Lisboa e no Porto, onde concluiu o curso geral. Foi bolseiro e esteve em vários países, como a França, a Inglaterra, a Bélgica e Espanha. Foi mestre de pintura na escola António Arroio e na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Não deixou de pintar as paisagens, lugares e personagens da sua terra e arredores, estando muito divulgado o seu quadro em que retrata “O Latoeiro”. Faleceu em Coimbra, em Agosto de 1941. Há poucos anos tornou-se patrono da escola básica 2/3 de Alhadas.

Imagem (Raparigas das Alhadas, 1930) retirada de galeria-de-mario-augusto.blogspot.com

12 de jul. de 2008

A GREVE DOS BACALHOEIROS



Corria a primavera de 1937, altura em que se começava a preparar a campanha do Bacalhau, quando os pescadores do “fiel amigo” decidiram que não iriam acatar as ordens do governo. Estas traduziam-se, desde 1935, na entrega da responsabilidade pelo recrutamento e regulação dos acordos de trabalho dos pescadores ao Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau. A formalização da matrícula consistia na aceitação das condições de trabalho, negociadas entre os armadores e o estado. Em síntese, a procura e escolha do navio em que o pescador trabalhava deixava de ser livre.

Foi na Figueira da Foz e em Buarcos que a greve mais se fez sentir; os pescadores recusavam matricular-se. Na altura, a Figueira era o segundo maior porto bacalhoeiro em número de navios e o maior em recrutamento de homens para a pesca. Só em 1936 embarcaram 500 homens de Buarcos e 300 das restantes freguesias, grande parte da Cova e Gala.

A importância do movimento chamou a atenção do Diário de Lisboa que fez uma reportagem em Buarcos sobre a greve, intitulada “Pesca do bacalhau ameaçada”.

Além da recusa da matrícula, os pescadores de Buarcos – que possuíam sindicato – reivindicavam um aumento de 500 escudos na soldada fixa. Com o andar do tempo os armadores pressionavam o governo e os comerciantes da Figueira apelaram ao Ministério da Marinha para resolver a crise. Assim foi. Começaram a ser presos pescadores e um grupo que foi preso e que seguia sob escolta da capitania da Figueira para Buarcos teve o apoio da multidão que saiu à rua para apedrejar a polícia. As crónicas rezam que houve tiros e coronhadas.

A repressão fez ceder os pescadores. O Ministro da Marinha entretanto fazia sair um diploma em cujo preâmbulo se lia: “Verifica-se que para a campanha de 1937 não se apresentaram à matrícula pescadores em número suficiente para que nela possam tomar parte todos os navios que constituem a frota bacalhoeira, incluindo os que se estão acabando de construir. O interesse da nação exige porém que saiam à pesca todas as unidades em condições de o fazer”.

No dia do embarque, 15 de Maio de 1937, muitos pescadores foram presos e colocados a bordo pela polícia. Rebelo de Andrade dava a sentença: “O interesse nacional exige que os navios saiam; o governo, ponderadas todas as circunstâncias, resolveu mobilizar os pescadores; esta é a última palavra do governo, que assume a responsabilidade desta medida e garantirá os meios de a fazer executar”.

Seguiu-se de perto o artigo de Álvaro Garrido, Os bacalhoeiros em revolta: a «greve» de 1937, in Análise Social, vol. XXXVII



29 de jun. de 2008

ZAGALO E O FORTE

Passam duzentos anos da tomada do forte de Stª Catarina aos franceses.
veja-se o post de Maio de 2005 "A Tomada do forte de Stº Catarina".